segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

The Square - A Arte Da Discórdia

"O deboche doloroso, que valeu Palma de Ouro!"

FOTOGRAFIA FEITA NO CINEMA CAIXA BELAS ARTES
CARTAZ GENTILMENTE CEDIDO PELA PANDORA FILMES

Se acontecer de você entrar num êxtase e, assistindo "The Square - A Arte Da Discórdia", começar a exclamar com entusiasmo "que filme engraçado, que filme inteligente, que filme insano", saiba que esta é a hora urgente em que a voz da sabedoria deve se aproximar de você, do seu ouvido e sussurrar "menos...menos...".  Não que esta obra magistral não seja tais adjetivos e muitos outros, mas por nada desse mundo, podemos deixar de perceber o quanto "The Square" é mesmo arrebatador, na medida em que vai se descortinando de todas as suas sátiras incrivelmente alicerçadas e vai revelando sua função maestra: deflagrar a decepção que o ser humano vem a ser. Este filme, esta pungente obra, da forma mais astuta como o cinema pode ser orientado, nos prega a peça mais enganosa possível, pois é capaz de nos fazer rir em situações aleatórias absurdas, mas que, quando lidas juntas, revelam seu alvo, que é nos nocautear. 

De fato, em todas as manifestações artísticas, através da comédia, é que se dizem as maiores verdades. É, por unanimidade, o texto mais difícil de ser escrito. Através da comédia é que gerações resistiram a grandes ditaduras, numa luta muitas vezes em vão para que vidas fossem salvas e, por isso, me chama muito atenção a colocação do cineasta Pedro Almodóvar, grande presidente do júri em Cannes/2017, quando ao anunciar "The Square" o grande vencedor da Palma de Ouro, disse: "Esse é um tema sério, mas que é tratado com muita leveza. Vivemos uma ditadura do politicamente correto, que é pior do que todas as ditaduras". Se um cineasta do calibre de Almodóvar fala em ditadura, alguém que vem de um país latino que tem em sua história uma ditadura, então isso me certifica: a Palma de Ouro foi merecida. 

Em "The Square", o curador Christian comanda o museu X-Royal em Estocolmo, capital da Suécia, um museu que, como muitos, é mantido por doações de sexagenários ou octogenários, que detentam grandes fortunas. Ele está as vésperas de inaugurar a exposição intitulada "The Square", concebida por uma argentina, que consiste na ideia de um quadrado transformado em santuário, dentro do qual todos dividem os mesmos direitos e cuidados. Nesses dias, irrompe sobre Christian um infortúnio, ele é roubado a luz do dia no meio de uma praça. Decide, após rastrear o celular roubado e com a ajuda de um funcionário do museu, que vai para a "cohab" onde os ladrões parecem estar, distribuir uma ameaça por escrito, exigindo a devolução dos pertences. A questão é que, como não sabe em qual apartamento estariam esses ladrões, deposita a ameaça na caixa de todos os moradores. Enquanto isso, no museu, dois marketeiros estão a expor uma estratégia ousada para chamar a atenção do público para "The Square" e Christian precisa assiná-la, mas como está preocupado com seus eventos pessoais, assina sem estudar a proposta. 

O esqueleto deste argumento, a grosso modo, é um absurdo só, afinal, duas coisas: como pode Cristian, curador de um importante museu, assinar algo sem ler? Como pode Cristian, uma imagem do homem civilizado europeu, fazer justiça com as próprias mãos? O mais triste é que esse choque vai surpreender ao próprio Cristian, quando sobre ele as consequências de seus atos impensados e egoístas, iniciarem uma cobrança violenta. Ele é tão responsável pelas exibições do museu, quanto responsável pelo que sua ameaça pode causar a vida de alguém, no caso do filme, a vida de uma criança de origem árabe. E o filme segue, oferecendo uma grande "lição de moral", de que as vezes  nossa consciência pode vir tarde demais, ainda que em tempo. Segue também questionando a responsabilidade sobre a arte, no sentido de quem poderia ter tamanha autoridade em ditá-la, em definir o que é ou não é arte. 

Há a tão comentada sequência memorável (que levanta exatamente a mesma discussão da performance do MAM, com o artista nu a ser manipulado), em que um artista de performance representa um primata, para fina plateia de mantenedores do museu, uma performance sem rédeas e que termina cabulosa. Dessa forma, de acordo com o próprio cineasta Ruben Östlund, é a sua forma, de zombar, de debochar e de falar mais do que já havia falando em "Força Maior", quanto a nossa obscuridade e prepotência. Quando perguntado sobre sua inspiração para "The Square", numa entrevista ao "Collider.com", ele respondeu: "Se você olhar para a sociedade sueca em 2008, verá que começaram a ser comunidades fechadas. Se você olhar para essas comunidades, verá uma forma agressiva de dizer "Essas são as fronteiras da nossa responsabilidade. Não assumimos a responsabilidade pelo que está fora do portão". E essas foram mudanças de atitude na sociedade. Somos cada vez mais individualistas". Assim, o cineasta e um amigo, criaram de fato uma instalação artística provocando o pensamente sobre a responsabilidade e a confiança uns pelos outros, instalação que foi para duas cidades na Suécia e duas na Noruega. E daí surgiu o premiado argumento de "The Square - A Arte Da Discórdia".

" THE SQUARE - A ARTE DA DISCÓRDIA " - The Square - Dir. por Ruben Ostlund - Suécia - 2017 - Distribuidora no Brasil: Pandora Filmes - Exibidor para o Mais Cinema: Caixa Belas Artes 

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Perfil Oficial: facebook.com/dsmaiscinema - Daniel Serafim 



MAIS CINEMA! A GENTE SEMPRE QUER MAIS, DAQUILO QUE A GENTE AMA!

2 comentários:

  1. Preciso assistir a esse filme para escrever. Os horários daqui estão muito ingratos

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    1. Horário é sempre uma questão que complica Ma! Quando for possível, veja sim!

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