terça-feira, 24 de abril de 2018

Praça Paris

Coluna Primeiras Impressões 



Você precisa saber que: neste exato momento o filme dirigido pela grande cineasta Lúcia Murat é atual, é corajoso, é perturbador e soma-se a última leva dos filmes brasileiros obrigatórios dirigidos por mulheres, centrados em protagonistas mulheres e que estão contribuindo para a imagem mais honesta possível do Brasil. É impossível esperar menos de Lúcia Murat, uma das maiores cineastas brasileiras de todos os tempos e, até o presente momento (e estamos em Abril e, levando isso em conta, pra mim está claro), "Praça Paris" é o 1º dos 3 melhores filmes brasileiros que vi até agora em 2018, encabeçando a trinca formada pelos filmes "Antes Do Fim" (do cineasta Cristiano Burlan) e "Arábia" (dos cineastas João Dumas e Affonso Uchoa).

Também possivelmente a melhor interpretação feminina do Cinema nacional deste ano, a atriz Grace Passô realiza uma atuação fatal, ao nos oferecer Gloria, mulher negra, pobre, do RJ, do Morro da Providência, com um irmão na cadeia e uma personagem belíssima. Este filme manifesta a desigualdade de uma nação e a transmissão cultural deste crime contra a humanidade (que é a desigualdade), alocado no desenvolvimento histórico do país desde o seu "descobrimento" por portugueses e, curiosamente, ergue-se como a antagonista de "Praça Paris" uma atriz portuguesa, a tremenda Joana De Verona. Então, aí fica a dica, antes da estreia nas salas de Cinema do Brasil: olhos, ouvidos, coração e consciência bem abertos para este grande filme.

Este filme capta o preconceito, a desconfiança de insegurança e fica no limiar da intolerância, que usa como ferramentas os argumentos da violência. A cineasta Lúcia Murat está observando quem foi colocado na mira da tal guerra civil. Seu filme é duro, perturba, incomoda, comove, tem honestidade e reforça o talento de uma cineasta que experienciou na pele a ditadura. Portanto, se tem um filme dirigido por uma mulher histórica, com personagens mulheres, que ajudam a compreender este Brasil, neste momento esse filme é o imperdível "Praça Paris"

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domingo, 22 de abril de 2018

Um Filme Falado

Coluna: Filmes Raros e Filmes Que Não Podem Ser Esquecidos

"Outro momento de rara beleza dentro da filmografia do grande Manoel de Oliveira.
Dos filmes que estão acima de todas as coisas!"



Tive a honra de receber em casa esta edição em dvd, edição cada dia mais rara, desta pequena obra-prima de um dos maiores cineastas de todos os tempos, o nosso português tão querido Manoel de Oliveira. Constatei como "Um Filme Falado" continua integrando o relevo de expressões absurdamente belíssimas dos filmes que o gênio realizou. Neste ano completaria 109 anos e no último dia 2 de Abril chegou aos 3 anos de falecimento.

O que se vê em "Um Filme Falado" é uma inspiração extraordinária. Enquanto o navio parte de Lisboa, a professora de história, a maravilhosa Leonor Silveira, explica para a filha os detalhes históricos das principais civilizações. Do porto de Marselha sobe Catherine Deneuve, do porto de Nápoles sobe Stefania Sandrelli, do porto de Atenas sobe Irene Papas (pelo menos 4 das atrizes mais antológicas da história do Cinema) e todas se juntarão a John Malcovich na cena antológica em que estão sentados à mesa, conversando entre si cada um na própria língua. N'outro momento Leonor Silveira junta-se também à mesa, orientando o diálogo em inglês. No Cairo, ainda em outro momento, se encontram com o ator Luís Miguel Cintra. 

O filme de Manoel de Oliveira encontra sua grandeza ao celebrar berços da civilização, ao fazer erguer a natureza de suas línguas e também, ao ser realizado em 2003, em surgir como filme integrante do primeiro grupo das realizações do Cinema, pós ataques terroristas de 11 de Setembro, a suscitar os dilemas culturais e étnicos, que moveram-se como pesadelos. O final de "Um Filme Falado", ao mesmo tempo que perturbador, aponta para o cineasta libertário Manoel de Oliveira. Poucos diretores se transformam num depósito cultural em favor da humanidade e esse é um feito raro. Com objetividade "Um Filme Falado" contém um depósito e demonstra como o próprio Manoel, em 106 anos de idade, ofereceu-se ele próprio como um depósito inesgotável.

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Nelson Pereira Dos Santos: 89 anos



Dói demais. Ver partir esses pais do Cinema que você ama e que transformou sua vida, vai deixando uma dor indescritível. O Nelson é pai do Cinema brasileiro, seja do novo ou não, ele é pai. Seus filmes, os monumentos que ergueu, "Rio 40 Graus", "Vidas Secas", "Memórias Do Cárcere", além de estabelecerem o marco da contribuição de Nelson ao Cinema brasileiro (que só poderia ser a beleza que é também por causa dele), são de um impacto fatal. Os interesses de Nelson, as vidas para as quais Nelson olhava e trazia para a tela, a descoberta de contra-partida dessas vidas, mostrar o que ninguém mostrava e proteger sua visão com a forma de filmar mais humana que conseguisse, são talentos que hoje nos fazem homenageá-lo ao máximo possível. Fico com as palavras de Cacá Diegues:

"O Nelson inventou a maneira de fazer cinema no Brasil. O cinema moderno brasileiro foi inventado por ele. Ele foi o primeiro a filmar a favela como tema nobre, foi o primeiro a fazer cenas na rua como a gente precisava conhecer. Ele inventou um cinema para o país e o país coube dentro do cinema dele". 

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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Me Chame Pelo Seu Nome

Disponível em dvd e bluray:

O DVD VEM COM EXTRAS

Repare como a tensão, em Luca Guadagnino, precisa ser espalhada por vários locais, atuando como "pontos nervosos" ao toque visual; repare como precisa acontecer se utilizando e atrelada ao ambiente, ao espaço físico, ao mapa quase que geográfico, estabelecendo uma linguagem. Logo, se sabe que a movimentação ajuda a perceber o estado interior de seus personagens. Então, você sente qual é a pulsão do momento, se aflige muito mais com ela, através do "ir e vir" dos personagens, através das ações que vão ficando pelo caminho, do que se eles se expressassem verbalmente. Repare, na filmografia deste cineasta, na espécie de uso "decrescente" extraordinário do habitat ao redor: temos em "Eu Sou O Amor" a exploração mais perceptível da arquitetura, seja das casas, das ruas, construções ou mesmo do "lá fora"; posteriormente, em "Um Mergulho No Passado", uma ilha italiana se tornava toda ela um ninho de tensões e climas, em torno de uma personagem quase muda, criando um efeito indescritível; no entanto, é em "Me Chame Pelo Seu Nome" que está o miolo dessa ideia, ainda mais íntima, ainda mais frágil e ainda mais devastadora. Essa ideia de que a natureza dos personagens, quando flerta com a natureza do espaço, revela os reais sentimentos que descortinam nossa identidade e o que pode haver de mais libertário nesse abismo que somos nós. 

Repare, sob a perspectiva acima, como os sentidos do espectador se confundem, articulando magistralmente a noção de expectativa sobre a relação de Elio e Oliver, todas as vezes em que eles estão no espaço de seus quartos, com portas que se abrem e fecham entre os cômodos, as quais em determinados momentos você não sabe ao quarto de quem, de fato, elas levam ou pra onde, de fato, elas dão. Repare ainda, numa sequência quase antológica, de poucos mais de 4 minutos sem cortes, quando ambos estão prestes a se revelar um ao outro e, entre eles, a existência de um monumento à 1ª guerra inspira uma célebre troca de palavreados entre os dois. Oliver questiona o que Elio, dotado de tanto conhecimento, porventura viria ainda a não saber e Elio, apropriando-se da deixa de respostas não ditas, enquanto completam a volta ao redor do monumento, passa a sussurrar ininterruptamente "porque eu queria que você soubesse", ao som de "Une Barque Sur L'Ocean", de Ravel. O resultado da equação de tais ferramentas narrativas orquestradas pela direção de Luca Guadagnino, é como o resultado da ação de um juiz que bate o martelo efetuando o encerramento do tribunal, ou seja, é fatal.

Tal fatalidade se dá, em "Me Chame Pelo Seu Nome", pela força exercida exatamente de toda a "mis-en-scene" criada por Luca Guadagnino. Mas, assim, exatamente toda mesmo! O depósito que a visão de Guadagnino e o texto de James Ivory, que ambos exploram brilhantemente do texto do autor André Acimam, encontra no cenário italiano, encontra na forma como aquele "algum lugar no norte da Itália em 1983", a postura ideal para a câmera naturalista do cineasta, que por sua vez, proporciona a tendência de Elio por sua natureza. Ao que tudo indica, essa equação expressa aqui, da forma como é proposta, continuava inexistente no cinema contemporâneo, até o surgimento de Guadagnino. Aliás, guardadas as devidas proporções, quem vinha vivendo um flerte com essa forma de conjugar a "mis-en-scene", do espaço ao texto, foi outro italiano, Paolo Sorrentino, na obra-prima "A Grande Beleza". Repare também como a Itália serve (como outrora no cinema), da luz do sol durante seus dias, as sombras de suas noites, como o melhor lugar para sua vida nunca mais ser a mesma e para que amores de verão afetem, sem volta, sua história. Nenhuma outra paixão, por mais devastadora que seja (e o nível das que, nesse sentido vi no cinema nos últimos anos, foram de "Namorados Para Sempre" á "Alabama Monroe" e "Azul É A Cor Mais Quente"), nenhuma outra tem um cenário tão fulminante como a paixão entre Elio e Oliver tem.

Repare também como o romance entre esses dois homens encontra a nitidez que Guadagnino continua protegendo em sua filmografia. Há sempre uma ruptura cultural violenta, de algo tradicionalmente transmitido pela sociedade, na ideia de como a idade dos condutores das tramas de Guadagnino é  discrepante. Essa ideia, aliada vorazmente ao registro quase idealizado do romance entre esses dois homens, em "Me Chame Pelo Seu Nome", tem a potência de fazer ferver a experiência sensorial de quem assiste. A bem da verdade, vale sempre lembrar que, no cinema e na ciência da narrativa em si, o conflito é um de dois elementos básicos (o outro é a descrição do personagem) cuja finalidade é o desenvolvimento nato da empatia entre o que se narra e o espectador. Por um momento questionei se havia uma sensação de inexistentes maiores conflitos entre Oliver e Elio, questionando se não é uma ideia equivocada que talvez também a vida possa ser assim, sem tantas pressões. Porém, o tal monólogo do pai ao final, esse sim antológico, desterrou qualquer fragilidade que eu suspeitasse existir na ideia do romance entre Oliver e Elio. De fato, pode ser um ideal, até para o que almejamos, mas, quando este pai que pertence (mais ou menos) a década de 50/60 (já que a história pertence a 83), diz com todo o amor do mundo que "inveja" o filho e que, no lugar dele, outros pais gostariam que tudo aquilo acabasse, dizendo ainda a máxima de que "tiramos muito de nós, para nos curarmos rapidamente de coisas, falindo-nos aos 30 anos"; quando você compreende esse monólogo inteiramente, você percebe então, como "Me Chame Pelo Seu Nome" faz sentido. E a cena final deste filme é devastadora, me fez sair do cinema chorando como criança.

" ME CHAME PELO SEU NOME " - Call Me By Your Name - Dir. por Luca Guadagnino - Itália/França/Brasil/EUA - 2017 - Distribuidora no Brasil: Sony - Exibidor para o Mais Cinema: Caixa Belas Artes

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Conquistas E Alegrias

~ Bom Dia ~ Nunca imaginei isso na minha vida 



~ Foto feita para o Best Center Itatiba ~ 
Anunciar essas marcas aqui não tem preço: Caqui Sucos & Burgers + Kopenhagen Itatiba + HOPE Lingerie + AREZZO + Loja Morana Itatiba Morana Morana Baraldi + Loja Havaianas Itatiba + Loja MMartan + Lavanderia Dry Clean USA + Loja Hering + Sobrancelhas Design Itatiba + Colchões Ortobon ( Página Oficial Mais Cinema por Daniel Serafim e Instagrans @itatibamaisdanielserafim @canaismaiscinema ) = 

Há mais de 2 meses, fui convidado a ser Blogueiro do antigo Galeria Mall, que hoje é o Best Center Itatiba e o convite foi resultado do grande número de visualizações que comecei a receber, no desenvolvimento do meu trabalho de luta como Blogueiro de Cinema, desde o 2º semestre de 2016, saindo de Itatiba e indo pra São Paulo, partindo do 0. E faz parte da conquista em ser Blogueiro do Best Center anunciar essas que são algumas das maiores franquias do Brasil. Sou todo gratidão, eu nunca imaginei isso na minha vida 

domingo, 8 de abril de 2018

Senhoras e senhores: os 79 anos de Francis Ford Coppola



Não é todo dia que a gente tem um dos maiores diretores de Cinema de todos os tempos chegando em seus quase 80 anos vida, como aconteceu ontem (07/04), com Coppola. Se alguém, porventura, principalmente das novas gerações, ainda não fez parada obrigatória no Cinema de Francis Ford Coppola, que se saiba: vai ser sempre uma obrigação. 

Ele não apenas marcou a vida de muitas gerações com seus filmes inesquecíveis, os maiores deles "O Poderoso Chefão" e "Apocalipse Now", como ficou na história do Cinema para todo o sempre, marcado por seu espírito desafiador, como um dos mestres do Cinema da década de 70, que (lógico) influenciaria toda uma geração posteriormente. E, se tem um adjetivo que o define acima de todos os outros, é seu ímpeto corajoso, que veio do mesmo ímpeto da geração que, antes dele, já pensava o Cinema tal qual sua imensidão, como o magnânimo David Lean de "Lawrence Da Arábia". Francis Ford Coppola colocou na cabeça que preservar o instinto e a ideia é o que traria o resultado de Cinema mais genuíno. Assim, como Deus no gênese, ele criou, apenas criou. 

Quase passando dos 60 anos de carreira, grande vencedor de 5 Oscars, de 2 Palmas de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e de centenas de outros prêmios, ele mantém o status como o diretor que, para prevalecer como dito acima o instinto e os valores épicos do Cinema, não poupou desafios aos seus sets de gravação, tal como ainda assusta descobrir no documentário "Francis Ford Coppola - O Apocalipse De Um Cineasta", co-dirigido pela própria esposa e que registra o pavor das gravações do inigualável resultado de "Apocalipse Now"

Contudo, de todos os seus filmes, certamente foi a trilogia de "O Poderoso Chefão" (prestes a completar 50 anos do 1º filme), que mais desenvolveu afeto com o público e que continua na memória integralmente. Também desenvolveu afeto com o público a filha do cineasta, a extraordinária Sofia Coppola, dirigindo um sucesso seguido do outro e também não foi difícil desenvolver afeto pelo 1º longa de ficção dirigido em 2017 pela esposa do cineasta, Eleanor Coppola, que realizou a delícia de filme "Paris Pode Esperar". Assim, celebramos os 79 anos da lenda viva, Francis Ford Coppola.

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

20º Festival Do Cinema Brasileiro De Paris

🎬 Eu não fui (um dia eu irei!), mas essa nota, com amor pelo Cinema brasileiro, eu quero dar 💟
#MaisCinema



De 3 a 10 de Abril, no Cinema L'ARLEQUIN, em Paris, acontece a 20ª edição do Festival Do Cinema Brasileiro e eu resolvi destacar o acontecimento do Festival, por exibir algumas das produções mais extraordinárias e artísticas que o Cinema brasileiro produziu em 2017, as quais não podem se perder e que precisam ser assistidas, principalmente pelo público brasileiro. Segue a seleção oficial da competição, com estrelas nos filmes que eu consegui assistir:
(facebook.com/canaismaiscinema ou procure no google por #dsmaiscinemapontoblogspotpontocom)


Fora De Competição

" O FILME DA MINHA VIDA " - Selton Mello - ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


" BENZINHO " - Gustavo Pizzi -


" MEU AMIGO HINDU " - Hector Babenco -


Competição


" ARÁBIA " - Afonso Uchôa e João Dumas -


" ANTES QUE EU ME ESQUEÇA " - Tiago Arakilian -


" BERENICE " - Alan Fiterman -


" BINGO " - Daniel Resende - ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


"AS BOAS MANEIRAS " - Marco Dutra e Juliana Rojas -  ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


" CORPO ELÉTRICO " - Marcelo Caetano - ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


" AS DUAS IRENES - Fabio Meira - ⭐ ⭐ ⭐


" JOAQUIM " - Marcelo Gomes - ⭐ ⭐ ⭐ ⭐


" PRAÇA PARIS " - Lucia Murat -


" COMO É CRUEL VIVER ASSIM " - Julia Rezende -


O Cinema brasileiro merece todo o nosso amor, principalmente suas produções mais desafiadoras e artísticas, então nunca será demais saber os caminhos que tem tomado e sob quais influências tem existido ou criado sua movimentação #euamoocinemabrasileiro 💟

No Instagram procure as hashtags: #festivalducinemabresilien #festivalducinemabresiliendeparis #larlequin #cinemalarlequin #cinemabrasilien #Paris #Brasil #Itatiba #CinemaBrasileiro #CinemaNacional #festivalducinema #NoMaisCinemaVocêSabeMais

#AGenteSempreQuerMaisDaquiloQueAGenAma

domingo, 1 de abril de 2018

Uma Mulher Fantástica

"Definições de 'soco no estômago' e 'tapa na cara' são atualizadas. O grande vencedor do Oscar/2018 tem o poder de deixar em choque!"


GENTILMENTE, A DISTRIBUIDORA IMOVISION, ENVIOU CARTAZ E DVD AO MAIS CINEMA


Quer ter um mínimo de compreensão sobre a vida de uma transexual no mundo a sua volta? Quer fazer um exercício letal e, literalmente, ocupar o lugar de uma trans durante 104 minutos? Então o Cinema age e sugere a mais devastadora oportunidade: o grande vencedor do Oscar/2018 como melhor filme estrangeiro, o chileno "Uma Mulher Fantástica", é uma das experiências mais assustadoras do Cinema, colocando o espectador contra a parece, descendo uma saraivada de humilhações e agressões, encontrando a maior das comunicações universais com toda a humanidade. Mas, mais do que isso, neste filme assombroso do chileno Sebastián Lelio, um movimento constante deixa o espectador inquieto. Enquanto Marina Vidal, a transexual estupenda construída pela extraordinária Daniela Vega (uma revelação magnética), atravessa um calvário, também cutuca a bolha do autoconhecimento, ora usando a agulha do "quem sou eu?!" para si mesma, ora emprestando a mesma agulha para o espectador, mas mudando a pergunta para "quem sou eu para você?!/o que sou eu para você?!/como você me vê?!". É justamente daí que brota a beleza do filme de Lelio. Aliás, ela pode brotar tranquila e silenciosa, mas a força da vida que traz consigo tem a potência da natureza, tão violenta e ao mesmo tempo tão abstratamente ordenada, como as cataratas do Iguaçu, que lindamente abrem o filme e ajudam a intuir o seu sentido.

O filme que começa com a comemoração do aniversário de Marina e que segue com os planos de seu marido Orlando para que viagem juntos para as cataratas (o que nos anestesia a pensar que poderíamos assistir um lindo romance como qualquer outro), de repente sofre uma virada brusca com a súbita morte dele e passa a descer, sem freio, tornando Marina o centro das atenções. O médico do hospital a fere com um olhar acusatório, como se ela fosse um símbolo de marginalidade. O que se seguirá é a continuidade brutal e desenfreada de humilhações, ultrajes, ofensas e agressões, da investigadora de polícia à antiga família de Orlando que, além do comportamento animalesco, anuncia sua própria forma de sentença sobre Marina: a proibição de sua presença no velório e no funeral, ou seja, o impedimento de dar o "último adeus" ao homem que amava.

Notavelmente, Sebastián Lelio evita fazer de seu filme uma incisão política ou social, pontuando que sua decisão de fazer este filme foi porque a história o emocionou e porque há amor nesta trama. Ela é universal, mais por conta da vida que contém, do que pelo símbolo que carrega (e que também conecta o filme com a realidade de transgêneros e com as discussões de gênero pelo mundo afora). De fato, nota-se como o tratamento que Marina recebe dói dentro dela, o que a desestabiliza emocionalmente e existencialmente, mas não a destrói. Dessa forma, Marina se questiona o tempo todo diante da espécie de "preço que paga" por ser lida como uma quimera. Ela se observa, para garimpar o eixo de quem ela tem certeza que é. Surgem, então, os símbolos que provocam o espectador. Numa das cenas mais memoráveis, Marina está nua e quando a câmera tenta revelar ao espectador seu genital, é um espelho refletindo o rosto de Marina que ela tem entre as pernas. É Sebastián Lelio mexendo com os nossos sentidos, com a nossa visão, com a nossa percepção e com a nossa aceitação, afinal, o que é que vemos ou o que é deveríamos ver?!

Daniela Vega citou Almodóvar para falar de sua transição, em como foi importante assistir seus filmes e descobrir o que estava acontecendo consigo e, fato é, que o Cinema de Pedro Almodóvar ecoa dentro da cabeça em "Uma Mulher Fantástica". Em algum momento a música, as cores, um clima de mistério, vai trazê-lo à lembrança. A impressão é que Sebastián Lelio arrumou uma maneira muito autêntica de gravitar entre esse cinema, seja o de Almodóvar ou de outros, que há muito tempo se interessam por essas vidas e por essas concepções. O cinema de Lelio, aliás, é de uma vitalidade, de uma composição e de uma narrativa tão fluentes, que cada vez mais vem lhe trazendo reconhecimentos. Ela já havia sido premiado em Berlim com o excelente "Gloria" e com "Uma Mulher Fantástica" saiu do festival com 2 prêmios e Daniela Vega, por pouco, não foi a primeira atriz transexual a ser premiada no festival, tamanha a conquista de sua interpretação. Ela é tão fantástica, quanto Marina, porém suas vidas não foram tão iguais, segundo ela mesma, que lembrou dos seus afetos em entrevistas, mas uma coisa é certa: Daniela, assim como Marina numa de outra das cenas extraordinárias desse filme, vem resistindo a ventania impetuosa pelas ruas ao ponto de curvar-se, mas tem seus pés firmes no chão. Ela ainda não mudou seu nome social no Chile, o que já poderia ter feito por ser uma pessoa pública, mas espera as mudanças nas leis, para que possa atravessar pelos mesmos processos que as outras transexuais que não tem os mesmos privilégios que ela teria. 

"Uma Mulher Fantástica" - Una Mujer Fantástica - Dir. por Sebastián Lelio - Chile - 2017 - Distribuidora no Brasil: Imovision

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Aniquilação

"Alex Garland: da ficção A para a ficção B."


Adaptação de livro bem sucedido vira um filme descartável



Por Daniel Serafim

Uma grande bobagem e não dá pra acreditar. Quando o trailer foi lançado e a gente descobriu que esse ano tinha filme novo de Alex Garland, depois do indispensável "Ex Machina", a gente pulou da cadeira. No entanto, o Cinema tem algumas variantes tão imprevisíveis quanto os responsáveis por essas mesmas variantes. Eu não esperava que o diretor Alex Garland, responsável por um filme surpreendente, o super indicado ao Oscar/2016 de melhor roteiro original "Ex Machina" (um relevo excitante de originalidade), fosse agora compor um resultado tão decepcionante em cima da adaptação do primeiro livro que forma uma trilogia de ficção altamente delirante por si só. Quando os produtores perceberam que o resultado de Alex Garland "não rolou", trataram logo de parar de impulsionar o filme que agora, no Brasil, chega direto pela Netflix. Vejam só: "Aniquilação" é o que se chama de "impressão do diretor", é a tentativa de Alex Garland em adaptar a trilogia de Jeff  Vandermeer composta pelos livros "Aniquilação", "Autoridade" e "Aceitação" (que não li, mas fui descobrir mais sobre, pra saber do que se tratava). É uma grande história sem obviedades, que abre perguntas, formas e devaneios, com provocações em cima sobre ciência, genética, mutação e por aí vai. 

Nas mãos de Alex Garland, a história de uma zona que surgiu no litoral americano, que altera todo o ambiente violentamente e que aloca a "Área X", virou apenas um filme com dezenas de elementos, clichês, ora mais ficção, ora mais terror, do qual não se absorve nada. As pessoas que são enviadas para explorar esse "desconhecido", ou não voltam, ou voltam afetadas, mas quando a equipe de 5 mulheres, lideradas pela atriz Jenniffer Jason Leigh e com Natalie Portman encabeçando, vão para lá, o espectador vai descobrir um mínimo do que acontece ali dentro. Salvo o visual que, em alguns momentos impressiona (ainda que sem aquele acabamento admirável de "Ex Machina"), é tão nítida a sucessão da falta de delicadeza, que em outros momentos também constrange. Se você prestar bem atenção, vai perceber como há discordância entre a aparição sem licença de uma jacaré imenso (infelizmente quase no estilo "Anaconda" de ser) e o cuidado de introduzir um urso que emite o som de suas vítimas (que reconheço, ficou bem interessante). Inacreditável que hajam notas tão absurdas compostas por Alex Garland (ele que já escreveu outra adaptação que rendeu o excelente filme "Não Me Abandone Jamais", do diretor Mark Romanek e que escreveu também o excelente "Extermínio", do diretor Danny Boyle), como também é inacreditável a quantidade de clichês (vide o grupo que vai se desintegrando um a um) em "Aniquilação" que, de resultado mesmo, só deixa aquela velha impressão de já se ter assistido mil filmes como esse e alguns bem mais bem sucedidos. 

" ANIQUILAÇÃO " - Annihilation - Dir. por Alex Garland - EUA - 2018 - Netflix 

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sexta-feira, 30 de março de 2018

O Conto Dos Contos

"Nem de Pasolini, nem de Canterbury e sim de Matteo Garrone!"


Do realismo para a fábula, diretor italiano sustenta seu talento e continua provando do legado do Cinema italiano.

DVD ENVIADO PELA DISTRIBUIDORA A2 FILMES PARA SER COMENTADO NO
MAIS CINEMA

Impressiona a curva fatal de sua narrativa que o diretor italiano Matteo Garrone, que edificou a identidade de seu Cinema pós anos 2000, realiza em "O Conto Dos Contos". O cineasta que vinha de grandes trabalhos marcados pelo realismo, da brutalidade extraordinária de "Gomorra" à cruel anestesia de "Reality - A Grande Ilusão", de repente realiza uma "senhora" fantasia que só encontra pontos em comum com seus filmes anteriores, quando expõe como a corrosão dos desejos de seus principais personagens os destrói e segue destruindo os seus, a sua volta. Os contos de "O Conto Dos Contos" são narrados pelo diretor com o notável ardor por contar histórias, um talento próprio de Matteo Garrone que, assim, sustenta sua criatividade e seu olhar crítico para o material que está extraindo.

Matteo Garrone sempre busca uma forma de evocar o legado do Cinema italiano, ao mesmo tempo em que se esforça por revitalizá-lo com a maior veneração possível e, chamando a atenção mais ainda, alcança um resultado admirável em seu primeiro filme em inglês. Ao assistir "O Conto Dos Contos" é impossível não se lembrar por vezes do cinema de Pier Paolo Pasolini, em especial, lógico,  de "Os Contos De Cunterbury". Também é preciso notar que, certamente há muito tempo, não víamos um Cinema sobre contos, feito com o cuidado de preservar seu aspecto surreal, sem cair no grotesco. Assim, ao adaptar a obra medieval do poeta italiano Giambatista Basile, de 1600, o diretor italiano é bem sucedido, mesmo nas concessões ou licenças poéticas que tomou.

Este filme é bem humorado, incansável e promove boas surpresas ao longo da narrativa. Algumas destas surpresas se devem a escolha do elenco para os personagens convidados a representar. É uma grande maravilha assistir nomes como Salma Hayek, Bebe Cave, Shirley Henderson, Stacy Martin, Vincent Cassel, Toby Jones e a linda participação especial da extraordinária Alba Rohrwacher. Em alguns momentos, nem todos esses nomes conseguem dar conta da proposta de "O Conto Dos Contos", como os elencos de Pasolini conseguiam sem nenhum esforço, principalmente os não-atores, mas, sem prejudicar o resultado, tudo em "O Conto Dos Contos" é um sabor.

" O CONTO DOS CONTOS " - Il Racconto Dei Racconti - Dir. por Matteo Garrone - Itália/UK - 2015 - DVD enviado ao Mais Cinema pela distribuidora A2 Filmes para ser comentado.

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quinta-feira, 29 de março de 2018

Eu, Tonya

"Para amar ou para odiar, a América sempre quer alguém!"




Na cena mais chocante de "Eu, Tonya", a garçonete Lavona (interpretada magnificamente como um trator pela extraordinária Allison Janney) joga uma faca que afunda no braço da filha Tonya (outra "interpretação trator", exibida hipnoticamente pela igualmente extraordinária Margot Robbie), prendendo a respiração do expectador. Se tem uma coisa com a qual a patinadora Tonya Harding sempre lidou sem opção foi a violência. A mãe, acreditando no potencial esportivo da filha, a impôs criança à treinadora e sem aceitar um não. O que se segue depois faz de "espancar" um apelido, tanto no físico, quanto no psicológico. O marido que Tonya arrumou foi pelo mesmo caminho, fazia questão de deixar hematomas impressos sobre a pele da patinadora, aprisionada por aquele "amor violento". E a atuação de Tonya como patinadora, a grande beleza da existência de sua vida, iniciou o decreto de fim quando a perna de sua principal rival, Nancy Kerrigan, foi atingida em cheio por uma senhora barra de ferro  (os gritos da patinadora, nos vídeos reais da época, são angustiantes). Um dos casos mais polêmicos da história do esporte mundial, nunca se saberá o quanto Tonya Harding teve, ou não, seu dedo metido na história. E tudo isso, no filme infernal do cineasta australiano Craig Gillespie, serve como matéria-prima para ajudar a revelar, neste momento, a América de Donald Trump.

Pois é, "Eu, Tonya", ao lado de outras realizações deste ano como o ápice "Três Anúncios Para Um Crime", ajuda a compreender um pouco do sentimento que paira sobre a atmosfera americana pós Trump, que está colocando atenção na tal "outra América". É um olhar para uma fatia da população (e olhar que vem causando a maior das polêmicas do milênio) que vive sob as mesmas violências (ou dê o nome que você quiser) que Tonya Harding viveu. Dessa forma, o filme do cineasta Gillespie é tão bem sucedido na sua comunicação que, sem nenhum pudor, usa e abusa com perversão da quebra da "quarta parede", colocando por vezes os personagens falando diretamente à câmera e explicando suas atitudes violentas, agressivas ou as razões de suas atitudes insensíveis, mas conscientes. É a maneira como a leitura da contraditória vida de Tonya Harding (o mundo cão), encontra na direção pra lá de afiada de Craig Gillespie, um relevo ensurdecedor nos dias de hoje. De fato, por mais divertido, insano, irônico, sarcástico, que o filme seja, é uma leitura que pode confundir muitas impressões sobre o resultado.

Craig Gillespie já havia demonstrado no extraordinário "A Garota Ideal" (o delicioso filme em que Ryan Gosling mantém relação com uma boneca inflável) o prazer por narrar histórias improváveis e com um sabor admirável. No entanto, 10 anos depois, ele demonstra o mesmo sabor, promove um grande entretenimento e consegue incorporar vários talentos em "Eu, Tonya". A própria trilha sonora deixa o filme tão envolvente, tão em êxtase, que é um prazer absoluto ouvir "The Chain", do grupo Fleetwood Mac ou "Free Your Mind", das maravilhosas "En Vogue", aliás, é um hino atrás do outro, é um prazer recordar uma época através de grandes músicas. Então, o que temos em "Eu, Tonya" é um acerto fenomenal, que segue sim, em algum momento, um certo clichê de cinebiografias, mas que encontra todo um resultado notável como um dos melhores filmes do ano. 

" EU, TONYA " - I, Tonya - Dir. por Craig Gillespeie - EUA - 2017 - Distribuidora no Brasil: Califórnia Filmes - Exibidor para o Mais Cinema: Cinema Caixa Belas Artes

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quarta-feira, 28 de março de 2018

Sieranevada

"Arrebatador, esse talvez seja o filme definitivo sobre a família romena tradicional pós-ditadura, mas, por favor, atenção aos detalhes!"

DVD, À VENDA, ENVIADO PELA DISTRIBUIDORA A2 FILMES AO MAIS CINEMA,
PRA SER COMENTADO


Quase 3 horas de filme, quase 3 horas de um roteiro impressionante e quase 3 horas de uma direção para ser aplaudida de pé. São quase 3 horas que se passam em 90% desse tempo dentro de um apartamento dos tempos do comunismo e que atingem momentos memoráveis com quase 20 pessoas  indo e vindo, ininterruptamente (e entenda isso como um balé), dentro desse ambiente. Já assistimos obras-primas filmando encontros de famílias, mas pode acreditar, nenhuma delas passa perto do encontro dessa família romena. É curioso, é um espetáculo, é mais um grande resultado do verdadeiro fenômeno que a nova geração de cineastas romenos se tornou e se levanta como uma aula, ao pensar até onde esse novo modo de fazer Cinema pode chegar, uma vez que "Sieranevada" é um resultado que, se me contassem, eu não acreditaria. A começar dos detalhes, tudo em "Sieranevada" é fruto de uma imaginação autoral tão única que, ou os mais desavisados (incluindo também quem ainda não conhece os talentos do novo Cinema romeno) vão achar um filme chatérrimo, ou o filme vai cumprir tão bem a proposta de imersão, que vai deixar o gostinho de "quero mais". O que não se pode deixar de levar em conta é: quem dirige e escreve esse filme é o grande cineasta Cristi Puiu, responsável por 1 dos 3 filmes obrigatórios, que servem de estudo para compreender o novo Cinema romeno e estamos falando de sua obra-prima "A Morte Do Senhor Lazarescu".

Na grande maioria de todos os filmes que foram feitos pelos cineastas que estão questionando a Romênia pós-ditadura, são as deixas dos textos primorosos de seus filmes, os pontos mais deliciosos e que tomam conta dos conflitos principais, principalmente dos conflitos que dilatam e surpreendam o espectador. Logo, em "Sieranevada", essa família romena está cumprindo um ritual ortodoxo de celebrar o 40º dia depois da morte, que no filme é feito decorrente da morte do patriarca. Acreditam que a alma deixa o corpo, viaja por 40 dias, porém no 40º dia encontra Deus e vai a julgamento. Essa reunião está acontecendo numa data específica, 10 de Janeiro de 2015, alguns dias depois do ataque ao Charlie Hebdo, informação que em algum momento, durante o filme, é dita no rádio, mas que o diretor forjou à discrição, também oferecendo um sentido sobre um dos conflitos que falaremos adiante. Por fim, você tem um filme de quase 3 horas, sobre a reunião de uma família romena e que acontece, praticamente todo ele, dentro de um apartamento como os apartamentos que o povo romeno viveu durante os tempos do comunismo. Esses apartamentos geralmente eram de 80 metros quadrados, com 3 quartos, mas (curiosidade) o diretor, mesmo preservando ao máximo toda a "mise en scène" e para que o dispositivo técnico da escolha de como filmar adquirisse mais de um mínimo de liberdade, optou por fazer o filme num apartamento de 100 metros. Para uma melhor apreciação do filme, que esses detalhes não se percam.

Logo na primeira sequência sem cortes do filme, uma sequência de 5 minutos, toda a inteligência e a intuição do diretor, mais o ensaio do elenco, funcionam causando uma admiração tão grande, que se deve questionar o que mais virá a seguir. A câmera está posicionada numa espécie de ângulo central, que consegue captar os principais (e próximos) cômodos, mas é o "abre e fecha" da porta da cozinha, o grande espetáculo. É gente entrando, gente saindo, gente surgindo, gente de lá de dentro tentando manter a porta fechada, mas a tarefa é dificílima. Na verdade, a cena é um grande cartão postal de uma das maiores marcas do novo Cinema romeno: o humor que cria deboche até em situações automáticas. É esse "abre e fecha", é esse trânsito dentro do local, é esse "entupir" de gente num lugar pequeno e é essa maneira de quebrar a censura, entre a sensação de que uma ação é feita para o espectador e a possibilidade de debochar dessa sensação, é o que faz desses ingredientes cômicos do novo Cinema romeno uma influência sobre outros modos de fazer Cinema. É engraçadíssimo assistir um personagem tirando da caixa uma bicicleta portátil para a mãe fazer exercícios e perceber que existe durante toda a cena uma outra personagem o tempo todo de costas para a câmera e chorando. É literalmente um "tô nem aí".

Sabemos também que, no Cinema, a Câmera é a posição do ponto de vista do espectador, que pode estar sob o ponto de vista de um personagem ou não. Veja só, em "Sieranevada", a ideia de sustentar esse ponto por onde a câmera observa tudo nos remete a ideia do 40º dia; sim, a câmera assume a presença do morto e vemos as ações como se ele estivesse vendo. É um elo de afeto. Ao mesmo tempo a posição da câmera usa todo o espaço reduzido e este apartamento se torna um palco diverso, com gente de opiniões muito diferentes trocando de cômodo o tempo todo. Nesse sentido, nos aproximamos da beleza em captar os cidadãos romenos que, mesmo em família, estão olhando para suas individualidades, caindo em contradição com o que dizem e tendo que dar conta de refletir o mundo. Ao mesmo tempo em que tem gente ainda defendendo os ideias comunistas, tem gente chorando só de ouvir falar, ao mesmo tempo que tem gente que nem é da família vomitando no banheiro e tem gente discutindo sobre fake news do Charlie Hebdo; aliás, vejam só, o diretor discorre seu filme dias após o Charlie Hebdo, justamente porque na Romênia pós-ditadura, é um tanto confuso se as pessoas estiverem sabendo demais sobre um assunto ou se estiverem sabendo de menos, fazendo uma alusão há como se mede o desenvolvimento ou a comunicação das nações, na era da tecnologia. Se checar a notícia já é uma dificuldade em países considerados avançados, imagine na Romênia. Sobretudo, nessa pequena joia do Cinema romeno, indicada pelo país ao Oscar em 2017, o que se sabe sem dúvidas, é que um filme extraordinário.

" SIERANEVADA " - Sieranevada - Dir. por Cristi Puiu - Romênia - 2016/2017 - Dvd enviado ao Mais Cinema, pela distribuidora A2 Filmes, para ser comentado.

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domingo, 25 de março de 2018

Projeto Flórida

"Poderoso, glorioso e de rasgar o coração!

Um dos 10 grandes filmes do ano!"



Este diretor de 47 anos, chamado Sean Baker, surgiu no pós anos 2000 e, gradativamente, foi conquistando as atenções, ao lançar um olhar honesto para um outro lado da América e transmití-lo com uma emoção genuína para o Cinema. Eu seus filmes anteriores a "Projeto Flórida", imigrantes, vigaristas, desempregados e idosos formaram uma paisagem humana que, em 2015, atingiu um momento de raríssima beleza, com seu elogiadíssimo "Tangerine" (que estreou no Brasil em 2016), um drama frenético, bem humorado e criativo, centrado em transexuais. Estava explícito o olhar deste cineasta incluindo no lugar de fala, com histórias a contar, aquela parte da humanidade, feita de paisagem mórbida e que para ele se transforma numa matéria prima bruta, de beleza estarrecedora, a ser captada por uma postura que a privilegie. É justamente desse alinhamento de talentos que nasce esse soco no estômago, que é "Projeto Flórida", sem dúvida um dos 10 melhores filmes do ano e que nos faz curiosos pelo que mais Sean Baker pode fazer. 

Também é preciso mencionar que "Projeto Flórida" é um dos filmes lançados em 2018 que incorpora ecos da espécie de "depressão pós Trump" que se vive nos EUA (ou que se vive a partir da onda de conservadorismo que avança pelo mundo) e que fez de "Três Anúncios Para Um Crime" um ápice neste momento. Esses olhares para esses núcleos da humanidade, antes enquadrados sem força por um "predador", agora demonstram que esses mesmos organismos se levantam com a força de Golias. Em "Projeto Flórida", a história dessa lindeza de menina chamada Moonee, cresce  numa intensidade de fazer grudar o olho na tela, na medida em que o cineasta "abandona" sua câmera a mercê da movimentação da infância da pequena, que cresce com seus amiguinhos num lugar triste de se ver. Nós, adultos, temos a consciência de que o que se assiste é uma dureza de vida, no entanto, o filme é todo entregue a força da natureza da menina, para quem o mundo pode estar desabando lá fora, que nada a atinge; tudo pra ela é motivo de diversão, de descoberta e de admiração.

Moonee vive com a mãe Halley num desses grandes motéis, que ficam ao redor dos parques da Disney, ocupados por vidas à margem e que, principalmente após a crise imobiliária de 2008, foram ainda mais invadidos. Numa das cenas mais hilárias de "Projeto Flórida", um casal de brasileiros vai parar no lugar e a namorada tem uma crise contra o namorado, se recusando a ficar naquela espelunca. É a forma como o cineasta Sean Baker filma que destinos habitam esses locais, porém seu interesse está naquele que é o grande trunfo do filme: filmar a infância. Não é sempre que o Cinema rende bons projetos em torno de crianças e "Projeto Flórida" segue o trovão de referências da última década como "Pequena Miss Sunshine e "Indomável Sonhadora". É um deleite observar como a câmera do cineasta fica no nível das crianças para fazer delas, como ele mesmo disse em entrevistas, rainhas e reis de seu domínio. Nesse sentido, no melhor do contraponto com o consumo de sonho que lugares como a Disney oferecem a infância, Moonee e seus amiguinhos, Jancey e Scooty, criam por conta seu próprio terreno, com o mínimo de liberdade que se deveria ser protegido. 

Toda a composição de "Projeto Flórida" é de uma beleza de fazer arregalar os olhos, com planos abertos privilegiando aquele desbunde de cores e com acabamentos mais próximos do naturalidade. O filme foi feito em meio aqueles motéis em funcionamento, a maioria do elenco são de rostinhos novos e de uma competência absurda. A pequena Brooklynn Prince (moonee, uma das melhores personagens do Cinema neste ano) fez o filme com menos de 7 anos e é extraordinária; a atriz Bria Vinaite, que faz a mãe da Brooklyn, foi encontrada pelo diretor no Instagram e, ao construir uma personagem deslocada, é uma excelente coadjuvante; e, por fim, o maravilhoso Willem Dafoe entrega um desempenho belíssimo, como o gerente do local (repare na sequência em que seu personagem expulsa um indivíduo estranho do lugar, repare como colocou verdade na construção do personagem) e, durante a temporada de premiações/2018, se tornou um grande candidato ao prêmio de ator coadjuvante, mas acabou perdendo para Sam Rockell, de "Três Anúncios Para Um Crime""Projeto Flórida" é belíssimo em tudo, inesquecível e, sem dúvida, está  no destaque entre os 10 melhores filmes do ano.

" PROJETO FLÓRIDA " - The Florida Project - Dir. por Sean Baker - EUA - 2017/2018 - Distribuidora no Brasil: Diamond Films - Exibidor para o Mais Cinema por Daniel Serafim: Cinema Caixa Belas Artes

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segunda-feira, 19 de março de 2018

Caixa Belas Artes

ITATIBA: tem um itatibense fazendo história no circuito de Cinema e a vida decidiu que seria eu 😍


Integrando o grupo de jornalistas do Caixa Belas Artes pelo 2º ano  


Estou em plena gratidão: Hoje, oficialmente, trago em mãos, pelo 2º ano, a credencial de jornalista integrante do grupo de jornalistas do Caixa Belas Artes #BelasArtes , honraria que me foi ofertada, generosamente pelo Cinema histórico de São Paulo, em 2017. Eu só posso agradecer 


Foi ainda em 2016, eu saí da cidade de Itatiba, como um "zé ninguém" e partindo do 0, para atuar como Blogueiro de Cinema e fazer meu sonho maior acontecer, que é, além de trabalhar com Cinema, chegar a um futuro como crítico de Cinema (o que ainda estou longe). Eu não escolhi ser Blogueiro, quando dei por mim, o Blogueiro já vivia em mim. Enfrentei desafios (ainda os enfrento), enfrentei desrespeitos (vivi e vivo do mais sincero perdão a tudo) e, surpreendentemente, para mostrar que eu estava no caminho certo, atitudes espontâneas, como a do Caixa Belas Artes, surgiram em respeito e incentivo ao meu trabalho de luta. Nunca passou pela minha cabeça chegar onde estou chegando e só posso agradecer. Muito obrigado Belas Artes, muito obrigado Carolina Alonso, muito obrigado Camila Coelho e muito obrigado Andressa Lopes, vocês me deram força e vocês tem me ajudado, só posso agradecer. E seguirei com a minha cobertura das atividades do Caixa Belas Artes; de Itatiba pra vocês, eu sou todo de vocês

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domingo, 18 de março de 2018

Os 65 anos de Isabelle Huppert

Não há nada que se compare a Senhora Madame/Lady/Diva Huppert



SOBRE ELA: Isabelle Huppert, no último dia 16, chegou aos seus inacreditáveis 65 anos de idade, que trazem juntos os seus quase 50 anos de carreira (está girando em torno de 46 em 2018) e que acumulam agora 16 indicações ao "César Awards" ( o "Oscar" francês) e ainda sua grande indicação ao Globo de Ouro/Oscar/2017. No que cabe ao amplo significado de "diva", que a história do Cinema incorporou a si com o passar do século que se seguiu à sua existência, seria impossível elencar 3 nomes concisos que nos ajudassem a mapear esse significado nos dias de hoje. No entanto, na minha compreensão, pelo menos 2 nomes estão fadados a ocupar, sempre e sem esforço, esse elenco: um deles, da imensa Meryl Streeep e o outro, da igualmente imensa, Isabelle Huppert. E acredito que esta é uma unanimidade entre todos nós! Em se tratando de Isabelle Huppert, o que mais cabe a sua expressão de diva no Cinema, está distante do filtro de glamour e sim totalmente dentro de como transcende a isso. A atriz extraordinária que é se deve a um aspecto que nós ainda não chegamos a compreensão, mas que sentimos quando ela está em cena: é a inteligência única com a qual ela trabalha, por onde encontra caminhos para construir suas personagens, num terreno desconhecido da nossa mente. Então, ao mesmo tempo em que ela tem todas as técnicas, ela tem também uma sensibilidade ao dar vida a essas personagens, que provavelmente eu e você nunca teremos. Mas a gente sente isso. Ainda dentro de toda sua transcendência, Isabelle tem a elegância, não da moda, mas da humildade no tratamento das pessoas e de sua profissão (ainda assim é vestida pelas marcas mais poderosas do universo); ela tem carinho por seus colegas, ela reitera que aprende atuando e não teme ser honesta. Diva é diva!

SOBRE O FILME: fiquei numa dúvida cruel para escolher um filme recente e falar dela; obviamente, ao lado de " O QUE ESTÁ POR VIR ", estava " ELLE " e os dois são um soco fulminante no estômago, porém, tentando sentir qual ainda estava doendo mais dentro de mim, fui vencido por " O QUE ESTÁ POR VIR ". Então, que se saiba: este é um dos filmes franceses da década, é um dos resultados mais envolventes que se tem notícia e, o maior de todos os seus talentos, este é um filme que infla violentamente, na medida em que Isabelle Huppert, literalmente, liberta sua personagem de dentro de si pra fora e, como atriz, revela do que, de fato, é capaz. Se a gente quiser estudar a capacidade do Cinema em dar vida a uma personagem, aqui está uma das últimas matérias primas mais eloquentes desta década e uma das melhores performances (acredite, sem dúvida nenhuma) de todos os tempos. Podemos já ter visto filmes sobre mulheres desmoronando e se reencontrando consigo mesmas, mas nenhum desses filmes traz a leitura que a cineasta Mia Hansen-Love escreveu e nenhum traz a delicadeza do acabamento de Isabelle Huppert. É um "tour de force" descomunal! O filme " ELLE ", aliás, é outro "tour de force" descomunal que valeu a atriz sua indicação ao Oscar e que nos valeu o lamento por não ter ganho. Que ambos os filmes não se percam. 

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segunda-feira, 12 de março de 2018

Meu 1º presente de aniversário

MUITO FELIZ: MEU 1º PRESENTE DE ANIVERSÁRIO


E na semana em que completo 31 anos de idade, a lindeza dessa amiga de tantos anos, Marina Camargo, que nunca se esquece do meu aniversário, me presenteia com esse box com 9 filmes dele, que é um dos meus maiores mentores no Cinema, Alfred Hitchcock. Marina, sem palavras, muito obrigado de coração, amo você, o que eu mais amo é ganhar dvds e estou muito feliz em ganhar esse box, que agora som na minha coleção e nos meus estudos! Gratidão de coração!

A semana que traz minha nova idade não poderia começar de uma maneira melhor que essa, com o Sr. Hitchcock aproveitando do carinho que Marina sente por mim e expressando ele mesmo como tem estado ao meu lado, neste trabalho de luta que tenho feito como Blogueiro de Cinema. Precisamos abrir os nossos olhos e ouvidos aquilo que a gente ama e aquilo que define nossa existência; não tenho nenhuma dúvida que, através de uma inspiração que certamente ele deve ter movido dentro do coração de Marina, está se servindo para mostrar que tenho sua "benção" e me oferecendo seus filmes que amo tanto e sobre os quais os estudos não podem parar:

"Chantagem E Confissão" / "A Dama Oculta" / "Rich And Strange" / "Sabotagem" / "O Agente Secreto" / "Os 39 Degraus" / "O Homem Que Sabia Demais" / "The Lodger" / "Número 17"

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domingo, 11 de março de 2018

Como Nossos Pais

"O melhor filme brasileiro de 2017. Ponto. E por várias razões!"

DVD E CARTAZ ENVIADOS PELA IMOVISION PARA O DANIEL SERAFIM MAIS CINEMA
QUERO AGRADECER A IMOVISION, AGRADECER AO ASSESSOR ELIAS OLIVE, PELO RESPEITO E CARINHO PELO TRABALHO DO MAIS CINEMA 

O trovão está gritando cada vez mais alto, a chuva começa a cair sobre a mesa, o leite fervido derrama e esses ruídos ameaçam a morbidez. Já vimos muitos conflitos familiares no cinema, alguns filmes sobre reuniões assustadoras de famílias não saem da nossa cabeça, mas nenhum deles é como "Como Nossos Pais". De tantos talentos, o que mais me perturba em "Como Nossos Pais", é como coube ao filme a capacidade de exibir uma ruptura comportamental/cultural/social e de mostrar como funciona a interrupção de padrões que vem sendo transmitidos há séculos e que, até aqui, afetaram sobretudo as mulheres. "Como Nossos Pais" é um filme dirigido por uma mulher, a notória cineasta Laís Bodanzky, a partir de um roteiro escrito por ela e por seu colaborador de longa data, Luiz Bolognese; é um filme de uma cineasta mulher autora, sobre uma protagonista mulher, que representa quase 100% de todas as mulheres. São essas mulheres forjadas até aqui a desempenharem dezenas de papéis segregadores ou registrados como secundários, sempre aprisionadas por filtros minimizadores, machistas e desumanos. Esta é, possivelmente, a primeira vez no cinema brasileiro que um olhar examina o comportamento de gerações, com o desafio de desintegrar tal comportamento ao máximo e devolver a mulher a liberdade suprema e o direito de como viver sua vida. Ao mesmo tempo, "Como Nossos Pais" é um resultado de cinema autêntico, construído majoritariamente por uma direção inspiradora e que conta com atuações magníficas. 

"Você foi concebida na minha viagem a Cuba e o Homero não estava lá": essa é a frase memorável deste filme, é o anúncio que desestabiliza completamente a protagonista e lhe abre a possibilidade de enfiar junto desta decepção todas as suas infelicidades. A partir desta frase, seu pai não é mais seu pai, mas vai aproveitar para o "só ser esposa" não ser mais o só "ser esposa", para o "só ser mãe" não ser mais o "só ser mãe", para o "só dar conta de marido, casa e filhos" não ser mais o "só dar conta de "marido, casa e filhos", ou seja, o desgaste que já vinha pesando sobre a protagonista, vivendo cercada de exigências e de aparências, chega ao fim. É o grande trunfo deste filme, a cineasta Laís Bodanzky filmar o mal estar que se instala na vida de uma mulher que, na medida em que vai percebendo como está atrelada a um mecanismo que faz de sua existência uma prisão, passa a perceber além. Mas há outros trunfos em "Como Nossos Pais", como captar pelo menos 3 gerações diferentes e extrair o sentido máximo da música imortalizada na voz de Elis Regina, que endossa o título deste filme. Repare, então, que temos as oposições entre mãe e filha; temos a filha, a protagonista, debatendo a todo instante, dominando sua consciência e se deslocando; e temos, por fim, sua relação com suas filhas. Enquanto sua mãe tem a sobriedade de não se arrepender de nada do que viveu, a filha entre num processo de discordância da paisagem a sua volta e, assim, mesmo sendo dura com suas filhas, termina o filme cedendo no que antes leva a ferro e fogo. É a beleza da direção de Laís Bodanzky, que transita com delicadeza, simbolismos e desconstruções de imagens por sobre as gerações e sagra sua personagem, na conclusão de tudo, com o poder máximo da liberdade, da consciência e da escolha. 

Os últimos grandes filmes que assisti trazem personagens que carregam sobre si fardos dolorosos e também são filmes que, em pleno novo milênio, anunciam o desmoronamento de toda uma era. É por isso que, nesse sentido, a atuação da atriz Maria Ribeiro em "Como Nossos Pais" foi, de longe, a melhor da produção brasileira em 2017. Menos Maria Ribeiro e mais Rosa, sua personagem, ela conseguiu não explodir completamente e chegar num tom que, de fato, fizesse dessa mulher uma representante, como dito antes, de quase 100% de todas as mulheres. Também a atuação da extraordinária Clarisse Abujamra como Clarisse, a mãe de Rosa, sem dúvida, foi a melhor atuação coadjuvante da produção brasileira em 2017, que conseguiu oferecer o melhor sentido do contraponto para a protagonista. E Laís Bodanzky, num desses momentos mais inspiradores do cinema, despediu-se da personagem de Clarisse Abujamra sob a benção da Monja Coen, a guru da atualidade. Quero ainda salientar que "Como Nossos Pais" está se juntando a um movimento violento (no bom sentido) de filmes que fazem o protagonismo feminino traduzir todo o Brasil político/cultural atual e que tem agora, com o filme de Laís Bodanzky, seu 3º grande ápice, seguindo "Que Horas Ela Volta?", da cineasta Anna Muylaert e "Aquarius", do cineasta Kleber Mendonça Filho. Foi lamentável que o Brasil, em mais um ano, não tenha indicado a disputar ao Oscar o filme que, de fato, tem representatividade dentro de sua indústria cinematográfica e, principalmente, dentro da importância do momento em que vivemos como um todo no mundo. Viva Laís Bodanzky!

" COMO NOSSOS PAIS " - Como Nossos Pais - Dir. por Laís Bodanzky - Brasil - 2018 - Distribuidora no Brasil: Imovision 

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terça-feira, 6 de março de 2018

Uma Espécie De Família

"Adoção clandestina, barriga de aluguel, a destituição da ética e a obsessão; é o cinema latino agindo com nervosismo!"




Há uma característica muito latente da personalidade do cinema latino em narrar histórias como contos hediondos. Boa parte dessa característica se deve ao fato de que a maioria dos países da América atravessaram por ditaduras e carregam o fardo da obscuridade que paira sobre a história. A outra parte dessa característica se deve ao fato do pensamento de talentosos cineastas, que apareceram pós anos 2000, que entendem que a pobreza de seus países concentram economias próprias e soluções particulares para assuntos mal debatidos pela política social, trocada frequentemente pelo interesse. Pois bem, em "Uma Espécie De Família" (co-produzido pela brasileira Bossa Nova Filmes), o cineasta argentino Diego Lerman, passando dos 40 anos e que dirigiu seu primeiro longa em 2002, perturba com a história de Malena, médica de classe média, que encomendou uma criança pela prática de uma barriga de aluguel na província de Misiones, um lugar semi-notado na fronteira entre o Brasil e a Argentina. 

Tudo parecia caminhar bem, seguindo uma prática clandestina cuja sensação é de que ali é tão rotineira, quanto brilha a luz do sol. Acontece que é aquela velha história, a consciência vai ser sempre a maior das medidas. A médica Malena já atravessou um limite ético e agora parece estar preocupada com uma pressão exercida por si mesma, na medida em que vai caindo dentro de si sua obsessão pela maternidade e como, por isso, tem se arriscado. Ela se meteu com uma uma espécie, não de família, mas de "rede do crime" e aí que mora o talento deste filme imaginado por esse cineasta. Ele imagina os processos da adoção ilegal e imagina todas as partes com as quais Malena se uniu para levar a cabo sua obsessão, como uma teia clandestina, dessas que ainda vão revelar que o sonho de ser mãe pode adquirir um preço bem mais perigoso para Malena. Quando nasce a criança, surge um parente de Marcela, a barriga de aluguel, dizendo lá uma história que vai precisar de uma bolada de grana de Malena, deixando bem claro que se ela não pagar, não leva a criança. A batata começa a assar!

Todo mundo parece saber que por ali é assim que funciona e os personagens chegam a ser cômicos. A rede de suborno que se revela tem todos os seus personagens cumprindo um papel de "máfia": tem o grande "agenciador" do plano, o médico chefe; tem a velha enfermeira, uma gerente do plano, que ataca de "mãezona"; e tem a advogada, que testemunha com calmaria a chantagem e valida os processos de falsificação. É interessante como o diretor Diego Lerman provoca as consequências no filme. Sua personagem está obcecada e vai atravessar todos os desafios para ter o bebê nos braços. A câmera segue a personagem com nervosismo e transmite todo a tensão pela qual Malena está passando, entre todas essas pessoas. E o filme atinge pontos altos, criando inclusive simbolismos, tentando despertar na personagem uma travessia por julgamentos interiores, como a sequência extraordinária de uma passagem de uma nuvem de gafanhotos, que parece surgir como uma das pragas do Egito. Esses temas também são recorrentes ao cinema latino, a maternidade e suas pressões. O filme de Diego Lerman cresce também por trazer duas atuações poderosas, a da atriz Barbara Lennie, como Malena e a da atriz Yanina Ávila, excelente coadjuvante como Marcela, a barriga de Aluguel. Ao final, sempre um ponto alto desse cinema, o filme deixa a encargo do espectador debater se o que assistiu, se os tabus que expôs, fazem sentido de trazer o pensamento sobre a América ou não.

" UMA ESPÉCIE DE FAMÍLIA " - Una Especie De Familia - Dir. por Diego Lerman - Argentina - 2017/2018 - Distribuidora no Brasil: Pandora Filmes 

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