quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Devemos compartilhar sem dó:


Oprah Winfrey já fez muitas manifestações históricas, mas seu discurso no Globo de Ouro do último Domingo, é antológico. Sem mais, deixemos Oprah falar: 



"Em 1964, eu era uma garotinha sentada em um chão de linóleo na casa da minha mãe em Milwaukee vendo Anne Bancroft apresentar o Oscar de melhor ator no 36º Prêmio da Academia. Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que literalmente fizeram história: 'O vencedor é Sidney Poitier.' Ao palco subiu o homem mais elegante que eu já havia visto. Eu me lembro que sua gravata era branca e, é claro, sua pele era negra. E eu nunca havia visto um homem negro ser celebrado daquela forma. Eu tentei muitas vezes explicar o que um momento como aquele significa para uma garotinha, uma criança assistindo dos assentos mais baratos enquanto minha mãe vinha pela porta cansada até os ossos de limpar as casas de outras pessoas. Mas tudo o que eu posso fazer é citar e dizer que a explicação está na performance de Sidney em Uma Voz nas Sombras: 'Amém, amém, amém, amém.'

Em 1982, Sidney recebeu o prêmio Cecil B. DeMille aqui no Globo de Ouro, e não ficou perdido para mim que, neste momento, há algumas garotinhas assistindo enquanto eu me torno a primeira mulher negra a ser agraciada com este mesmo prêmio. É uma honra e um privilégio compartilhar esta noite com todas elas e também com os homens e as mulheres incríveis que me inspiraram, me desafiaram, me sustentaram e fizeram a minha jornada até este palco ser possível. Dennis Swanson, que me deu uma chance no A.M. Chicago. Quincy Jones, que me viu em um programa e disse a Steven Spielberg, 'Ela é Sophia em A Cor Púrpura'. Gayle, que tem sido a definição de uma amiga, e Stedman que é a minha âncora 
Gostaria de agradecer à Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood porque todos nós sabemos que a imprensa está sob ataque nestes dias. Mas também sabemos que é a insaciável dedicação a descobrir a absoluta verdade que evita que fechemos os olhos à corrupção e à injustiça, aos tiranos e às vítimas, a segredos e mentiras. Eu quero dizer que eu valorizo a imprensa mais do que nunca enquanto navegamos por estes tempos complicados, o que me leva a isso: o que eu sei é que falar a verdade é a ferramenta mais poderosa que temos. Eu estou particularmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes e empoderadas o suficiente para falarem e compartilharem suas histórias pessoais. Cada um de nós neste salão é celebrado por causa das histórias que contamos, e neste ano nós nos tornamos a história.
Mas não é uma história que afeta somente a indústria do entretenimento. É uma que transcende qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou local de trabalho. Então eu quero esta noite expressar a minha gratidão a todas as mulheres que passaram por anos de abuso e violência porque elas, assim como minha mãe, tinham filhos para sustentar e contas a pagar e sonhos a perseguir. Elas são as mulheres cujos nomes nunca saberemos. São trabalhadoras domésticas e trabalhadoras rurais. Elas estão trabalhando em fábricas, e elas trabalham em restaurantes e estão na academia, na engenharia, medicina e ciência. São parte do mundo de tecnologia, política e negócios. São nossas atletas nas Olimpíadas e nossas soldadas no exército. 
E há mais alguém: Recy Taylor, um nome que eu conheço e acho que vocês deveriam também. Em 1944, Recy Taylor era uma jovem mãe e esposa. Ela estava caminhando para casa da igreja em Abbeville, Alabama, quando foi raptada por seis homens brancos armados, estuprada, e abandonada com vendas nos olhos ao lado da estrada da casa para a igreja. Eles ameaçaram matá-la se ela contasse a alguém, mas sua história foi reportada para a NAACP [Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor], onde uma jovem trabalhadora chamada Rosa Parks se tornou a principal investigadora de seu caso e, juntas, elas buscaram justiça. Mas justiça não era uma opção na era de Jim Crow. Os homens que tentaram destruí-la nunca foram julgados. Recy Taylor morreu há dez dias, pouco antes de seu 98º aniversário. Por muito tempo, mulheres não foram ouvidas ou acreditadas se ousassem falar suas verdades ao poder daqueles homens. Mas o tempo deles acabou. O tempo deles acabou.
O tempo deles acabou. E eu espero que Recy Taylor tenha morrido sabendo que a sua verdade, assim como a verdade de tantas outras mulheres que foram atormentadas naqueles anos e são atormentadas até hoje, segue em frente. Estava em algum lugar no coração de Rosa Parks quase 11 anos depois, quando ela tomou a decisão de ficar sentada naquele ônibus em Montgomery, e está aqui no coração de toda mulher que escolhe dizer, 'Eu também.' E todo homem — todo homem que escolhe escutar.
Na minha carreira, o que eu sempre tentei fazer de melhor, seja na televisão ou em filmes, foi dizer alguma coisa sobre como homens e mulheres realmente se comportam. Dizer como nós sentimos vergonha, como amamos e como odiamos, como falhamos, como recuamos, perseveramos, e superamos. Eu entrevistei e interpretei pessoas que resistiram às coisas mais feias que a vida pode jogar em você, mas a qualidade que todas essas pessoas parecem compartilhar é uma habilidade de manter a esperança por um amanhã melhor, mesmo nos piores dias. Então eu quero que todas as meninas assistindo a isso saibam que um novo dia está no horizonte! E quando este dia finalmente chegar, será porque muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui neste salão esta noite, e alguns homens fenomenais, estão lutando para que se tornem líderes que vão nos levar a uma era em que ninguém mais terá que dizer 'Eu também' mais uma vez." 
Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema
Perfil Oficial: facebook.com/dsmaiscinema - Daniel Serafim 
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