sábado, 6 de janeiro de 2018

Jovem Mulher

"A direção da cineasta Léonor Serraille é um prazer notável e conta com uma das atuações mais memoráveis do cinema em 2017: Laetitia Dosch, deslumbrante!"

FOTOGRAFIA FEITA NO CINEMA CAIXA BELAS ARTES
CARTAZ GENTILMENTE CEDIDO

Você precisa prestar atenção em como se introduz e em como se estabiliza a personagem deste filme incrível. A história do cinema é marcada pela introdução de grandes personagens homens, gerados por outros homens e transformados em imagens míticas. Em "Jovem Mulher", a cineasta estreante Leónor Serraille convocou um exército de mulheres (os principais departamentos deste filme são praticamente todos de mulheres) para produzir seu filme e, assim, dar um sentido muito mais emblemático ao seu maior tesouro: uma personagem extraordinária (indiscutivelmente um dos dez melhores personagens do cinema em 2017) compreendida de forma deslumbrante pela talentosíssima Laetitia Dosch, uma atriz de 37 anos, diva do cinema indie francês, revelada num sucesso chamado "La Bataille De Solférino" (que permanece inédito no Brasil) e que foi vista por aqui em "Meu Rei" e "Um Belo Verão". O resultado de todo o talento do filme de Leónor lhe rendeu o grande prêmio "Câmera de ouro" em Cannes/2017, dedicado ao melhor trabalho de estreia de cineastas.

Esta personagem, chamada Paula Simonian, que tem um olho de cada cor, está batendo numa porta, aos berros, vorazmente. Está tentando retornar para casa do seu "crusch" depois de um tempo fora. Dá uma cabeçada na porta e adquiri uma ferida. No hospital ela rouba um casaco tom de terra vermelha e volta pra calçada do apartamento do homem berrar ainda um pouco. Encontra o gato de estimação, solto pela rua e, desistindo de chamar a atenção, o leva consigo. Num local, pra tentar esconder a ferida, ela arruma o cabelo ruivo esvoaçante cobrindo a testa. Pronto: parece estar pronta para o combate ou para sua jornada, que se inicia, a partir daí e que não tem mais volta. Ela não é do tipo que obedece, muito menos do tipo que se submete e, se tiver que lapidar alguma coisa em si, vai evoluir por conta própria. Paula é apaixonante, dona de si mesma e mui esperta. Sem rumo, sem dinheiro e sem teto, engana uma mulher no trem que é sua amiga das antigas e vai pra casa dela. Depois, arruma um serviço como babá e conquista a criança, fazendo estripulias. E, por fim,  com esforço, consegue um emprego fixo numa loja de calcinhas, o que, de quebra, vem com outro "crush".

Há uma liberdade tão grande de Laetitia dentro dessa personagem, que fica difícil saber (no maior dos elogios) onde termina a atriz e começa a personagem. Muitos comentários mencionaram o cinema de John Cassavetes por essa forma em como Leónor propõe a máxima do "estudo de personagem", mas, para além das referências, o que ela propõe mesmo é a vida dessa jovem mulher, encontrando ela própria sua vida em Paris, um lugar com o qual ela mesma não se identifica, mas dentro do qual terá que viver. A partir de uma porta fechada, ela toma sua vida e a faz e refaz. Em alguns momentos, mesmo em desespero, ela relê, à sua forma, aspectos de seu passado, como em sua aproximação com sua mãe. Também, com bom humor, se projeta, como na entrevista de emprego onde diz ser calma, tendo sido um vulcão à poucas horas. Ou seja, é uma composição riquíssima, é uma direção de Leónor nada agressiva, estipulando que a câmera se dê ao prazer de ser conduzida por Paula Simonian. 

Como dito acima, em dados momentos do cinema, imaginou-se tantos personagens homens complexos, uma transmissão cultural que parecia duvidar que personagens mulheres não pudessem caber tantos aspectos complementares. No entanto, filmes como o de Leónor Serraille são símbolos de uma leitura feminina e ao mesmo tempo universal. Imaginar uma personagem, ao auge dos seus 30 anos de idade, que independente da geração a qual a sociedade tende a catalogá-la, que está transitando por cenários e descobertas, e que tem uma identidade, essa imaginação é a mais crível e a mais triunfante nestes tempos. Paula Simonian parece fazer sua armadura, de cabelo ruivo, de casaco, com uma ferida na testa (uma espécie de "emblema") e carregando um gato, mas a medida em que demonstra como sua força vem de dentro para fora, ela se desarma. No final, numa belíssima cena de tons azuis refletidos por todo o cenário, reina o olhar intenso de Paula, o olhar de cores diferentes. 

" JOVEM MULHER " - Jeunne Femme - Dir. por Leónor Serraile - França - 2017 - Distribuidora no Brasil: Zeta Filmes - #52FilmsByWomen 

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Perfil Oficial: facebook.com/dsmaiscinema - Daniel Serafim 



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