segunda-feira, 31 de julho de 2017

O adeus a Jeanne Moreau e o parabéns a Geraldine Chaplin


Jeanne Moreau, 89 anos de vida, um monumento do cinema e que agora torna-se memória e legado. Em muito mais de 100 filmes foi vista, numa longeva carreira de mais de 65 anos e que contou com a honra de fazer parte da Nouvelle Vague, com seu nome ali cravado em "Jules e Jim". Deve ter sido sua maior felicidade ser dirigida por nomes como Truffaut, Welles, Antonioni, Fassbinder, Manoel de Oliveira, Cacá Diegues, dentre tantos outros. Nunca esqueceremos a artista completa, atriz, diretora, roteirista e cantora, Jeanne Moreau!



Geraldine Chaplin, outro patrimônio do cinema, 73 anos de vida hoje e quase 55 anos de carreira. Colocada pelo pai, Charles Chaplin, em cena em "Luzes Da Ribalta", aos 8 anos de idade, tornou-se uma atriz extraordinária. Na carreira, já foi dirigida por Saura, Altman, Almodóvar, Lean, dentre tantos outros e tem seu nome em obras-primas como "Doutor Jivago", "Cría Cuervos", "Nashville", dentre muitos outros. E não para de trabalhar!

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quinta-feira, 27 de julho de 2017

O cinema neste dia 27:


~ William Wyler ~ Peça importante do grupo dos grandes cineastas americanos, diretor de "Ben-Hur", "A Princesa E O Plebeu", "Os Melhores Anos De Nossas Vidas"; 12 vezes indicado ao Oscar, com 4 estatuetas ganhas, chegamos hoje aos 36 anos sem William Wyler.

~ Maya Rudolph ~ 45 anos de vida hoje, mais de 20 anos de carreira e já teve a honra de ser dirigida por nomes como Robert Altman e Paul Thomas Anderson.

~ Taylor Schilling ~ o sucesso de "Orange Is the New Black" chega hoje aos 33 anos de vida, completando 10 anos de carreira neste ano e contando com suas 2 merecidas indicações ao Globo De Ouro.

~ Nikolaj Coster-Waldau - o dinamarquês de "Game of Thrones" completa hoje inacreditáveis 47 anos de vida, com 24 anos de carreira e já foi dirigido por Ridley Scott em "Falcão Negro Em Perigo".

~ Jonathan Rhys Meyers ~ o irlandês, que já viveu Elvis Presley, que venceu o Globo De Ouro (que foi indicado mais 2 vezes), e que foi honrado em Cannes, quando foi dirigido por Woody Allen em "Match Point", completa hoje 40 anos de vida e com mais de 20 anos de carreira.

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quarta-feira, 26 de julho de 2017

Meu coração, nesse dia 26, no cinema:



Uma das rainhas do cinema, Helen Mirren chega hoje aos 72 anos de vida e, ela que já interpretou três rainhas britânicas, tem um dos Oscars mais memoráveis, já ganhos na história do cinema, por sua atuação, ainda assombrosa, como Elizabeth II em "A Rainha". Prestes a completar 60 anos trabalhando como atriz, permanece como uma das mais honráveis damas do cinema!

Já Sandra Bullock chega hoje a inacreditáveis 53 anos de vida e como uma das atrizes mais queridas de todos os tempos. Quase ultrapassando 30 anos de carreira, tendo vivido redescobertas e mais redescobertas como atriz, venceu um Oscar por um papel incrível em "Um Sonho Possível" e viveu outra grande indicação por sua atuação, ainda impressionante, em "Gravidade"

E, dispensando palavras, Stanley Kubrik, o mais querido dos gênios do cinema, completaria hoje 89 anos de vida, tendo falecido há 18 anos. Com um número discreto de realizações (apenas 16), foi o que bastou para que afetasse o cinema, enquanto ciência, enquanto compreensão e enquanto contato. Mesmo entre os mestres, não há entendimento, habilidade e resultado da equação cinematográfica, que se assemelhe as conquistas e fundamentos de Kubrik, que sempre se renovam, em seus filmes, em experiências únicas e exemplares.

Obs.: Kevin Spacey, outro querido, chega hoje aos 58 anos de vida.

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domingo, 23 de julho de 2017

Nesse dia 23, no cinema, temos:

Extraordinário, um dos melhores atores de sua geração, Philip Seymour Hoffman faria 50 anos de vida hoje. Sua falta é um pesar muito grande, ele que foi 4 vezes indicado ao Oscar e que venceu o prêmio com sua atuação impressionante em "Capote"








Falecido aos 49 anos de idade e com 29 anos de carreira, o russo Aleksandr Kaydanovskiy faria 71 anos de vida hoje e todas as vezes que pensamos em "Stalker", do mestre Tarkovskiy, é o rosto dele que pipoca na cabeça da gente. 





Se tem um ator que, bem jovem, conseguiu ser um sucesso absoluto entre toda uma geração mais recente, cravando 8 filmes com sua presença marcante, esse ator é Daniel Radcliffe, que hoje completa 28 anos de vida. Não dá nem vontade de chamar ele de Daniel Radcliffe, mas de Harry Potter.





O norte americano Woody Harrelson, chega hoje aos inacreditáveis 56 anos de vida, indicado 2 vezes ao Oscar (pelo espetacular "O Povo Contra Larry Flint", de Milos Forman e pelo excelente "O Mensageiro", de Oren Moverman) e com um talento incontestável. 





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sábado, 22 de julho de 2017

Esse 22 de Julho no Cinema

A inesquecível Lola, do igualmente inesquecível "Corra, Lola, Corra", a alemã Franka Potente, completa 43 anos de vida, com mais de 20 anos de carreira. Recentemente participou de "Invocação Do Mal 2".
Chega aos 71 anos de vida o extraordinário Danny Glover, com quase 40 anos de carreira em cinema, tv e teatro. Intercalando a carreira com seu ativismo, tornou-se notório, na luta pelos direitos civis e humanitários. 

Dos atores mais extraordinários e versáteis de sua geração, Willem Dafoe, indicado 2 vezes ao Oscar, por "Platoon" e "A Sombra Do Vampiro", chega aos 62 anos de vida, com quase 40 anos de carreira. 
Uma lenda, um mito e um "midas" dos roteiros. Paul Schrader, cineasta, mas um "ponto final" como roteirista, chega aos 71 anos de vida, aclamado como poucos. É de sua autoria alguns dos textos mais extraordinários do cinema, como "Taxi Driver", "Touro Indomável" e "Gigolô Americano".

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Ainda Existe Amor


Você precisa acreditar em você e, se você ama o que você faz, esse amor ecoa no universo. Preciso agradecer de coração a Supo Mungam Films. Não sou de expor minha vida, mas há 2 semanas atrás, fui vítima de um assalto horrível, com severas agressões, o que nem quero lembrar. E fui surpreendido por algumas atitudes que demonstram a possibilidade de se crer que ainda pode haver um interesse, na forma mais pura de amor e paz, entre seres-humanos.

Uma dessas atitudes chegou até mim através dos proprietários da Supo Mungam Films (distribuidora de filmes que está lançando "De Canção Em Canção" neste momento), que acompanham minha luta para trabalhar como blogueiro\instagramer de cinema e que estão incentivando o crescimento dos meus canais "Mais Cinema". Eles descobriram o que aconteceu comigo e prontamente me ofereceram toda a ajuda que eu precisasse, me enviaram um super presente essa semana e escreveram esse bilhete cheio de carinho desejando que eu continue com o meu trabalho e desejando sorte ao Mais Cinema. Eu quero agradecer, não tenho mais palavras para agradecer tudo o que eles fizeram por mim nos últimos dias em nome da Supo Mungam Films, que se torna agora uma madrinha do Mais Cinema. Agradeço do fundo do meu coração a Gracie e ao Pedro, a toda Supo Mungam Films e celebro assim, em gratidão, a existência desse amor, que nos une e que demonstra que, amar a vida, é também amar o seu semelhante. E muitas surpresas estão chegando! Gratidão  

Gratidão a Supo Mungam Films  

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sexta-feira, 21 de julho de 2017

As emoções desse dia 21


~ Robin Williams ~ No mínimo 3 gerações, a partir da década de 80, se elencassem 10 nomes do cinema que fizeram parte de sua vida, sem dúvida, iriam constar o nome de Robin Williams, que hoje faria 66 anos de vida, morto em Agosto de 2014. Integrante de filmes memoráveis como "Bom Dia, Vietnã", "Sociedade Dos Poetas Mortos","Gênio Indomável" (que lhe valeu o Oscar), "O Pescador De Ilusões", Patch Adams, dentre tantos outros, poucos atores exibem o carisma, peculiarmente familiar, com que Robin marcou nossas vidas.


~ Charlotte Gainsbourg ~ Filha de um dos maiores nomes da história da música, Serge Gainsbourg, a franco-inglesa Charlotte Gainsbourg, que completa 46 anos de vida, é atriz e cantora, mas, acima de tudo, é um dos maiores exemplos de versatilidade artística já vistos. Nos últimos anos, os projetos que aceitou lhe renderam papéis assombrosos e foram encarados por ela com uma destreza de entrega espantosa. Só por "Anticristo" e "Ninfomaníaca" a gente já fica sem palavras para descrever seu talento. É só assistindo mesmo!


~ Maria Falconetti ~ Renée Jeanne Falconetti ou só Maria Falconetti faria hoje 125 anos de vida e permanece como a grande mestra da atuação. Seu desempenho em "A Paixão De Joana d'Arc", de Carl Theodor Dreyer, carrega o peso do que já foi chamado de "a melhor interpretação de um ator já gravada em película", como algo que se divide entre o inovador e o inalcançável. De fato, não há um olhar e uma emoção no cinema, que possa ser como foram nos close-ups de Maria Falconetti. Permanece, tanto o filme, quanto o trabalho da atriz, monumentos do cinema.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O Sétimo Selo

"60 anos depois, a obra-prima, das obras-primas de Bergman, permanece irretocável!"


Todas as vezes que quisermos o melhor exemplo de que forma é que, no cinema, um filme pode continuar, poderosamente, no imaginário da humanidade, devemos nos retornar para "O Sétimo Selo". Da mesma forma, todas as vezes que quisermos o melhor exemplo de que forma é que o cinema se demonstra originalmente abismal, sem perder o frescor e exibindo sua capacidade em manter-se encorpado no decorrer do tempo, devemos retornar para "O Sétimo Selo". É este o filme que o Caixa Belas Artes exibe nesta 5ª feira (20) e no Domingo (23), em 35mm., na semana dedicada ao cineasta Ingmar Bergman, dentro da programação da Colônia De Férias\2017.

A morte é, certamente, a 1ª de todas as inquietudes do cinema do maior cineasta de todos os tempos. Bergman relatou que, na adolescência, havia ficado trancado no necrotério de um hospital, junto do cadáver de uma jovem e que quase teria encostado nas suas genitais. De fato, em 1953, quando realizou um sucesso absoluto, "Mônica E O Desejo", o "toque" seria um elemento primordial, mas, em 1957, quando realizaria "O Sétimo Selo", provavelmente a maior obra-prima de toda sua carreira de obras-primas, é a morte quem entraria em cena e traria consigo a abertura de uma fonte de onde sairiam as maiores reflexões, para as quais se poderia utilizar a arte do cinema. Até o presente momento, não há ninguém na história do cinema, que tenha manipulado essa arte de forma tão calorosa para dilatar pensamentos e angústias que continuam assolando a humanidade.

Em "O Sétimo Selo", um tripé formado pela composição da imagem, pela qualidade do texto e habilidade da direção, forma um espetáculo que continua causando espanto e admiração. Na idade média, durante a época da peste negra, um cavaleiro cansado que retorna das cruzadas com seu escudeiro, encontra com uma personificação da morte à beira da praia, toda vestida e encapuzada de preto. A morte vem levá-lo, mas um jogo de xadrez é proposto, afim de que ganhe tempo. Durante esse tempo, somos introduzidos a imagem da arte, através de uma família de artistas, mas também a imagem da religião, através de uma procissão que vai levando uma mulher para a fogueira. Dessa forma, há um peso (em equilíbrio) dos pensamentos que Bergman expõe da vida e ao mesmo tempo os contrapõe. Enquanto o cavaleiro contempla a passagem de tantos personagens, que aos poucos o acompanha, com suas inocências e travessuras, ele mesmo se dá conta de sua angústia. Numa das cenas mais memoráveis, ele faz uma confissão e expurga suas dúvidas sobre Deus, fala também dos pontos em que a divindade o irrita e de que forma deseja sua morte. E, quando vê, confessa qual será sua maior jogada no xadrez contra a morte, mas, para seu desgosto, descobre que quem o escuta pela parede, é a própria morte. Ele se confessa para a morte. 

A composição das imagens criadas por Bergman aqui iriam influenciar gerações por gerações. De fato, a própria imagem da morte iria ser reprocessada centenas de vezes na história da humanidade pós Bergman e na história do cinema. Embora sempre haja um olhar mais severo para "O Sétimo Selo", calcado tanto na imagem da morte, estupidamente interpretada com força por Bengt Ekerot, quanto na introspecção do cavaleiro, lindamente interpretado por Gunnar  Björnstrand, há também, neste filme, uma qualidade cômica, que remonta também a qualidade teatral dos textos de Bergman. As cenas circenses aqui são muito engraçadas e os desfechos de alguns personagens secundários, como a esposa e o marido traído, bem como o amante ator, são engraçadíssimos. É igualmente rica a maneira como Bergman repensa a sagrada família na família de artistas, que depois entram no centro do interesse da morte e são protegidos pela compaixão do cavaleiro. E, por fim, deve-se pensar na forma grotesca como Bergman demonstra a religião e em como também faz emergir a antiga oposição entre o "sagrado" e o "profano", quando justamente a exibição circense é interrompida pela procissão religiosa dos "pecadores" que se sentem responsáveis pela peste. Sem dúvidas, sempre teremos em "O Sétimo Selo" uma aula do melhor exemplo de obra-prima e um legado, dentro da filmografia de um dos maiores cineastas de todos os tempos, senão o maior.

" O Sétimo Selo" - Det Sjunde Inseglet - Dir. por Ingmar Bergman - Suécia - 1957 - Exibido pelo Caixa Belas Artes, em 35mm. dentro da programação da Colônia De Férias\2017.



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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Nesse dia 19: 1 ator excepcional e 5 cineastas excepcionais


Esse dia 19 é muito especial:

O britânico Benedict Cumberbatch, indicado ao Oscar por seu trabalho avassalador em "O Jogo Da Imitação", chega aos seus 41 anos de vida. 

E eles são estupidamente excepecionais: 

O egípcio Atom Egoyan, para sempre obrigatório com "O Doce Amanhã", chega aos 57 anos de vida;

o japonês Kiyochi Kurosawa, de obras-primas como "Sonata de Tóquio" e "Cure", chega aos 62 anos; 

outro japonês, Hideo Nakata, a incrível mente visionária de "O Chamado" e "Água Negra", chega aos 56 anos;

Abel Ferrara, extraordinário, de filmes como "Vício Frenético", "Maria" e, mais recentemente, "Pasolini", chegando aos 66 anos;

e o premiadíssimo, o argentino Juan José Campanella, dos indispensáveis "O Filho Da Noiva" e "O Segredo Dos Seus Olhos", completando 58 anos de vida. 

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terça-feira, 18 de julho de 2017

Em pé aplaudimos: 79 anos de Paul Verhoeven


No último ano, não teve pra ninguém, não saiu das nossas bocas cinéfilas: o filme "Elle" foi um dos eventos do ano. Na minha cabeça, para comemorar os 79 anos de Paul Verhoeven, só colocando mesmo sua foto com Isabelle Huppert, tamanha a cumplicidade inseparável que ambos criaram e que fora responsável pelo resultado destruidor do filme. Mas, para além da majestade Huppert, impera a mente incrivelmente renovável deste homem.

No cinema, ele já se meteu em exatamente tudo e boa parte de seus filmes, além de escola, são dos mais obrigatórios da história do cinema, seja na fase Europa ou na fase América. "Louca Paixão" (1973), "Soldado de Laranja" (1977), "O Quarto Homem" (1983), "Robocop - O Policial Do Futuro" (1987), "O Vingador Do Futuro" (1990), "Instinto Selvagem" (1992)", enfim, ele precisa ser dominando de ponta a ponta e é uma oportunidade única testemunhar como esse cineasta continua se reinventando com quase 80 anos. Merece o nosso louvor!!


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segunda-feira, 17 de julho de 2017

O cineasta Michael Mann ("Fogo Contra Fogo") fala sobre "Moonlight"

"Quando Barry Jerkins nos apresentou "Moonlight", ele esperava que nos víssemos nos personagens. Somos lançados para dentro de uma guerra de vizinhanças com Chiron, uma criança de 10 anos na cidade da liberdade, Miami, onde os terrenos baldios, os prédios abandonados, as calçadas - os atalhos e as rotas de fuga - são o único mundo que ele conhece. Nós assimilamos vividamente, como um garoto de 10 anos de idade, a crueldade, a generosidade, a força dos outros, a negligência diante do vício do crack num lar de onde ele não pode escapar. As vidas dos personagens de Jenkins  avançam, são atravancadas, são entorpecidas pela estupefação, terminam tragicamente, se separam. "Moonlight" é o mundo de Chiron. É a atual classe média-baixa, classe trabalhadora, o mundo das classes marginalizadas e alienadas.

Intimidade é a conquista de Jenkins. Mas aquilo com o que ficamos íntimos é outra consciência, tão verdadeiramente forjada que nos faz olhar pra dentro e pra fora ao mesmo tempo. Por isso que o trabalho de Jenkins é profundo. Nós somos Chiron e ele somos nós, nos perguntando "quem sou eu? A que lugar eu pertenço?" 

Jenkins arranca atuações maravilhosas de um elenco soberbo. Ele constrói uma narrativa de três fases de um garoto que se transforma num homem, através de escolhas esplêndidas sobre como "chegar tarde e sair cedo" para alcançar magicamente a coesão de uma história singular. Mas, esqueça isso, por que "Moonlight" tem o poder e a beleza de transcender. Isso é arte. Nos estamos vendo o primeiro grande trabalho de um diretor brilhante. 

Considere o final do filme. Não cremos ser possível que Chiron possa contar com alguém ou algo confiável e pôr fim ao seu isolamento (e talvez o nosso próprio de nós mesmos). Então, há a simples conexão que Chiron estabelece com Kevin. 

Então, aquilo te leva de volta e te lembra de ser uma criança silenciosa e negligenciada na cidade da Liberdade e a profunda simplicidade desse filme." (Michael Mann)

Entrevista dada por Michael Mann a Variety:

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domingo, 16 de julho de 2017

Os 47 anos de vida de Apichatpong Weerasethakul


Um dos cineastas mais extraordinários de todos os tempos, ele saiu do nordeste da Tailândia para agregar renovação à estética do cinema, a partir do seu 1º longa, "Mysterious Object at Noon" (um experimento fascinante, embora já dirigisse curtas), no começo dos anos 2000. A partir de sua estética, única e incomparável, foi afetando, com todas as honrarias, o cinema ao redor do mundo.


De lá pra cá, até o presente momento, foram 9 longas e a "Palma de Ouro" obrigatória, de "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", um dos filmes mais impressionantes e inacreditáveis que poderíamos testemunhar. A construção enigmática de seu cinema já foi interpretada como a construção do cinema de Stanley Kubrick. Este é Apichatpong Weerasethakul!

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Patrimônio do cinema: morre George A. Romero


Morre, aos 77 anos, George A. Romero

Em 1968, quando ele realizou a obra-prima "A Noite Dos Mortos Vivos", a concepção era "modesta". Estilo quase documental, um bando de mortos-vivos levantando por todo o país e o desespero incendiando tudo. E, a seu modo, falava das tensões na América do final dos anos 60, que estava em chamas com questões como o racismo, a desintegração da família e do "sonho americano", a força dos movimentos, as demais discussões sociais e, assim, Romero estalou um clássico na história do cinema.
Estabeleceu, dentro do terror, a cultura dos filmes de zumbis (que se tornou o mais bem sucedido dos subgêneros), a mapeou completamente e ordenou suas diretrizes. Foi um marco. A partir disso, agregou uma compreensão inovadora para o próprio terror, redefinindo-o e ensinando que, se super produção ou não, tem que dar medo e ficar na memória, tem que saber mexer com o seu imaginário. Quer coisa mais assustadora que se ver impotente diante de uma multidão de mortos-vivos comendo todo mundo, que não podem mais ser mortos e que estão atrás de você? A questão é que ele filmou com um realismo tão apavorante, que ninguém consegue repetir a dose. Só obras-primas são assim e só gênios fazem assim. Fica, pra nós, o legado de George A. Romero.



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sábado, 15 de julho de 2017

Amores Expressos

"Sucesso absoluto, Wong Kar-Wai aqui, é belíssimo!"


Em 2004, a máxima que fez de "Crash - No Limite" um filme extraordinário era o que se ouvia da boca de Don Cheadle, que dizia que "...em Los Angeles, ninguém toca em você...damos encontrões uns nos outros para sentirmos alguma coisa...", mas em 1994, a máxima que abria o primeiro sucesso absoluto de Wong Kar-Wai, "Amores Expressos", era o que se ouvia da boca de Takeshi Kaneshiro, que dizia "..nós nos cruzamos todos os dias, podemos não nos conhecer, mas um dia talvez nos tornaremos bons amigos...". Pois é, a alma do filme Karwairiano, essa maneira como nos resumimos, como escapamos ou nos deixamos escapar uns dos outros e como estamos expostos a essa força desgovernada do curso da vida, foi reprocessada diversas vezes no cinema, mas nenhuma delas com o resultado que só Wong Kar-Wai consegue obter. Resultado que o Caixa Belas Artes exibe neste Sábado (15) e na 4ª feira (19) na programação da Colônia de Férias\2017.

Neste 3º longa de Kar-Wai, temos os contos entre pessoas que se encontram nos acasos da vida e que, atraídas por formas incomuns, experimentam o gosto de se encantarem e de se enxergarem, em algum momento, no desencanto. Tanto as histórias entre os personagens, quanto a narrativa do filme, são absolutamente não convencionais e de uma forma brilhante realizam o talento dos roteiros Karwairianos nada definidos. Perceber como o cineasta nos faz conhecer e se aproximar dos personagens, como ele constrói suas paisagens, seus estados de solidão, com admiração e fascínio, é o maior espetáculo. Nas duas histórias, dois policiais (que são números e tem a ver com os simbolismos Karwairianos, bem como o tempo) vivem o desencanto de seus amores. É como que se o cineasta, em meio a desenfreada Hong Kong, tentasse se aproximar de algumas das almas que vivem ali, que não parecem mais do que centelhas e faíscas. Na primeira história, a maneira como a marginal de peruca loura (a extraordinária Brigitte Lin que rouba as cenas completamente) cruza com o policial 223 (Kaneshiro) e como encerra sua jornada, é filmada com humor e como se aquelas vidas estivesses acontecendo rapidamente. Porém, a segunda história, entre o encontro do policial 663 (o sempre extraordinário Tony Leung) e a atendente (a encantadora Faye Wong) é narrada com uma graciosidade, dessas de fazer suspirar de tão apaixonantes.

Este belíssimo filme demonstra todos os seus talentos, pois, além da direção magistral do mestre Kar-Wai, o elenco está num estado de graça cinematográfico arrebatador. E 4 canções dão o tom poético inesquecível desse filme: "Things In Life", de Dennis Brown; "What A Difference A Day Makes", de Dinah Washington; "Dream Person", de Faye Wong; e, por fim, a icônica California Dreamin, do "The Mamas & The Papas"". É interessante observar como toda a construção dos filmes de Wong Kar-Wai (e este é um belo exemplo disso) é feita a nos fazer perceber que as histórias são como as nossas, que os encontros e desencontros são como os nossos, mas também que (e eis a tarefa angustiante) que as coisas também nos são tão finitas, como são a esses personagens. Então, utilizar canções, como tantas canções que nos marcam ao longo da vida, tem também esse domínio, o de nos aproximar e construir a nossa memória afetiva, mas também aqui de demonstrar o multiculturalismo de Hong Kong e o elemento diegético. Seja na Los Angeles de "Crash", na Hong Kong de "Amores" ou no lugar em que estamos, não adianta, podemos continuar nos esbarrando uns nos outros, mas o desejo dentro de nós, de procurarmos sempre estar próximos a alguém, anda junto com a gente. 

" AMORES EXPRESSOS " - Chung Hing Sam Lam - Dir. por Wong Kar-Wai - Hong Kong - 1994 - Exibido no Caixa Belas Artes dentro da programação da Colônia de Férias\2017


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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Caixa Belas Artes e o Mais Cinema

O Mais Cinema é honrado pelo Caixa Belas Artes

[ Publicado no perfil oficial do Mais Cinema no facebook em 10\07\2017 ]


E eu começo a semana assim: 

1 = Agradecido! A partir de hoje sou jornalista credenciado com o passaporte ilimitado para o cinema Caixa Belas Artes. O "Belas Artes" viu o meu trabalho, minha luta, gostou e em 7 de Julho resolveu honrar o #MaisCinema com este passaporte. Quero agradecer do fundo do meu coração ao "Belas Artes" pelo incentivo e pela honraria; quero agradecer de coração Carolina Alonso, a assessora de imprensa que cuidou de toda aproximação entre o "Belas Artes" e Daniel Serafim Mais Cinema, gratidão 

2 = Impressionado! Foi tamanha a educação, o respeito, o incentivo e a elegância que o "Belas Artes" praticou comigo. A gente luta muito, rala, para trabalhar e fazer alguma coisa nova nesta área. Amo todas as distribuidoras de filmes (amo mesmo!), porém, infelizmente, as vezes falta uma certa flexibilidade e incentivo, para com o trabalho de quem precisa de uma base mais sólida; ainda assim, acreditem, com muita perseverança, tenho conseguido me posicionar e provar minha inteligência, profissionalismo e paixão. E justamente, nesse tratamento, o "Belas Artes" demonstrou-se extremamente compreensivo, maravilhoso e me pegou de surpresa 

3 - Guerreiro! Infelizmente, ainda existe quem desrespeite, quem coloque nosso trabalho em descrédito, quem nos chame de "lixo" (acreditem, foi a última que ouvi), quem promova a guerra de egos, mas sabe o que destrói isso? A sua verdade e o amor transparente com que você faz o universo a sua volta. O "Belas Artes" me conheceu, sentiu o meu calor e está apostando. Eu agradeço e sigo destruindo o que ainda há de desunião, de desumano, de maldade, com amor, amor e gratidão 

Instagram Oficial: @daniel_serafim_mais_cinema

Perfil Oficial: facebook.com\dsmaiscinema - lotou, então, clica em "seguir" e, em seguida, clica em "ver primeiro", assim você não perde nada.

Página Oficial no Facebook: Daniel Serafim Mais Cinema - @canaismaiscinema 

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Bergman

Ele faria hoje 99 anos


O Mês de Julho é marcado pela data de aniversário de Bergman, mas também é marcado pela data de seu falecimento. Ironicamente, enquanto hoje nos voltamos a celebração de sua vida, que hoje chegaria aos 99 anos, em 30 de Julho faremos o memorial dos 10 anos de sua morte e, já adiantando, em 2018 festejaremos os 100 anos de nascimento do ícone. Incansavelmente faremos todas as honras, e quantas mais pudermos fazer, aquele que modificou completamente o cinema.


Costumo me dirigir a Bergman, como se me dirigisse a um deus, pedindo sempre sua "benção", "proteção" e "intercessão". Principalmente depois que percebi que não teria mais jeito, que o cinema seria para sempre meu começo e meu fim, então foi um apego quase espiritual a ele, tendo-o sempre como orientação. Foi uma forma que encontrei de ensaiar uma conexão perpétua com Bergman. E por que? Porque ele foi meu primeiro grande amor no cinema. Seu primeiro filme que assisti foi "O Sétimo Selo" e, naquela época, na adolescência, sem ter conhecimento de nada, me senti completamente inquieto com o que eu assistia. Aquela imagem da morte jamais sairia da minha cabeça. Imediatamente procurei seus filmes e o segundo que vi foi "Persona". Ali eu já não precisava de mais nada, a sensação que vivi era ter recebido tudo que o cinema poderia me proporcionar, eu não acreditava como tais filmes poderiam conter tamanha profundidade e, mais tarde, viria a descobrir, como continham também um manuseio infinito de cinema. E Bergman se tornou meu pai, meu conselheiro e se tornou um deus. Deus do cinema que hoje faria 99 anos e que faz muita falta ❤️


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Anjos Caídos

"A noite na Hong-Kong Karwairiana e os vislumbres dos personagens inesquecíveis deste filme!"


Este é o filme que, segundo o próprio cineasta Wong Kar-Wai, deveria ser visto junto com "Amores Expressos", como se fossem um filme de três horas, posto que sua inspiração original é que a história de "Anjos" fosse uma história dentro de "Amores". Ele menciona a cumplicidade entre as duas obras, destoando além dos personagens, mas transformando a própria Hong-Kong em uma personagem, explorando seus contrastes entre o dia e a noite, entre a luz e a escuridão. Numa das explicações mais esclarecedoras dadas por ele, disse o que, pra mim, é uma máxima: "[...] O lado da luz e o lado da escuridão, essa é uma das razões pelas quais resolvi fazer "Anjos Caídos". É justo mostrar os dois lados de uma moeda [...]". E esse exercício proposto pelo cineasta pode ser feito no "Caixa Belas Artes", que exibe nesta 6ª feira (14) "Anjos Caídos" e neste Sábado (15) "Amores Expressos", com os comentários do Mais Cinema.

Pois bem, "Anjos Caídos" é o conto de criaturas da noite, é o relato de 4 personagens cujo desenrolar de suas vidas, transmitidas a nós em off por eles mesmos, emergem das sombras, do néon, do grunge, do aspecto de vigilância noturna, do cenário caótico de Hong Kong, da meia-luz e de seus ofícios incomuns, que rasgam o sentido de suas vidas com solidão. Mas o espírito que vemos se levantar sobre tais personagens é a excelência do cinema Karwairiano: a fração de segundos, a desintegração do instante, a impotência do tempo, a finitude da vida, a insegurança sobre todas as coisas e como todas as coisas nos escapam. No cinema de Wong Kar-Wai, as coisas, de repente, são um fim em si mesmas, elas encontram um final, elas se esvaíam sem avisar e é preciso aceitar e aprender dizer adeus. Um matador de aluguel, uma espécie de sua administradora, um jovem mudo e uma loura; esses personagens, soltos no habitual não-roteiro Karwairiano, vivem seus desencontros. 

A administradora e o matador questionam sua sociedade logo no início do filme, e o matador nos diz que, em três anos, aquela é a primeira vez que sentam juntos, mas "sapeca", em seguida, uma "lição de moral", dizendo que sabe o quanto é difícil para um homem controlar sua paixão e que, assim, sócios não devem se envolver emocionalmente. É o arquétipo Karwairiano da resignação. Talvez seja por essa mesma resignação que "Anjos Caídos" traga elementos inefáveis para construir sua teia de emoções na noite de cantos diferentes de Hong-Kong. Há uma onda de volúpia, de sedução, de erotismo, mas também há um timing cômico pulsante. O personagem mudo tem as atitudes mais engraçadas que você não esperaria ver num filme de Kong Kar-Wai e a loura é tão histérica, que ambos pegam o espectador de surpresa, enquanto ainda estamos tentando montar na nossa cabeça a relação entre o matador e sua administradora. 

O resultado deste filme feito em 1995 é extraordinário. A extravagância do modo de filmar de Kar-Wai, composta em "Anjos Caídos" por várias experimentações, é um deleite, ela é quase outro personagem aqui, pois no uso da imagem acelerada e na proximidade da câmera entre os personagens, estampa-se com que rapidez a vida nos escapa e estampa-se quão distantes aqueles personagens estão. Conforme explica o cineasta, enquanto em "Amores Expressos" o efeito da tomada a distância torna os personagens mais próximos de nós, em "Anjos Caídos" a proximidade, principalmente no rosto dos personagens, as vezes desfocados, as vezes em enquadramentos invertidos, serve para deixá-los mais distantes. É uma maneira de amargura que está presente no filme, vista também depois quando o mudo se diverte com uma câmera brincando com o pai e que depois ganha um sentido muito mais emocionante. Aliás, preciso mencionar como o cineasta da nova geração de cineastas de Hong-Kong, incorpora elementos em seu filme. Não pude deixar de pensar em "Beleza Americana" ao ver o mudo com a câmera na mão; não pude deixar de pensar em "Kill Bill" quando os personagens estão com motos e não pude deixar de pensar no cinema de Sion Sono quando o matador executava seus trabalhos. E a trilha de sonora de "Anjos Caídos"? Como não podia usar Massive Attack, Kar-Wai pediu ao seu sonoplasta que chegasse o mais próximo possível e o resultado é delirante. Da mesma forma, dentre tantos talentos musicais aqui, é arrebatador ouvir Shirley Kwan cantando "Forget Him" ou ver a noite se desfazer, ao final, ao som de "Only You" de The Flying Pickets. Kong Kar-Wai sempre se tornará inesquecível.

" ANJOS CAÍDOS " - Do Lok Tin Si - Dir. por Wong Kar-Wai - Hong Kong - 1995 - Exibido em 35mm pelo Caixa Belas Artes na programação da Colônia de Férias\2017


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quinta-feira, 13 de julho de 2017

2046: Os Segredos Do Amor

"É inegável: obra-prima!"

Raras vezes no cinema, um cineasta retornará ao espírito de sua obra-prima, realizando outra obra-prima. É o caso de Wong Kar-Wai que, inquieto com as terminações nervosas de seus personagens na obra-prima máxima de sua carreira (e creio que continuará sendo sua obra-prima máxima), "Amor À Flor Da Pele", e com plena consciência de como nós nos sentimos igualmente inquietos, retornou e dilatou toda aquela atmosfera promovendo "2046 - Os Segredos Do Amor", outra obra-prima, que o "Caixa Belas Artes", exibe hoje (13) e Domingo (16) em 35mm, na programação da 'Colônia de Férias 2017'. 

O que me chama a atenção é, em como nesta não-continuação, são tratados os elementos que antes estavam tão resignados (e que faziam sentido na resignação) no filme anterior, em como eles aqui estão em erupção, em como são mais realistas e somam a experiência Karwairiana, até que sua composição se transforme numa outra obra-prima visceral. A história do jornalista que retorna ao hotel e se hospeda em frente ao quarto do passado, o 2046, que se envolve com a filha do dono do local, mas que guarda uma lembrança enigmática da mulher que ali conhecera e que devaneia em seu conto sobre um futuro ou uma realidade paralela, que atende por 2046, é uma das histórias originalmente mais bem projetadas do cinema pós-moderno. É também nesse sentido que se consolida a excelência de Wong Kar-Wai como autor e cineasta. Enquanto "Amor À Flor Da Pele" traz uma qualidade clássica numa China da década de 60 e contrasta com o relevo do talento da composição de Kar-Wai, "2046 - Os Segredos Do Amor" toma deste mesmo princípio e vai além, mescla os contrastes e oferece ainda a distopia como um elemento a mais. Se antes nossos sentidos eram desorientados em imaginar que consumação aquele casal teria vivido ou não, aqui o personagem do extraordinário Tony Leung encontra no conto que narra, uma forma de se alocar num estado imaginário. O resultado é impressionante.

Em "2046 - Os Segredos Do Amor" a composição continua, não só arrebatadora, como monumental. Dessa vez fico com a trilha sonora: "Perfídia"; "Costa Diva", da ópera de "Norma", na voz de Angela Gheorghiu; "Siboney", na voz de Connie Francis; "Sway", com o imortal Dean Martin; ou ainda "Oh, S'io Potessi Dissipar Le Nubi", da ópera "Il Pirata", na voz da deusa Maria Callas. A radiografia dos personagens de Wong Kar-Wai, transmitida através de cada canção, de cada pontuação musical, e que nos permite aprofundar em seus sentimentos, nos ajuda a adquirir uma compreensão raras vezes obtida num filme. Sempre gosto também de mencionar o quanto acho a personagem da extraordinária Ziyi Zhang uma fabulosa referência a personagem de Audrey Hepburn em "Bonequinha De Luxo". Ainda há e haverá muito o que se falar e se estudar na filmografia de Wong Kar-Wai, inquestionavelmente, um dos maiores cineastas que podemos conhecer. E amar! 

" 2046 - Os Segredos Do Amor " - 2046 - Dir. por Wong Kar-Wai - China - 2004 - Exibido no Caixa Belas Artes 


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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Perdidos Em Paris


"A Pandora Filmes nos dá mais um presente: não há e não haverá um resultado que se assemelhe ao resultado dos filmes de Fiona Gordon e Dominique Abel: carismático na alma e no coração."

Obs.: Não tenho palavras para descrever minha alegria! O cartaz que estou segurando e com o qual fui presentado, foi autografado por Fiona Gordon e Dominique Abel. Gratidão de coração a Pandora Filmes pelo presente   

Uma dica: se você estiver em qualquer lugar do mundo e perceber que num cinema mais próximo de você, está em exibição um filme do casal Fiona Gordon e Dominique Abel, não pense duas vezes: faça um favor a si mesmo, entre e assista. Acredite: você não precisará nem de legenda ou de dublagem, tamanho o talento e a capacidade de se comunicar ao público apenas de forma comportamental e através de um mosaico de expressões que, juntas, falam mais que do que se todos os personagens de seus filmes falassem. A comédia produzida pelo casal não é apelativa, não tem escracho, é engraçadíssima, honesta, sincera e é feita de forma a induzir que você assista com um sorriso no rosto e isso, nos tempos de hoje, é um feito louvável. Eles tem a inteligência de encontrar no espírito do cinema mudo e no legado dos ícones daquela era, uma linguagem que atualize aquela forma de fazer cinema. Além disso, egressos da tradição circense dos clows, seus filmes tem o tratamento imprescindível de uma linguagem universal e, no cinema, exclusiva. E olha, o resultado é tão espetacular que, em "Perdidos Em Paris", não seria demais dizer que esta é uma das melhores estreias e mais imperdíveis, deste ano. 

Não pude deixar de pensar no cinema de Wes Anderson. A personagem Fiona, que parte para a França preocupada com sua tia Martha e topa com Dom, o mendigo, o tempo todo me lembrou "Moonrise Kingdom". De certa forma, nos EUA, Anderson é o cara que mais tem restaurado o gênero. É também uma dádiva para Fiona Gordon e Dominique Abel presentearem o público com a presença de Emmanuelle Riva, que atua com um timing para comédia que, por si só, já é um patrimônio. Aliás, impossível não mencionar que o espírito de despedida está estampado em "Perdidos Em Paris". Foi o último trabalho de Emmanuelle Riva e, como sempre acontece no cinema, com essas grandes lendas, coube a oportunidade "inexplicável" de fazer parte de um filme que traz no texto o tom de despedida. A procura de Fiona pela tia, os encontros e desencontros, as atitudes improváveis do mendigo Dom, e a maneira como tudo isso culmina nas alturas, sob o céu de Paris, é um dos mais belíssimos "testamentos" filmados. O resultado é, de fato, extraordinário e lembre-se: esteja você onde estiver no mundo, não deixe passar a oportunidade de assistir na telona o cinema de Fiona Gordon e Dominique Abel. 

" PERDIDOS EM PARIS " - Paris Pieds Nus - Dir. por Fiona Gordon e Dominique Abel - França\Bélgica - 2016 - Distribuidora no Brasil: Pandora Filmes 




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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Crítica: Na vertical


"Concepções de família, identidade, orientação sexual, beleza e até de cinema. Nenhuma delas, em 'Na Vertical', são de acordo com as suas ou com as minhas, mas estão de acordo com a necessidade de outra concepção\compreensão nos dias de hoje."


Fascinante e rico, o passeio pelo cinema do cineasta Alain Guiraudie é um passeio pela joalheria de elementos, tipos e compreensões que, ao mesmo tempo que desafiadoras, fluem com humor, sem nenhum pudor e com uma estética intrigante, de encher os olhos. Quem já havia se deixado seduzir por "Um Estranho No Lago", compreenda que o resultado de "Na Vertical" é ainda mais surpreendente, ainda mais recheado e com muito mais capacidade de dialogar com as perspectivas de mundo\vida desta sociedade. Este é o que poderia se chamar de autêntico cinema marginal, cinema transgressor e cinema underground dos nossos dias, tamanho o talento autoral e tamanho mergulho promovido nesses espíritos por seu cineasta. Neste filme estão todos os elementos que fazem a sociedade acontecer, mas sob concepções que, após séculos mantidas reprimidas, ganham agora a vazão que necessitávamos. Nada aqui é como você imagina ou espera e os momentos mais tensos deste filme debocham de você, ao ponto que, enquanto podem desencadear sua aflição e julgamento, alfinetam nossa hipocrisia. Logo, assistir um bebê passando de mão em mão, ou estando em mãos que você considera uma afronta, pode significar também que a sociedade a sua volta está praticando esse mesmo ato que você reprova, mas de outra maneira, enquanto você ainda perde tempo tentando discutir, por exemplo, o quanto de sentido tem ou deixa de ter, se essas crianças forem adotadas ou criadas por famílias homossexuais, bissexuais ou de qualquer outra orientação, identidade ou configuração. 

Essa é só uma pitada do quanto existe camada sob camada neste filme, para serem descamadas por quem assiste. O título "Na Vertical" aponta para o conceito de que o homem é o "animal vertical" por excelência, o seu elemento que o destoa dos outros animais. Segundo o cineasta, seu título aponta também para um manifesto. Seu personagem chega a ser "horizontal" muitas vezes, "afundando" na merda e também aí percebendo o eixo da verticalidade, ou seja, "nem tanto ao céu, nem tanto a terra", o que culmina ao final de forma arrebatadora. A verticalidade aqui desafia nossos sentidos, pois as construções que encontramos em "Na Vertical" não se parecem em nada com o mundo que até aqui fomos culturalmente ensinados a enxergar. Não há um personagem que reaja de forma previsível, eles não se comportam e não dialogam pelos códigos que reconheceríamos, eles parecem viver em outro mundo. Não há uma beleza angelical, não há um padrão de segurança, não há nada que tenha a intenção de espelho. Mas a intenção de reflexo superlota o texto de Alain Guiraudie. Personagens que transitam entre sua identidade e dominam a orientação de sua sexualidade, que se deitam tanto com homens, quanto com mulheres; a personagem que odeia o bebê que pariu, mas que na hora de impedir que o pai o crie da sua forma, surge como a "heroína"; personagens que praticam a gerontofilia e que se deitam com velhos; ou seja, para Alain Guiraudie, não adianta olhar e fazer cara de horror, pois ele está filmando de maneira extremista, para dizer nas suas extremidades que, de certa forma, também nos refletimos naqueles personagens ou na intimidade de nossas vidas. Sempre tem um tanto de nós, naquilo pelo que a gente torce o nariz.

A narrativa flui, com alguns momentos memoráveis. Esse é o único filme em que você verá um parto normal em close e em carne viva; o único filme em que você verá um bebê ser usado como isca para atrair lobos e o único filme em que você verá uma cena de sexo explícito entre um homem jovem e um velho (sim, literalmente velho), numa cena com um espírito tão grande de destruir a hipocrisia, que eu ria de gargalhar em testemunhar um cineasta fazendo isso com tanta resistência. Lá pelas tantas, ainda sobra tempo do personagem principal, brilhantemente interpretado por Damien Bonnard, buscar um relaxamento com uma enfermeira, que mais parece uma xamã indígena, no meio de uma floresta e da forma mais inacreditável que você poderia esperar. O resultado de toda essa riqueza do cinema de Alain Guiraudie pede uma releitura dos nossos paradigmas, exige uma saída da nossa "casinha" e desafia nossa consciência. Este é o cinema de um cineasta que menciona o cinema Buñuel, Godard e Glauber Rocha, para dizer que essas lendas, a sua maneira, também tinham um espírito político e que, desconstruindo o mundo, entregavam uma nova percepção. 

" RESTER VERTICAL " - Na Vertical - Dir. por Alain Guiraudie - França - 2016 - Distribuidora no Brasil: Zeta Filmes




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