sexta-feira, 30 de março de 2018

O Conto Dos Contos

"Nem de Pasolini, nem de Canterbury e sim de Matteo Garrone!"


Do realismo para a fábula, diretor italiano sustenta seu talento e continua provando do legado do Cinema italiano.

DVD ENVIADO PELA DISTRIBUIDORA A2 FILMES PARA SER COMENTADO NO
MAIS CINEMA

Impressiona a curva fatal de sua narrativa que o diretor italiano Matteo Garrone, que edificou a identidade de seu Cinema pós anos 2000, realiza em "O Conto Dos Contos". O cineasta que vinha de grandes trabalhos marcados pelo realismo, da brutalidade extraordinária de "Gomorra" à cruel anestesia de "Reality - A Grande Ilusão", de repente realiza uma "senhora" fantasia que só encontra pontos em comum com seus filmes anteriores, quando expõe como a corrosão dos desejos de seus principais personagens os destrói e segue destruindo os seus, a sua volta. Os contos de "O Conto Dos Contos" são narrados pelo diretor com o notável ardor por contar histórias, um talento próprio de Matteo Garrone que, assim, sustenta sua criatividade e seu olhar crítico para o material que está extraindo.

Matteo Garrone sempre busca uma forma de evocar o legado do Cinema italiano, ao mesmo tempo em que se esforça por revitalizá-lo com a maior veneração possível e, chamando a atenção mais ainda, alcança um resultado admirável em seu primeiro filme em inglês. Ao assistir "O Conto Dos Contos" é impossível não se lembrar por vezes do cinema de Pier Paolo Pasolini, em especial, lógico,  de "Os Contos De Cunterbury". Também é preciso notar que, certamente há muito tempo, não víamos um Cinema sobre contos, feito com o cuidado de preservar seu aspecto surreal, sem cair no grotesco. Assim, ao adaptar a obra medieval do poeta italiano Giambatista Basile, de 1600, o diretor italiano é bem sucedido, mesmo nas concessões ou licenças poéticas que tomou.

Este filme é bem humorado, incansável e promove boas surpresas ao longo da narrativa. Algumas destas surpresas se devem a escolha do elenco para os personagens convidados a representar. É uma grande maravilha assistir nomes como Salma Hayek, Bebe Cave, Shirley Henderson, Stacy Martin, Vincent Cassel, Toby Jones e a linda participação especial da extraordinária Alba Rohrwacher. Em alguns momentos, nem todos esses nomes conseguem dar conta da proposta de "O Conto Dos Contos", como os elencos de Pasolini conseguiam sem nenhum esforço, principalmente os não-atores, mas, sem prejudicar o resultado, tudo em "O Conto Dos Contos" é um sabor.

" O CONTO DOS CONTOS " - Il Racconto Dei Racconti - Dir. por Matteo Garrone - Itália/UK - 2015 - DVD enviado ao Mais Cinema pela distribuidora A2 Filmes para ser comentado.

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quinta-feira, 29 de março de 2018

Eu, Tonya

"Para amar ou para odiar, a América sempre quer alguém!"




Na cena mais chocante de "Eu, Tonya", a garçonete Lavona (interpretada magnificamente como um trator pela extraordinária Allison Janney) joga uma faca que afunda no braço da filha Tonya (outra "interpretação trator", exibida hipnoticamente pela igualmente extraordinária Margot Robbie), prendendo a respiração do expectador. Se tem uma coisa com a qual a patinadora Tonya Harding sempre lidou sem opção foi a violência. A mãe, acreditando no potencial esportivo da filha, a impôs criança à treinadora e sem aceitar um não. O que se segue depois faz de "espancar" um apelido, tanto no físico, quanto no psicológico. O marido que Tonya arrumou foi pelo mesmo caminho, fazia questão de deixar hematomas impressos sobre a pele da patinadora, aprisionada por aquele "amor violento". E a atuação de Tonya como patinadora, a grande beleza da existência de sua vida, iniciou o decreto de fim quando a perna de sua principal rival, Nancy Kerrigan, foi atingida em cheio por uma senhora barra de ferro  (os gritos da patinadora, nos vídeos reais da época, são angustiantes). Um dos casos mais polêmicos da história do esporte mundial, nunca se saberá o quanto Tonya Harding teve, ou não, seu dedo metido na história. E tudo isso, no filme infernal do cineasta australiano Craig Gillespie, serve como matéria-prima para ajudar a revelar, neste momento, a América de Donald Trump.

Pois é, "Eu, Tonya", ao lado de outras realizações deste ano como o ápice "Três Anúncios Para Um Crime", ajuda a compreender um pouco do sentimento que paira sobre a atmosfera americana pós Trump, que está colocando atenção na tal "outra América". É um olhar para uma fatia da população (e olhar que vem causando a maior das polêmicas do milênio) que vive sob as mesmas violências (ou dê o nome que você quiser) que Tonya Harding viveu. Dessa forma, o filme do cineasta Gillespie é tão bem sucedido na sua comunicação que, sem nenhum pudor, usa e abusa com perversão da quebra da "quarta parede", colocando por vezes os personagens falando diretamente à câmera e explicando suas atitudes violentas, agressivas ou as razões de suas atitudes insensíveis, mas conscientes. É a maneira como a leitura da contraditória vida de Tonya Harding (o mundo cão), encontra na direção pra lá de afiada de Craig Gillespie, um relevo ensurdecedor nos dias de hoje. De fato, por mais divertido, insano, irônico, sarcástico, que o filme seja, é uma leitura que pode confundir muitas impressões sobre o resultado.

Craig Gillespie já havia demonstrado no extraordinário "A Garota Ideal" (o delicioso filme em que Ryan Gosling mantém relação com uma boneca inflável) o prazer por narrar histórias improváveis e com um sabor admirável. No entanto, 10 anos depois, ele demonstra o mesmo sabor, promove um grande entretenimento e consegue incorporar vários talentos em "Eu, Tonya". A própria trilha sonora deixa o filme tão envolvente, tão em êxtase, que é um prazer absoluto ouvir "The Chain", do grupo Fleetwood Mac ou "Free Your Mind", das maravilhosas "En Vogue", aliás, é um hino atrás do outro, é um prazer recordar uma época através de grandes músicas. Então, o que temos em "Eu, Tonya" é um acerto fenomenal, que segue sim, em algum momento, um certo clichê de cinebiografias, mas que encontra todo um resultado notável como um dos melhores filmes do ano. 

" EU, TONYA " - I, Tonya - Dir. por Craig Gillespeie - EUA - 2017 - Distribuidora no Brasil: Califórnia Filmes - Exibidor para o Mais Cinema: Cinema Caixa Belas Artes

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quarta-feira, 28 de março de 2018

Sieranevada

"Arrebatador, esse talvez seja o filme definitivo sobre a família romena tradicional pós-ditadura, mas, por favor, atenção aos detalhes!"

DVD, À VENDA, ENVIADO PELA DISTRIBUIDORA A2 FILMES AO MAIS CINEMA,
PRA SER COMENTADO


Quase 3 horas de filme, quase 3 horas de um roteiro impressionante e quase 3 horas de uma direção para ser aplaudida de pé. São quase 3 horas que se passam em 90% desse tempo dentro de um apartamento dos tempos do comunismo e que atingem momentos memoráveis com quase 20 pessoas  indo e vindo, ininterruptamente (e entenda isso como um balé), dentro desse ambiente. Já assistimos obras-primas filmando encontros de famílias, mas pode acreditar, nenhuma delas passa perto do encontro dessa família romena. É curioso, é um espetáculo, é mais um grande resultado do verdadeiro fenômeno que a nova geração de cineastas romenos se tornou e se levanta como uma aula, ao pensar até onde esse novo modo de fazer Cinema pode chegar, uma vez que "Sieranevada" é um resultado que, se me contassem, eu não acreditaria. A começar dos detalhes, tudo em "Sieranevada" é fruto de uma imaginação autoral tão única que, ou os mais desavisados (incluindo também quem ainda não conhece os talentos do novo Cinema romeno) vão achar um filme chatérrimo, ou o filme vai cumprir tão bem a proposta de imersão, que vai deixar o gostinho de "quero mais". O que não se pode deixar de levar em conta é: quem dirige e escreve esse filme é o grande cineasta Cristi Puiu, responsável por 1 dos 3 filmes obrigatórios, que servem de estudo para compreender o novo Cinema romeno e estamos falando de sua obra-prima "A Morte Do Senhor Lazarescu".

Na grande maioria de todos os filmes que foram feitos pelos cineastas que estão questionando a Romênia pós-ditadura, são as deixas dos textos primorosos de seus filmes, os pontos mais deliciosos e que tomam conta dos conflitos principais, principalmente dos conflitos que dilatam e surpreendam o espectador. Logo, em "Sieranevada", essa família romena está cumprindo um ritual ortodoxo de celebrar o 40º dia depois da morte, que no filme é feito decorrente da morte do patriarca. Acreditam que a alma deixa o corpo, viaja por 40 dias, porém no 40º dia encontra Deus e vai a julgamento. Essa reunião está acontecendo numa data específica, 10 de Janeiro de 2015, alguns dias depois do ataque ao Charlie Hebdo, informação que em algum momento, durante o filme, é dita no rádio, mas que o diretor forjou à discrição, também oferecendo um sentido sobre um dos conflitos que falaremos adiante. Por fim, você tem um filme de quase 3 horas, sobre a reunião de uma família romena e que acontece, praticamente todo ele, dentro de um apartamento como os apartamentos que o povo romeno viveu durante os tempos do comunismo. Esses apartamentos geralmente eram de 80 metros quadrados, com 3 quartos, mas (curiosidade) o diretor, mesmo preservando ao máximo toda a "mise en scène" e para que o dispositivo técnico da escolha de como filmar adquirisse mais de um mínimo de liberdade, optou por fazer o filme num apartamento de 100 metros. Para uma melhor apreciação do filme, que esses detalhes não se percam.

Logo na primeira sequência sem cortes do filme, uma sequência de 5 minutos, toda a inteligência e a intuição do diretor, mais o ensaio do elenco, funcionam causando uma admiração tão grande, que se deve questionar o que mais virá a seguir. A câmera está posicionada numa espécie de ângulo central, que consegue captar os principais (e próximos) cômodos, mas é o "abre e fecha" da porta da cozinha, o grande espetáculo. É gente entrando, gente saindo, gente surgindo, gente de lá de dentro tentando manter a porta fechada, mas a tarefa é dificílima. Na verdade, a cena é um grande cartão postal de uma das maiores marcas do novo Cinema romeno: o humor que cria deboche até em situações automáticas. É esse "abre e fecha", é esse trânsito dentro do local, é esse "entupir" de gente num lugar pequeno e é essa maneira de quebrar a censura, entre a sensação de que uma ação é feita para o espectador e a possibilidade de debochar dessa sensação, é o que faz desses ingredientes cômicos do novo Cinema romeno uma influência sobre outros modos de fazer Cinema. É engraçadíssimo assistir um personagem tirando da caixa uma bicicleta portátil para a mãe fazer exercícios e perceber que existe durante toda a cena uma outra personagem o tempo todo de costas para a câmera e chorando. É literalmente um "tô nem aí".

Sabemos também que, no Cinema, a Câmera é a posição do ponto de vista do espectador, que pode estar sob o ponto de vista de um personagem ou não. Veja só, em "Sieranevada", a ideia de sustentar esse ponto por onde a câmera observa tudo nos remete a ideia do 40º dia; sim, a câmera assume a presença do morto e vemos as ações como se ele estivesse vendo. É um elo de afeto. Ao mesmo tempo a posição da câmera usa todo o espaço reduzido e este apartamento se torna um palco diverso, com gente de opiniões muito diferentes trocando de cômodo o tempo todo. Nesse sentido, nos aproximamos da beleza em captar os cidadãos romenos que, mesmo em família, estão olhando para suas individualidades, caindo em contradição com o que dizem e tendo que dar conta de refletir o mundo. Ao mesmo tempo em que tem gente ainda defendendo os ideias comunistas, tem gente chorando só de ouvir falar, ao mesmo tempo que tem gente que nem é da família vomitando no banheiro e tem gente discutindo sobre fake news do Charlie Hebdo; aliás, vejam só, o diretor discorre seu filme dias após o Charlie Hebdo, justamente porque na Romênia pós-ditadura, é um tanto confuso se as pessoas estiverem sabendo demais sobre um assunto ou se estiverem sabendo de menos, fazendo uma alusão há como se mede o desenvolvimento ou a comunicação das nações, na era da tecnologia. Se checar a notícia já é uma dificuldade em países considerados avançados, imagine na Romênia. Sobretudo, nessa pequena joia do Cinema romeno, indicada pelo país ao Oscar em 2017, o que se sabe sem dúvidas, é que um filme extraordinário.

" SIERANEVADA " - Sieranevada - Dir. por Cristi Puiu - Romênia - 2016/2017 - Dvd enviado ao Mais Cinema, pela distribuidora A2 Filmes, para ser comentado.

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domingo, 25 de março de 2018

Projeto Flórida

"Poderoso, glorioso e de rasgar o coração!

Um dos 10 grandes filmes do ano!"



Este diretor de 47 anos, chamado Sean Baker, surgiu no pós anos 2000 e, gradativamente, foi conquistando as atenções, ao lançar um olhar honesto para um outro lado da América e transmití-lo com uma emoção genuína para o Cinema. Eu seus filmes anteriores a "Projeto Flórida", imigrantes, vigaristas, desempregados e idosos formaram uma paisagem humana que, em 2015, atingiu um momento de raríssima beleza, com seu elogiadíssimo "Tangerine" (que estreou no Brasil em 2016), um drama frenético, bem humorado e criativo, centrado em transexuais. Estava explícito o olhar deste cineasta incluindo no lugar de fala, com histórias a contar, aquela parte da humanidade, feita de paisagem mórbida e que para ele se transforma numa matéria prima bruta, de beleza estarrecedora, a ser captada por uma postura que a privilegie. É justamente desse alinhamento de talentos que nasce esse soco no estômago, que é "Projeto Flórida", sem dúvida um dos 10 melhores filmes do ano e que nos faz curiosos pelo que mais Sean Baker pode fazer. 

Também é preciso mencionar que "Projeto Flórida" é um dos filmes lançados em 2018 que incorpora ecos da espécie de "depressão pós Trump" que se vive nos EUA (ou que se vive a partir da onda de conservadorismo que avança pelo mundo) e que fez de "Três Anúncios Para Um Crime" um ápice neste momento. Esses olhares para esses núcleos da humanidade, antes enquadrados sem força por um "predador", agora demonstram que esses mesmos organismos se levantam com a força de Golias. Em "Projeto Flórida", a história dessa lindeza de menina chamada Moonee, cresce  numa intensidade de fazer grudar o olho na tela, na medida em que o cineasta "abandona" sua câmera a mercê da movimentação da infância da pequena, que cresce com seus amiguinhos num lugar triste de se ver. Nós, adultos, temos a consciência de que o que se assiste é uma dureza de vida, no entanto, o filme é todo entregue a força da natureza da menina, para quem o mundo pode estar desabando lá fora, que nada a atinge; tudo pra ela é motivo de diversão, de descoberta e de admiração.

Moonee vive com a mãe Halley num desses grandes motéis, que ficam ao redor dos parques da Disney, ocupados por vidas à margem e que, principalmente após a crise imobiliária de 2008, foram ainda mais invadidos. Numa das cenas mais hilárias de "Projeto Flórida", um casal de brasileiros vai parar no lugar e a namorada tem uma crise contra o namorado, se recusando a ficar naquela espelunca. É a forma como o cineasta Sean Baker filma que destinos habitam esses locais, porém seu interesse está naquele que é o grande trunfo do filme: filmar a infância. Não é sempre que o Cinema rende bons projetos em torno de crianças e "Projeto Flórida" segue o trovão de referências da última década como "Pequena Miss Sunshine e "Indomável Sonhadora". É um deleite observar como a câmera do cineasta fica no nível das crianças para fazer delas, como ele mesmo disse em entrevistas, rainhas e reis de seu domínio. Nesse sentido, no melhor do contraponto com o consumo de sonho que lugares como a Disney oferecem a infância, Moonee e seus amiguinhos, Jancey e Scooty, criam por conta seu próprio terreno, com o mínimo de liberdade que se deveria ser protegido. 

Toda a composição de "Projeto Flórida" é de uma beleza de fazer arregalar os olhos, com planos abertos privilegiando aquele desbunde de cores e com acabamentos mais próximos do naturalidade. O filme foi feito em meio aqueles motéis em funcionamento, a maioria do elenco são de rostinhos novos e de uma competência absurda. A pequena Brooklynn Prince (moonee, uma das melhores personagens do Cinema neste ano) fez o filme com menos de 7 anos e é extraordinária; a atriz Bria Vinaite, que faz a mãe da Brooklyn, foi encontrada pelo diretor no Instagram e, ao construir uma personagem deslocada, é uma excelente coadjuvante; e, por fim, o maravilhoso Willem Dafoe entrega um desempenho belíssimo, como o gerente do local (repare na sequência em que seu personagem expulsa um indivíduo estranho do lugar, repare como colocou verdade na construção do personagem) e, durante a temporada de premiações/2018, se tornou um grande candidato ao prêmio de ator coadjuvante, mas acabou perdendo para Sam Rockell, de "Três Anúncios Para Um Crime""Projeto Flórida" é belíssimo em tudo, inesquecível e, sem dúvida, está  no destaque entre os 10 melhores filmes do ano.

" PROJETO FLÓRIDA " - The Florida Project - Dir. por Sean Baker - EUA - 2017/2018 - Distribuidora no Brasil: Diamond Films - Exibidor para o Mais Cinema por Daniel Serafim: Cinema Caixa Belas Artes

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segunda-feira, 19 de março de 2018

Caixa Belas Artes

ITATIBA: tem um itatibense fazendo história no circuito de Cinema e a vida decidiu que seria eu 😍


Integrando o grupo de jornalistas do Caixa Belas Artes pelo 2º ano  


Estou em plena gratidão: Hoje, oficialmente, trago em mãos, pelo 2º ano, a credencial de jornalista integrante do grupo de jornalistas do Caixa Belas Artes #BelasArtes , honraria que me foi ofertada, generosamente pelo Cinema histórico de São Paulo, em 2017. Eu só posso agradecer 


Foi ainda em 2016, eu saí da cidade de Itatiba, como um "zé ninguém" e partindo do 0, para atuar como Blogueiro de Cinema e fazer meu sonho maior acontecer, que é, além de trabalhar com Cinema, chegar a um futuro como crítico de Cinema (o que ainda estou longe). Eu não escolhi ser Blogueiro, quando dei por mim, o Blogueiro já vivia em mim. Enfrentei desafios (ainda os enfrento), enfrentei desrespeitos (vivi e vivo do mais sincero perdão a tudo) e, surpreendentemente, para mostrar que eu estava no caminho certo, atitudes espontâneas, como a do Caixa Belas Artes, surgiram em respeito e incentivo ao meu trabalho de luta. Nunca passou pela minha cabeça chegar onde estou chegando e só posso agradecer. Muito obrigado Belas Artes, muito obrigado Carolina Alonso, muito obrigado Camila Coelho e muito obrigado Andressa Lopes, vocês me deram força e vocês tem me ajudado, só posso agradecer. E seguirei com a minha cobertura das atividades do Caixa Belas Artes; de Itatiba pra vocês, eu sou todo de vocês

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domingo, 18 de março de 2018

Os 65 anos de Isabelle Huppert

Não há nada que se compare a Senhora Madame/Lady/Diva Huppert



SOBRE ELA: Isabelle Huppert, no último dia 16, chegou aos seus inacreditáveis 65 anos de idade, que trazem juntos os seus quase 50 anos de carreira (está girando em torno de 46 em 2018) e que acumulam agora 16 indicações ao "César Awards" ( o "Oscar" francês) e ainda sua grande indicação ao Globo de Ouro/Oscar/2017. No que cabe ao amplo significado de "diva", que a história do Cinema incorporou a si com o passar do século que se seguiu à sua existência, seria impossível elencar 3 nomes concisos que nos ajudassem a mapear esse significado nos dias de hoje. No entanto, na minha compreensão, pelo menos 2 nomes estão fadados a ocupar, sempre e sem esforço, esse elenco: um deles, da imensa Meryl Streeep e o outro, da igualmente imensa, Isabelle Huppert. E acredito que esta é uma unanimidade entre todos nós! Em se tratando de Isabelle Huppert, o que mais cabe a sua expressão de diva no Cinema, está distante do filtro de glamour e sim totalmente dentro de como transcende a isso. A atriz extraordinária que é se deve a um aspecto que nós ainda não chegamos a compreensão, mas que sentimos quando ela está em cena: é a inteligência única com a qual ela trabalha, por onde encontra caminhos para construir suas personagens, num terreno desconhecido da nossa mente. Então, ao mesmo tempo em que ela tem todas as técnicas, ela tem também uma sensibilidade ao dar vida a essas personagens, que provavelmente eu e você nunca teremos. Mas a gente sente isso. Ainda dentro de toda sua transcendência, Isabelle tem a elegância, não da moda, mas da humildade no tratamento das pessoas e de sua profissão (ainda assim é vestida pelas marcas mais poderosas do universo); ela tem carinho por seus colegas, ela reitera que aprende atuando e não teme ser honesta. Diva é diva!

SOBRE O FILME: fiquei numa dúvida cruel para escolher um filme recente e falar dela; obviamente, ao lado de " O QUE ESTÁ POR VIR ", estava " ELLE " e os dois são um soco fulminante no estômago, porém, tentando sentir qual ainda estava doendo mais dentro de mim, fui vencido por " O QUE ESTÁ POR VIR ". Então, que se saiba: este é um dos filmes franceses da década, é um dos resultados mais envolventes que se tem notícia e, o maior de todos os seus talentos, este é um filme que infla violentamente, na medida em que Isabelle Huppert, literalmente, liberta sua personagem de dentro de si pra fora e, como atriz, revela do que, de fato, é capaz. Se a gente quiser estudar a capacidade do Cinema em dar vida a uma personagem, aqui está uma das últimas matérias primas mais eloquentes desta década e uma das melhores performances (acredite, sem dúvida nenhuma) de todos os tempos. Podemos já ter visto filmes sobre mulheres desmoronando e se reencontrando consigo mesmas, mas nenhum desses filmes traz a leitura que a cineasta Mia Hansen-Love escreveu e nenhum traz a delicadeza do acabamento de Isabelle Huppert. É um "tour de force" descomunal! O filme " ELLE ", aliás, é outro "tour de force" descomunal que valeu a atriz sua indicação ao Oscar e que nos valeu o lamento por não ter ganho. Que ambos os filmes não se percam. 

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segunda-feira, 12 de março de 2018

Meu 1º presente de aniversário

MUITO FELIZ: MEU 1º PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


E na semana em que completo 31 anos de idade, a lindeza dessa amiga de tantos anos, Marina Camargo, que nunca se esquece do meu aniversário, me presenteia com esse box com 9 filmes dele, que é um dos meus maiores mentores no Cinema, Alfred Hitchcock. Marina, sem palavras, muito obrigado de coração, amo você, o que eu mais amo é ganhar dvds e estou muito feliz em ganhar esse box, que agora som na minha coleção e nos meus estudos! Gratidão de coração!

A semana que traz minha nova idade não poderia começar de uma maneira melhor que essa, com o Sr. Hitchcock aproveitando do carinho que Marina sente por mim e expressando ele mesmo como tem estado ao meu lado, neste trabalho de luta que tenho feito como Blogueiro de Cinema. Precisamos abrir os nossos olhos e ouvidos aquilo que a gente ama e aquilo que define nossa existência; não tenho nenhuma dúvida que, através de uma inspiração que certamente ele deve ter movido dentro do coração de Marina, está se servindo para mostrar que tenho sua "benção" e me oferecendo seus filmes que amo tanto e sobre os quais os estudos não podem parar:

"Chantagem E Confissão" / "A Dama Oculta" / "Rich And Strange" / "Sabotagem" / "O Agente Secreto" / "Os 39 Degraus" / "O Homem Que Sabia Demais" / "The Lodger" / "Número 17"

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domingo, 11 de março de 2018

Como Nossos Pais

"O melhor filme brasileiro de 2017. Ponto. E por várias razões!"

DVD E CARTAZ ENVIADOS PELA IMOVISION PARA O DANIEL SERAFIM MAIS CINEMA
QUERO AGRADECER A IMOVISION, AGRADECER AO ASSESSOR ELIAS OLIVE, PELO RESPEITO E CARINHO PELO TRABALHO DO MAIS CINEMA 

O trovão está gritando cada vez mais alto, a chuva começa a cair sobre a mesa, o leite fervido derrama e esses ruídos ameaçam a morbidez. Já vimos muitos conflitos familiares no cinema, alguns filmes sobre reuniões assustadoras de famílias não saem da nossa cabeça, mas nenhum deles é como "Como Nossos Pais". De tantos talentos, o que mais me perturba em "Como Nossos Pais", é como coube ao filme a capacidade de exibir uma ruptura comportamental/cultural/social e de mostrar como funciona a interrupção de padrões que vem sendo transmitidos há séculos e que, até aqui, afetaram sobretudo as mulheres. "Como Nossos Pais" é um filme dirigido por uma mulher, a notória cineasta Laís Bodanzky, a partir de um roteiro escrito por ela e por seu colaborador de longa data, Luiz Bolognese; é um filme de uma cineasta mulher autora, sobre uma protagonista mulher, que representa quase 100% de todas as mulheres. São essas mulheres forjadas até aqui a desempenharem dezenas de papéis segregadores ou registrados como secundários, sempre aprisionadas por filtros minimizadores, machistas e desumanos. Esta é, possivelmente, a primeira vez no cinema brasileiro que um olhar examina o comportamento de gerações, com o desafio de desintegrar tal comportamento ao máximo e devolver a mulher a liberdade suprema e o direito de como viver sua vida. Ao mesmo tempo, "Como Nossos Pais" é um resultado de cinema autêntico, construído majoritariamente por uma direção inspiradora e que conta com atuações magníficas. 

"Você foi concebida na minha viagem a Cuba e o Homero não estava lá": essa é a frase memorável deste filme, é o anúncio que desestabiliza completamente a protagonista e lhe abre a possibilidade de enfiar junto desta decepção todas as suas infelicidades. A partir desta frase, seu pai não é mais seu pai, mas vai aproveitar para o "só ser esposa" não ser mais o só "ser esposa", para o "só ser mãe" não ser mais o "só ser mãe", para o "só dar conta de marido, casa e filhos" não ser mais o "só dar conta de "marido, casa e filhos", ou seja, o desgaste que já vinha pesando sobre a protagonista, vivendo cercada de exigências e de aparências, chega ao fim. É o grande trunfo deste filme, a cineasta Laís Bodanzky filmar o mal estar que se instala na vida de uma mulher que, na medida em que vai percebendo como está atrelada a um mecanismo que faz de sua existência uma prisão, passa a perceber além. Mas há outros trunfos em "Como Nossos Pais", como captar pelo menos 3 gerações diferentes e extrair o sentido máximo da música imortalizada na voz de Elis Regina, que endossa o título deste filme. Repare, então, que temos as oposições entre mãe e filha; temos a filha, a protagonista, debatendo a todo instante, dominando sua consciência e se deslocando; e temos, por fim, sua relação com suas filhas. Enquanto sua mãe tem a sobriedade de não se arrepender de nada do que viveu, a filha entre num processo de discordância da paisagem a sua volta e, assim, mesmo sendo dura com suas filhas, termina o filme cedendo no que antes leva a ferro e fogo. É a beleza da direção de Laís Bodanzky, que transita com delicadeza, simbolismos e desconstruções de imagens por sobre as gerações e sagra sua personagem, na conclusão de tudo, com o poder máximo da liberdade, da consciência e da escolha. 

Os últimos grandes filmes que assisti trazem personagens que carregam sobre si fardos dolorosos e também são filmes que, em pleno novo milênio, anunciam o desmoronamento de toda uma era. É por isso que, nesse sentido, a atuação da atriz Maria Ribeiro em "Como Nossos Pais" foi, de longe, a melhor da produção brasileira em 2017. Menos Maria Ribeiro e mais Rosa, sua personagem, ela conseguiu não explodir completamente e chegar num tom que, de fato, fizesse dessa mulher uma representante, como dito antes, de quase 100% de todas as mulheres. Também a atuação da extraordinária Clarisse Abujamra como Clarisse, a mãe de Rosa, sem dúvida, foi a melhor atuação coadjuvante da produção brasileira em 2017, que conseguiu oferecer o melhor sentido do contraponto para a protagonista. E Laís Bodanzky, num desses momentos mais inspiradores do cinema, despediu-se da personagem de Clarisse Abujamra sob a benção da Monja Coen, a guru da atualidade. Quero ainda salientar que "Como Nossos Pais" está se juntando a um movimento violento (no bom sentido) de filmes que fazem o protagonismo feminino traduzir todo o Brasil político/cultural atual e que tem agora, com o filme de Laís Bodanzky, seu 3º grande ápice, seguindo "Que Horas Ela Volta?", da cineasta Anna Muylaert e "Aquarius", do cineasta Kleber Mendonça Filho. Foi lamentável que o Brasil, em mais um ano, não tenha indicado a disputar ao Oscar o filme que, de fato, tem representatividade dentro de sua indústria cinematográfica e, principalmente, dentro da importância do momento em que vivemos como um todo no mundo. Viva Laís Bodanzky!

" COMO NOSSOS PAIS " - Como Nossos Pais - Dir. por Laís Bodanzky - Brasil - 2018 - Distribuidora no Brasil: Imovision 

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terça-feira, 6 de março de 2018

Uma Espécie De Família

"Adoção clandestina, barriga de aluguel, a destituição da ética e a obsessão; é o cinema latino agindo com nervosismo!"




Há uma característica muito latente da personalidade do cinema latino em narrar histórias como contos hediondos. Boa parte dessa característica se deve ao fato de que a maioria dos países da América atravessaram por ditaduras e carregam o fardo da obscuridade que paira sobre a história. A outra parte dessa característica se deve ao fato do pensamento de talentosos cineastas, que apareceram pós anos 2000, que entendem que a pobreza de seus países concentram economias próprias e soluções particulares para assuntos mal debatidos pela política social, trocada frequentemente pelo interesse. Pois bem, em "Uma Espécie De Família" (co-produzido pela brasileira Bossa Nova Filmes), o cineasta argentino Diego Lerman, passando dos 40 anos e que dirigiu seu primeiro longa em 2002, perturba com a história de Malena, médica de classe média, que encomendou uma criança pela prática de uma barriga de aluguel na província de Misiones, um lugar semi-notado na fronteira entre o Brasil e a Argentina. 

Tudo parecia caminhar bem, seguindo uma prática clandestina cuja sensação é de que ali é tão rotineira, quanto brilha a luz do sol. Acontece que é aquela velha história, a consciência vai ser sempre a maior das medidas. A médica Malena já atravessou um limite ético e agora parece estar preocupada com uma pressão exercida por si mesma, na medida em que vai caindo dentro de si sua obsessão pela maternidade e como, por isso, tem se arriscado. Ela se meteu com uma uma espécie, não de família, mas de "rede do crime" e aí que mora o talento deste filme imaginado por esse cineasta. Ele imagina os processos da adoção ilegal e imagina todas as partes com as quais Malena se uniu para levar a cabo sua obsessão, como uma teia clandestina, dessas que ainda vão revelar que o sonho de ser mãe pode adquirir um preço bem mais perigoso para Malena. Quando nasce a criança, surge um parente de Marcela, a barriga de aluguel, dizendo lá uma história que vai precisar de uma bolada de grana de Malena, deixando bem claro que se ela não pagar, não leva a criança. A batata começa a assar!

Todo mundo parece saber que por ali é assim que funciona e os personagens chegam a ser cômicos. A rede de suborno que se revela tem todos os seus personagens cumprindo um papel de "máfia": tem o grande "agenciador" do plano, o médico chefe; tem a velha enfermeira, uma gerente do plano, que ataca de "mãezona"; e tem a advogada, que testemunha com calmaria a chantagem e valida os processos de falsificação. É interessante como o diretor Diego Lerman provoca as consequências no filme. Sua personagem está obcecada e vai atravessar todos os desafios para ter o bebê nos braços. A câmera segue a personagem com nervosismo e transmite todo a tensão pela qual Malena está passando, entre todas essas pessoas. E o filme atinge pontos altos, criando inclusive simbolismos, tentando despertar na personagem uma travessia por julgamentos interiores, como a sequência extraordinária de uma passagem de uma nuvem de gafanhotos, que parece surgir como uma das pragas do Egito. Esses temas também são recorrentes ao cinema latino, a maternidade e suas pressões. O filme de Diego Lerman cresce também por trazer duas atuações poderosas, a da atriz Barbara Lennie, como Malena e a da atriz Yanina Ávila, excelente coadjuvante como Marcela, a barriga de Aluguel. Ao final, sempre um ponto alto desse cinema, o filme deixa a encargo do espectador debater se o que assistiu, se os tabus que expôs, fazem sentido de trazer o pensamento sobre a América ou não.

" UMA ESPÉCIE DE FAMÍLIA " - Una Especie De Familia - Dir. por Diego Lerman - Argentina - 2017/2018 - Distribuidora no Brasil: Pandora Filmes 

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segunda-feira, 5 de março de 2018

Oscar 2018

Principais vencedores!

Todos os anos eu mudo a capa das minhas principais redes sociais com os vencedores do Oscar!


Melhor Atriz - Frances McDormand
"Três Anúncios Para Um Crime"

Melhor Atriz Coadjuvante - Allison Janney 
"Eu, Tonya"

Melhor Ator - Gary Oldman 
"O Destino De Uma Nação"

Melhor Ator Coadjuvante - Sam Rockwell 
"Três Anúncios Para Um Crime" 

Melhor Diretor - Guillermo Del Toro
"A Forma Da Água"


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A Forma Da Água

"Aula de cinema, beleza estarrecedora e a continuidade da contribuição da escola dos cineastas mexicanos!"




Dentro da história do cinema atual, que dá seguimento a uma história já com mais de 100 anos, já temos estudos e pesquisas, pelas quais já se passa obrigatoriamente, promovidos por 3 grandes cineastas e, curiosamente, 3 grandes cineastas saídos do México. Só na última década, boa parte do resgate de ideais primordiais do cinema, que haviam se enfraquecido com o tempo, foram feitos por esses cineastas. Com "Gravidade", Alfonso Cuaron retomou/recriou a paisagem narrativa, ordenando praticamente que todas as tecnologias atuais conferissem um valor indizível a história contada; com "O Regresso", Alejandro Gonzalez Iñarritu (que já havia rompido um ócio criativo com "Birdman") retoma os ideais épicos do cinema, propondo que o ambiente externo e natural ainda pode (e precisa) quebrar qualquer noção de que a ficção talvez esteja aprisionada a si mesma; operando tamanha libertação monumental e colocando centenas de pessoas sob trabalho braçal, de fato, pra fazer tal filme, um evento em proporção raríssima nos dias de hoje; e, por fim, temos Guillermo Del Toro que, enfim, atesta com "A Forma Da Água" a necessidade vital do cinema em ocupar a imaginação, em utilizar a fertilidade imaginária, criando mundos verdadeiramente fantásticos, mas que não fiquem lá, "pairando no ar" e essa ideia parecia mesmo continuar vaga. Assim, então, conseguimos compreender algumas revoluções que andam promovendo o pensamento no cinema e seguimos adiante.

Em "A Forma Da Água" se alcançou um resultado de cinema tão genuíno que, se visto em telas menores que as telas do cinema, infelizmente não será captado em seu fervor de beleza visual, aliada a beleza da mais sensível das delicadezas com que o filme é costurado. É o caso de mencionar a visão de Guillermo Del Toro, um gênio, que promove um feito quase inalcançável: ele vence a distância que existe entre a riqueza de sua imaginação e a tradução desse universo para o cinema. Pense o seguinte: quando você assiste o balé dos símbolos que pipocam em "A Forma Da Água", tente imaginar que aquilo tudo, primeiro aconteceu dentro da cabeça de Guillhermo Del Toro e, certamente, com muito mais detalhes do que aqueles que ele conseguiu traduzir produzindo o filme. Pois bem, "A Forma Da Água" é também um filme íntimo, é resultado da relação afetiva que o diretor criou com o cinema clássico que cresceu assistindo, o cinema das criaturas, e dos monstros da Universal (diga-se isso de passagem). Porquanto, assistindo, sabemos que o clássico "O Monstro Da Lagoa Negra" ali está, na imagem da criatura anfíbia que Guillermo teceu, mas sabemos muito mais, quando olhamos para o espírito com que o filme é feito, que "A Forma Da Água" venera a tradição das histórias dos clássicos monstros do cinema, a escola do horror primário (de tantas manifestações cheias de carinho, vi muitas em que o diretor mencionou a ideia do "Frankenstein" de Boris Karloff) e, se você aguçar bem o seu olhar, vai enxergar nos cenários deste filme as lembranças do cenário de "Metrópolis" de Fritz Lang. 

Acusada, em alguns momentos de plágio, a história da faxineira muda e da criatura aquática, que vivem uma paixão, verte originalidade, pelo sim e pelo não. O que ela oferece de improvável, oferece de descoberta em caminhos conquistadores, mas o grande "x" da questão é uma velha máxima de sempre, aqui revitalizada: não importa, não importa se é guerra fria, se é EUA contra Rússia, Trump contra todos, não importa, o amor vence. O amor e a união. O que transcende na beleza de "A Forma Da Água" é, de fato, as formas diferentes que estão se amando e se unindo, e ignorando completamente suas diferenças. Essa é a substância humana e social do filme. Guillhermo Del Toro expõe um dos seus encantamentos que é, através de uma história fantástica, poder deflagar muito mais da realidade em que vivemos. Faz todo sentido, porque seus bons filmes anteriores, que encontraram em "O Labirinto Do Fauno" uma obra-prima máxima, utilizam grandes ferramentas imaginárias para contrair a duras realidades. O que projeta "A Forma Da Água" milhas a frente é o otimismo com que se levanta, pois, do contrário, todo o abismo de poesia com que é feito estaria fadado a descer pelo ralo, porém, já a partir da abertura belíssima com um mundo mergulhado, é perceptivo como toda aquela beleza é salvação, ou, nas palavras do próprio Del Toro, esta é uma história de vida, é uma história de cura. 

Se Frances McDormand não fosse o evento do ano em atuação entre as mulheres, é Sally Hawkins o grande espetáculo. A maneira como ela se deixa ser oxigenada pela personagem, é de um efeito inflamado de carinho e atinge momentos memoráveis. Contudo, como já é uma marca nos filmes de Guillermo Del Toro, não adianta, é quando a belíssima criatura surge diante de você, que fica a encargo a maior das surpresas. Quando a criatura se levanta e ocupa toda a tela do cinema, ficam nítidos seus detalhes mais bonitos, desde como brilha, passando pela estranheza aflitiva de sua pele, até seus olhos que nunca estão em concordância de movimentação. A tal criatura é, na verdade, mítica, ela é um elemento místico de seu habitat, é uma criatura amazônica. Interpretada por Doug Jones, um mestre de sua arte, ela funde completamente nossa imaginação. Honestamente, não fiquei com a impressão de que esse filme de Guillermo Del Toro tem aquele impacto de "O Labirinto Do Fauno" que ainda perdura dentro da mente da gente, no entanto, sem nenhum prejuízo, presta essa contribuição ao Cinema, a de continuar atestando de que, no Cinema, a fertilidade imaginária importa. Sem ela, não há Cinema. Viva Guillermo Del Toro. 

" A FORMA DA ÁGUA " - The Shape Of Water - Dir. por Guillermo Del Toro - EUA - 2017/2018 - Distribuidora no Brasil: Fox Filmes - Exibidor para o Mais Cinema: Cinema Caixa Belas Artes 

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domingo, 4 de março de 2018

Oscar 2018

Minhas torcidas!


Abaixo minhas apostas apenas para as categorias em que me sinto confortável a opinar e não tenho intenção de acertar. São as minhas escolhas de coração e espero que a cerimônia da noite de hoje me surpreenda, pois eu amo surpresas!

Melhor Filme:
"Três Anúncios Para Um Crime" 

Melhor Filme Estrangeiro:
"The Square - A Arte Da Discórdia"

Melhor Animação:
"Com Amor, Van Gogh"

Melhor Documentário:
"Visages, Villages"

Melhor Direção:
Guillermo Del Toro 

Melhor Roteiro Original:
"Três Anúncios Para Um Crime" 

Melhor Roteiro Adaptado:
"Me Chame Pelo Seu Nome"

Melhor Atriz:
Frances McDormand 

Melhor Atriz Coadjuvante: 
Allison Janney

Melhor Ator:
Gary Oldman 

Melhor Ator Coadjuvante:
Sam Rockwell 

Melhor Trilha Sonora Original:
Alexandre Desplat por "A Forma Da Água"

Melhor Fotografia:
Roger Deakins por "Blade Runner 2049"

Melhor Figurino:
Mark Bridges por "Trama Fantasma" 

Melhor Maquiagem E Cabelo:
Kazujiro Tsuji por "O Destino De Uma Nação"

Melhor Mixagem De Som:
"Dunkirk" 

Melhor Edição De Som:
"Dunkirk"

Melhores Efeitos Visuais:
"Blade Runner 2049"

Melhor Design De Produção:
"Dunkirk" 

Melhor Montagem:
"Dunkirk"

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The Square - A Arte Da Discórdia

Despedida, Agradecimentos, Oscar E Comentário Do Filme


FAZENDA SANTA BARBARA

Amei essa foto! O que ela representa?
Nesse Domingo tão especial, Domingo de Oscar, procurei esse cenário encantador, debaixo da luz desse sol maravilhoso e, tentando brincar com o vento, segurei mais uma vez o cartaz de "The Square - A Arte Da Discórdia". E segurei hoje, com todo o carinho do mundo para agradecer, pois foi muito especial trabalhar esse grande filme ao lado da PANDORA FILMES nos últimos meses. "The Square" completa mais de 2 meses como a minha 1ª foto de perfil em 2018, mas vem sendo trabalhado por mim desde 25/10/2017, quando participei de sua 1ª exibição na 41ª Mostra Internacional De Cinema, a exibição "de gala" do grande vencedor da Palma De Ouro em Cannes/2017, a 1ª exibição do filme no Brasil. A empresa PANDORA FILMES me deu todo o suporte e material; me forneceu de prontidão, com exclusividade, o cartaz do filme e também me enviou o filme, com humildade e elegância, para que eu pudesse assistí-lo mais vezes e pudesse trabalhá-lo com mais propriedade. E eu o assisti quase 10 vezes, porque o amei e porque foi um prazer estudá-lo. E, na minha pequenez, dei minha contribuição para lotar as salas de cinema. Foi a 1ª vez que pude assistir e trabalhar um grande vencedor de Cannes de forma tão completa e isso foi emocionante, isso não tem preço! Então, quero agradecer a PANDORA FILMES, agradecer Paula Cosenza, agradecer Pri Santos, agradecer Léo Mendes, agradecer pelo respeito para com o meu trabalho de luta e agradecer pelo carinho. Quero dizer que sigo disponível para trabalhar mais com essa empresa, que já está quase lançando seus próximos filmes, " UMA ESPÉCIE DE FAMÍLIA " e " O DIA DEPOIS ".

Amei esse filme! O que ele representa?
" THE SQUARE - A ARTE DA DISCÓRDIA " é a minha maior torcida para que vença o Oscar/2018 de melhor filme estrangeiro. Até o presente momento, acho merecidos e justos todos os prêmios que o filme venceu, desde a Palma De Ouro em Cannes/2017. O filme traz a contemporaneidade do âmago de todas as discussões que necessitam urgentemente de tolerância e de um mínimo de honestidade; que necessitam também da baixeza que a humanidade deve proteger, aquele "abaixar a cabeça" e ouvir, escutar, dar atenção ao que realmente é importante e não desperdiçar essa mesma atenção com meia dúzias de privilegiados que, na promiscuidade dos seus privilégios, vão tornando-se núcleos de ditaduras. Então, para além da discussão artística, da discussão focada nos movimentos da arte ou focado em examinar em que mãos a arte pode estar, para além desses talentos, o filme tem ainda a perplexidade da chatice do mundo de hoje e tem a capacidade de transformar esse reduto no seu maior talento de diálogo. Se, por algum motivo, "The Square" não vencer o Oscar, minha segunda opção de torcida é para "O Insulto", outro filme arrebatador que faz de subtemas como "tolerância" e "intolerância" combustíveis para compreensões ainda mais gigantescas. Aqui está meu comentário completo sobre "The Square - A Arte Da Discórdia"http://dsmaiscinema.blogspot.com.br/2018/01/the-square-arte-da-discordia.html  . Amanhã chega uma nova foto de perfil com o grande vencedor do Oscar de melhor filme! 

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sexta-feira, 2 de março de 2018

Sem Amor

"Seja o retrato mais perturbador de uma sociedade ou a direção mais corajosa de um diretor, este filme, sobretudo, é magistral!"



Na Rússia, este homem, diretor de cinema, chamado Andrey Zvyagintsev, de 54 anos, é chamado de "dissidente" e de "Judas". Depois de seu filme anterior, a obra-prima extraordinária "Leviatã", teve qualquer apoio cultural do governo barrado e, para conseguir realizar "Sem Amor", foi somente com dinheiro vindo de investidores e da Europa Ocidental, menos estatal. O Ministério da Cultura russo conseguiu barrar incentivo a manifestações artísticas que, segundo o órgão, "contaminem" a cultura do país. Desde que esse diretor passou a transformar seus filmes em genuínas obras artísticas e ávidas em criar um relevo, sensível ao toque, utilizando como maior matéria prima a política vigente russa de décadas, que tem afetado a personalidade e o comportamento de toda uma nação; e desde que esse diretor passou a proteger essa característica de espelho em seus filmes, a refletir seu país, a partir de sua interpretação, passou também a experienciar a censura. Porém, a tentativa de cerceamento à liberdade de expressão de Andrey Zvyagintsev é em vão, afinal, ele já se afirmou como um dos maiores realizadores de cinema da atualidade contemporânea. 

Este filme, "Sem Amor", grande vencedor do prêmio do júri em Cannes/2017 e forte indicado ao Oscar/2018 como melhor filme estrangeiro, transita por duas vias imensamente talentosas: primeiro, um bem sucedido exercício de cinema, feito por uma direção magistral, de mão firme, onde todas as equações funcionam,  com enquadramentos belíssimos, com movimentação de câmera inspiradora e com uma fotografia tão nítida, que parece estar o tempo todo sob um vidro do mais espesso possível e que, mesmo assim, não altera a imagem, é um efeito extraordinário; segundo, esse filme é, sobretudo, terrível, doloroso, doído, desconfortável e forma uma visão pessimista dessas pessoas, mãe e pai em processo de separação, que ignoram completamente o filho e que, frente ao desaparecimento da criança, não convencem nem a si próprios se devem sofrer por isso ou não. E, justamente, nesse ataque feroz, é que o filme cresce, acerta de maneira selvagem e se levanta sublime. É um espetáculo acreditar que esses personagens existam e é igualmente espetacular pensar que esse é o retrato da Rússia. Pior ainda se você pensar que tais retratos estejam do seu lado neste exato momento. É impiedoso, é violento, sem pena e sem dó. É o diretor sustentando sua visão, doa a quem doer e ponto. 

É interessante notar que o diretor, no que cabe a liberdade de expressão do artista e no que cabe a uma das funções da arte, que é questionar livremente, sem tabu e sem culpa, mostra também personagens que não vivem sob a ideia do amor romântico que temperou/envenenou a nossa ideia de relação e família. Independente de qualquer julgamento que possamos fazer sobre os personagens de "Sem Amor", eles, de alguma forma, estão inseridos na maneira como enxergam o que lhes basta de amor, seja com doses cavalares de egoísmo ou não. Logicamente, estamos assistindo um incômodo que mostra personagens vivendo extremismos de frieza, a partir da interpretação do diretor de sua cultura e sociedade, mas, para nós, talvez possa ser difícil encarar a corrente de atitudes que julgamos inaceitáveis em "Sem Amor", por conta de vivermos uma transmissão cultural que nos ensinou o afeto, o carinho e a doação, embora quando a gente se observe sem hipocrisia, possam aparecer também friezas e egoísmos, tão ou mais assustadores que em "Sem Amor"

Fato é que, "Sem Amor" não endossa atitudes, ele pode chocar, mas também se constrange. Se contrai em sofrimento, como um feto dentro do útero, na Rússia pós-comunismo que virou um país sem dó. Esse cinema feito por Andrey Zvyagintsev segue outros retratos contemporâneos desconfortáveis da Europa, dos filmes de Haneke, Ulrich Seidl e Fatih Akin. Aliás, esse espectro da "escória que se reproduz", presente em "Sem Amor", é também deflagrado em "Em Pedaços", de Fatih Akin, que venceu o Globo de Ouro/2018 de melhor filme estrangeiro e que estava indicado ao lado do russo. Não me resta dúvida de que "Sem Amor" é belíssimo, na mesma medida em que dói e também não me resta dúvida de que, quando um diretor consegue realizar uma obra, que se sustenta igualmente dessas duas medidas, belíssimo e doloroso, este é um grande diretor e este é um grande filme. 

" SEM AMOR " - Nelyubov - Dir. por Andrey Zvyagintsev - Rússia - 2017  

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quinta-feira, 1 de março de 2018

1º de Março



A extraordinária Lupita Nyong'o chega aos 35 anos de idade, em cartaz com "Pantera Negra" e grande vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante, com sua dolorosíssima atuação em "12 Anos De Escravidão". Nascida no México, viveu no Quênia e seu nome, Lupita, é o diminutivo de Guadalupe, de Nossa Senhora De Guadalupe, a padroeira mexicana. Em breve será vista em "Litlle Monsters".

Outra extraordinária, a sul-coreana Kim Min-Hee chega hoje aos 36 anos de idade, como uma das grandes estrelas internacionais em ascensão nos últimos 2 anos. Em 2017 venceu o grande prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim, por sua atuação conquistadora, no excelente "Na Praia À Noite Sozinha", mas, em 2016, há havia devastado o festival de Cannes com sua atuação deslumbrante em "A Criada". Em breve será vista em "O Dia Depois", "A Câmera de Claire" e "Grass"

Também o extraordinário Javier Bardem chega aos 49 anos de idade, grande vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante por sua atuação ameaçadora em "Onde Os Fracos Não Tem Vez" e que, em breve, será como visto como Pablo Escobar em "Amando Pablo", além de estar em "Todos Lo Saben", do cineasta iraniano Asghar Farhadi. 

Também hoje: o cineasta Ron Howard chega aos 64 anos de vida; 

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