domingo, 25 de junho de 2017

Crítica: Frantz

Califórnia Filmes\Divulgação

"Os prazeres do cinema de François Ozon"


O prazer de assistir um bom texto desfilar através de imagens e através do que dizem os personagens de um filme, aliado aquela sensação da plenitude artística, são das experiências únicas capazes de transformar sua estadia dentro da sala de cinema. Em François Ozon é isso que se pode obter, um estado de prazer artístico expressos em direção, roteiro, edição e, especialmente em "Frantz", figurino, direção de arte, acabamento, ou seja, que resultam num filme belíssimo e, se visto no cinema, de um resultado inesquecível. 

Nas palavras de Ozon, vale a observação: "[...] é o filme de um diretor americano de sangue alemão que não sabia que uma segunda guerra mundial estava despontando no horizonte. Ele fez um filme otimista sobre reconciliação. Minha abordagem, como um francês que não viveu durante uma guerra mundial, seria obviamente diferente”. Ele se refere ao fato de que "Frantz" é livremente inspirado em "Broken Lullaby", de Ernst Lubitsch, filmado em 1932. E justamente, como ele aponta, seu filme tem um certo pessimismo, visto nas contrariedades das imprevisibilidades de seu roteiro, e tem também o fardo de uma jovem geração que acabou de viver a primeira guerra, que teve suas perspectivas dilaceradas, sem saber que mais a frente aconteceria uma temida segunda guerra. Para resumir o resultado deste valioso filme de Ozon: "Frantz" é o filme na brecha entre a névoa amarga do término da guerra e a sensação de ter de continuar, sem saber que logo menos, outra guerra viria e os faria recuar novamente.

A história da noiva viúva alemã, que percebe um desconhecido visitando o túmulo do noivo e que, depois que o sujeito, um soldado francês, adentra sua vida, perturbado e sofredor, a transforma completamente e traz a liberdade criativa, junto de uma licença poética, com que Ozon engenha sua narrativa. Já dominamos a ciência sobre a habilidade narrativa de Ozon, sobre como se torna único trazendo a linguagem de mais de um gênero para um mesmo filme, mas seu desejo incontrolável de "contar" beira o assustador. Os mistérios da alemã Anna e o peso sob o francês Adrien, tomam caminhos inimagináveis. Se você ficar sem saber ao máximo a respeito da sinopse, a recompensa é inexplicável. Há o cuidado com que Ozon transforma o tom diante do espectador, sem pedir licença, tocando no espírito do luto, na digestão do processo, na mentira e nas livres escolhas, utilizando um preto e branco vertiginoso. Porém, na espreita da conexão entre os alemães e os franceses, entre a relação de amizade e no sentido da arte, toma como ponto alto um nível colorido, evocando uma vitalidade consoladora e vívida. 

Construído sob um arrebatamento artístico extasiante, o acabamento da reconstrução de época e do figurino é lindíssimo. No entanto, faça-se justiça a atuação colossal de Paula Beer, premiada pela mesma, que é de uma capacidade atrativa, com um olhar deliciosamente enigmático, a nos deixar intrigados o tempo todo. O resultado deste filme de Ozon é inexplicável, é imperdível. 

" FRANTZ " - Frantz - Dir. por François Ozon - França\Alemanha - 2016 - Distribuidora no Brasil: Califórnia Filmes




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Crítica: Divinas Divas


"Documentário de Leandra Leal é arrebatador, é uma joia rara e, mais uma vez, a Sessão Vitrine Petrobrás entrega outro documentário para ser lembrado nos anais do cinema brasileiro!"


Pois pode acreditar, o resultado colhido aqui é dos melhores da última década, envolve consciência, carinho, o respeito ao legado dos nossos artistas e me pergunto: se Leandra Leal não o tivesse feito, quem o faria? Por que ainda não havia sido feito em pleno 2017? Quanto tempo mais demoraríamos para exaltar essas artistas, uma vez que tantas outras e tantos outros já foram exaltados? E, ao mesmo tempo, eu louvo que tamanha reverência tenha sido feita através do cinema, a arte que é capaz de proporcionar o encontro mais arrebatador de todas as artes e, para essas artistas, não haveria maior alegria. 

É questão de habitat. Leandra Leal cresceu nesse habitat. Sabe aquela história que a gente planta a semente? Leandra cresceu no teatro Rival, um sinônimo da liberdade de gênero e o palco pioneiro a apresentar homens vestidos de mulher. O pai e o padrinho de Leandra eram gays. Parte do resultado dessa criação e dessa educação está vivo em "Divinas Divas", que só poderia ser executado da forma como foi por alguém que tivesse essa consciência da vida e essa perspectiva. São elas as divinas divas: Marquesa, Camille K, Fujika de Halliday, Brigitte de Búzios, Divina Valéria, Jane Di Castro, Eloína dos Leopardos e Rogéria. Elas formam a primeira geração de artistas travestis que enfrentaram desafios (numa época inconcebivelmente diferente de hoje) e que transformaram o teatro de variedades. 

O documentário de Leandra Leal é um mapa dessas 8 personalidades, ele surge do espetáculo que as divinas divas apresentaram a partir de 2004 no teatro Rival, comemorando os 70 anos da casa e os 50 anos de carreira dessas artistas. Acima de tudo, este documentário é feito com o interesse que se espera. Elas estão na história do teatro brasileiro, na trajetória artística do país e influenciaram mais de uma geração. Rogéria se tornou a mais familiar, por conta de não sair da mídia e estar entre as celebridades, mas as outras divinas divas são igualmente um patrimônio. Através de uma montagem calorosa, construímos a percepção do talento irrepreensível de cada uma delas, artistas completas, seja cantando, se montando, atuando, dançando e extremamente a frente do seu tempo. Elas não se resumem a terem feito coisas que ninguém fazia à época, mas a fazerem o que todo mundo ainda tenta fazer muito facilmente hoje, uns mais bem sucedidos que outros, porém com a ausência de um ingrediente destinado a essas criaturas: a bravura e a coragem nata de quem nasceu pra ser artista. 

Em determinado momento, todas as divinas divas se encontram num ponto em comum, em como ser travesti, naquele momento, explodia no teatro e em como o teatro dava sentido ao ser travesti. Foi uma compreensão única e que se incorporou a compreensão de cada uma delas a respeito de si mesmas. É um mistério revelado. Ao mesmo tempo, há de se chover no molhado para dizer que, se os tempos hoje ainda são difíceis, tanto mais numa medida cavalar eram no encontro das divinas e, embora se vivesse uma efervescência, os obstáculos que enfrentaram, não se comparam com os de hoje. Fatos como a ditadura e a censura ainda permanecem como um preço pago com o sangue. Justamente, se hoje conseguimos dar a cara a tapa, é porque, antes, elas se arriscaram. Também é preciso mencionar que, se hoje buscamos uma compreensão de gênero, outro talento deste documentário, é mostrar essa mesma compreensão das divinas, em como elas se identificavam e em como algumas delas chegaram, por exemplo, na orientação de sua imagem, concluindo necessidades de colocar peito ou não, de permanecer com o pênis ou não, ou mesmo de assumir uma identidade feminina permanente ou não. 

O olhar de Leandra Leal é um raro olhar íntimo, desses que se consegue esculpir na inteligência de quem assiste. É feito com um esmero tão grande, que não há como não dizer que, infelizmente, ninguém ainda havia se interessado em ovacionar nossas artistas travestis. Mesmo Leandra concluiu seu trabalho de anos com muita dificuldade. É bem verdade que já tivemos trabalhos memoráveis sobre outros artistas, como o documentário "Dzi Croquettes" ou "Olho Nu", mas sobre as divinas divas não. Donas da melhor expressão de "divas" e lidas com uma importância acima de nossa compreensão (por isso apontam para o título de "divinas"), elas representam uma consciência capaz de destruir os elos que a sociedade ainda mantém com a ignorância, com o preconceito e com a hipocrisia. Há aqui uma forma particular de adentrar na intimidade de cada uma delas e assimilar suas dores e suas tristezas. Ao final, a divina diva Marquesa é quem te ganha sem esforços. E, nesse sentido, este documentário é memorável. É histórico.

" DIVINAS DIVAS " - Divinas Divas - Dir. por Leandra Leal - Brasil - 2017 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes através da Sessão Vitrine Petrobrás #52FilmsByWomen 




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domingo, 18 de junho de 2017

Crítica: Paris Pode Esperar

Diane Lane. Divulgação: Califórnia Filmes.

"81 anos de Eleanor Coppola, estreando na direção de ficção e qual é o resultado? Uma deliciosa experiência rejuvenescedora impossível de ser assistida sem um sorriso no rosto!"


A experiência de um encontro inesperado, a experiência de, literalmente, degustar um momento, como se degusta um bom prato da culinária francesa e... a experiência de se descobrir? Mais ou menos, mais ou menos. A cineasta Eleanor Coppola afirma, em entrevistas, que queria levar para as telas a lembrança de que a vida está acontecendo em seus momentos. Neste mundo dos celulares temos nos esquecido disto. Ao contrário dos clichês, da maioria dos interesses já obtidos nestas tramas, onde mulheres de meia idade de repente atravessam por uma "violenta" auto-descoberta, a cineasta diz que aqui não. Na verdade, seu esforço foi em estabelecer um momento anterior a esse, em que a mulher perceba que, em meio a esta fase de transição, em que os filhos saíram de casa, em que seu negócio fechou e que em sua relação você esteja vivendo da rotina, dentre isso tudo, que ela perceba que é ela quem tem de dar o primeiro passo. É interessante quando Eleanor diz, falando dessa mulher que a personagem de seu filme simboliza, que é importante que ela saiba que seu marido não a fará automaticamente feliz ou mesmo um francês que surja a orla da sua vida, tampouco, a fará automaticamente feliz. 

Alec Baldwin, Diane Lane e Arnaud Viard. Divulgação: Califórnia Filmes.
Pois bem, no filme, um diretor de cinema (Alec Baldwin) viaja para Budapeste e deixa a esposa Anne (Diane Lane) em companhia de seu sócio (Arnaud Viard). Ela, que precisava chegar em Paris, acaba sendo conduzida por uma viagem entre Cannes e a capital, mas não uma viagem qualquer. O sujeito, com aquele espírito livre e bem humorado, a leva para restaurantes onde a "entope" com o prazer do que de melhor a culinária francesa produz; a leva também para os prazeres de um bom vinho e, por fim, a leva para lugares turísticos, sob aquele clima único desses lugares da França, que tem o dom de transformar uma hora em uma vida toda. O tempo todo ela quer resistir ao trajeto, mas o cara, com aquele "jeitinho", a ganha, porém, no filme de Eleanor Coppola, não tem nenhum desespero sexual ou tensão desesperadora, pelo contrário, é uma trama espirituosa, gostosa de se assistir, divertida, sutil e com aquele gostinho de embarcar naquela viagem junto com a personagem. Em outras tramas (algumas até que dão muito certo), geralmente neste momento, surgem reflexões, olhares existenciais ou amargurados ou, por vezes, um empoderamento demasiadamente solene e aqui não. A companhia de Anne e a companhia do cara, estão situadas em suas posições experientes, de gente que já casou, já teve filho, é independente e já sabe como a vida funciona. Mesmo em situações de "ciúme", como quando ele encontra a amiga do museu dos irmãos Lumiere, em Lyon (belíssima sequência filmada por Eleanor aproveitando o calor do cinema, ali onde tudo começou), Anne se porta de maneira leve e não como uma proprietária da vida de alguém. E dessa forma, durante a viagem, neste road-movie, eles menos estão interessados em se descobrirem, mas sim em aproveitarem mais a companhia um do outro. Um tiro certeiro de Eleanor Coppola.

Eleanor Coppola. Divulgação: Califórnia Filmes.
A Cineasta deixou claro que, a esta altura, com 81 anos, esposa de uma lenda do cinema, Francis Ford Coppola, não tem nada a perder e que, lançar um filme, não é nenhum desabrochar de sua parte como diretora. Parcialmente verídica, a trama caminhava com ela já há algum tempo quando, durante uma das estadias de Francis em Cannes, ela acabou ficando sozinha e viveu uma saborosa experiência como a da personagem de Diane Lane. Grande documentarista, também não quis pesar a mão e conseguiu com simplicidade arrancar um sorriso do rosto do espectador durante "Paris Pode Esperar". Claro que o entendimento da extraordinária Diane Lane sobre sua personagem, faz diferença e é perceptível na pratica daquele olhar sóbrio e nas respostas que a vida pede a personagem. Lá pelas tantas, é claro que ela terá descoberto algo de si mesma, porém, é algo dela e não nosso. Arnaud Viard, o sócio, que pouco vemos por aqui, é outro talento e leva o personagem com facilidade. Pra terminar, vale dizer que quando questionada se seu trabalho poderia ajudar a dar vozes a mais cineasta mulheres, ela responde que, tendo uma resposta certa ou não, uma das grandes qualidades de seu filme, foi ter uma equipe de mulheres, designer, figurinista, compositora e na maioria da produção. Vida longa a Eleanor Coppola.

(Fonte da entrevista: http://www.vogue.com/article/eleanor-coppola-paris-can-wait-film-diane-lane)

" PARIS PODE ESPERAR" - Paris Can Wait - Dir. por Eleanor Coppola - 2016 - Distribuidora no Brasil: Califórnia Filmes #52FilmsByWomen




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Crítica: Stefan Zweig, Adeus Europa


"É um deleite e um fascínio a direção da atriz e cineasta Maria Schrader, sobre o exílio de Stefan Zweig. Com louvor, foi a indicação da Áustria pela vaga ao Oscar\2017."


A atriz e cineasta Maria Schrader com o ator Josef Hader
4 capítulos, 1 prólogo e 1 epílogo. A construção desse filme muitíssimo bem feito, resultado de estudo apurado de Maria Schrader, estudo que contou com a obra "Morte no Paraíso - A Tragédia de Stefan Zweig", do jornalista brasileiro Alberto Dines, demonstra o fascínio que a atriz e cineasta quis preservar em sua realização. Ainda assim, conservou também certa mansidão e estendeu a cama da amargura que levaria Stefan a morte. De origem judaica, ele era um escritor completo, o mais lido desde Thomas Man, a época, mas quando a guerra eclodiu e Hitler se espalhava pela Europa ocidental, foi exilado. Seus destinos foram Brasil, Argentina e Estados Unidos, ou mais precisamente, Rio, Buenos Aires, Nova York, Salvador e, por fim, Petrópolis. Com o Brasil foi um encantamento, disse que o que acontecia aqui, a mistura de raças e a maneira como os estrangeiros eram acolhidos, não se via em nenhum lugar do mundo. Escreveu sobre o Brasil e cunhou a tal definição de "país do futuro". Se sentiu tão acolhido que morreu aqui. No filme de Maria Shrader, os últimos anos de vida do escritor são retratados com uma sensação de admiração que se deve, tanto por sua direção, quanto pela atuação maravilhosa de Josef Hader (visto recentemente na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no filme "Vida Eterna"), que nos dá uma leitura de expressão riquíssima, seja de benevolência pelo país que lhe recebe, com total interesse pelo lugar em que está, quanto também uma de amargura por ter de viver fora de sua pátria (e vale aqui dizer da elegância que Stefan conservava , mesmo suportando sua amargura, quando, por exemplo, durante o congresso de poetas, ensaístas e romancistas, não se rende ao ódio e jamais insurge contra a Alemanha ou a Áustria). Nesse sentido, há um tratamento atual na realização da cineasta, que foi tomada de admiração, como relata em entrevistas, por ter se decidido a fazer o filme em 2011, quando a situação dos imigrantes pela Europa ainda não tinha se tornado razão de vergonha para o mundo, o que viria a acontecer 5 anos mais tarde. Isso fica ainda mais notório nos momentos em que Stefan fala de como o Brasil é acolhedor. 


Barbara Sukowa
Há também cenas e sequências memoráveis imaginadas por Maria Schrader, a maior de todas elas quando, no apartamento de Nova York, Stefan e a ex-mulher Friderike Von Winsternitz, brilhantemente interpretada pela extraordinária Barbara Sukowa (vista recentemente em "O Mundo Fora de Lugar", da cineasta Margarethe Von Trotta), conversam sobre suas vidas e a guerra, ambos demonstrando compreensão um do outro e maturidade o suficiente para permanecer um na vida do outro. Na mesma sequência arrebatadora, Friderike recebe Lotte, a mulher de Stefan, ambas se cumprimentando como Sra. e Sra. Zweig. É memorável. Fica também um parecer sobre a última sequência, a morte de Stefan, filmada por Maria com uma sensibilidade cinematográfica, extremamente sedutora, em que as reações a morte de Stefan são expostas através de um espelho, enquanto o corpo está sobre a cama. O resultado deste filme é extraordinário e a decisão da Áustria em indicar este filme para concorrer à vaga ao Oscar\2017 como melhor filme estrangeiro, foi uma coroação ao trabalho da cineasta que antes já havia dirigido um filme e que certamente continuará trilhando um caminho de reconhecimento no cinema.

Serviço

Disponível: NOW (R$11,90) / VIVO PLAY (R$ 9,90) / Google Play (Compra R$ 29,90 Aluguel R$9,90) / iTunes (Compra US$6.99  Aluguel US$2.99)


" STEFAN ZWEIG - ADEUS EUROPA" - Vor der Morgenröte - Dir. por Maria Schrader - Áustria - 2016 - Distribuidora no Brasil: Esfera Filmes #52FilmsByWomen




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sábado, 17 de junho de 2017

Crítica: A Vida Após A vida


"No interior rural da China, o espírito de uma mãe encarna no filho para salvar uma árvore. Só isso? Não e diz muito mais!"

O cinema chinês de Zhang Hanyi 

Delicadeza, sutileza, apuro, aliados ao espírito do cinema tailandês de Apichatpong Weerasethakul e, numa medida ainda maior, ao espírito do cinema de Jia Zhang-Ke, quem também produz esse filme de estreia deste cineasta de 30 anos. Quero agradecer a assessoria de imprensa da Zeta Filmes, que me enviou o filme, que está em cartaz, para que eu possa divulgar e comentar com todas as cinéfilas e cinéfilos através dos canais Mais Cinema.


Com a produção de Jia Zhang-ke, o cinema de estreia de Zhang Hanyi, surge enigmático, poético, belo e dialogando com o cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul. Esse é o único filme em que você verá o espírito de uma mãe encarnar no filho adolescente, uma árvore e uma pedra imensa serem removidas artesanalmente, uma cabra sendo morta pelo esganamento e uma jornada de intensa transformação e intensa transcendência. Contudo, a forma como agrega ao humano, sem exaltar a impotência da criatura, remete ao cinema divisor de águas do tailandês que dilatou todos esses aspectos no impressionante "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas". Etéreo, onírico, é de uma beleza e de um encantamento o cinema de Zhia, desses que, de tempos em tempos, o cinema realmente necessita. Há sutileza nos planos levemente demorados, que se deslocam do início do filme, por entre labirintos de árvores secas, até seu clímax, quando, enfim, a árvore por quem a esposa sempre quis retornar, é removida. Aqui se fala de passado, de raiz, de cultura, de uma China que vai cedendo a indústria, que vai sendo remanejada para edifícios, para que grandes empresas tomem conta dos lugares. Essa forma de sentir o efeito colateral do concreto, é também uma das riquezas do cinema de Zhang-Ke. Em Zhia, recorrer ao especto sobrenatural dos fatos, traz a tensão quase velada à trama, mas o tratamento e a economia do roteiro entre suas vias é um primor. Símbolos são usados, como a própria árvore e animais como o rato, que partem da cultura oriental e se transmitem por imagem ao espectador. É uma maravilha a sequência em que o espírito da mãe leva o marido para encontrar os pais que teriam reencarnado em outra família, mas sob animais, em um cachorro e um pássaro. Da mesma forma, é igualmente poética a imagem de uma pedra imensa, removida como que artesanalmente por vários homens e, ao final, as imagens são extasiantes. Em determinado momento se diz que ali naquele local ninguém morre mais, pois todos foram remanejados, apontando para um deslocamento da pessoa humana do seu lugar. O resultado deste cinema, tanto plástico, quanto cinematográfico, é belíssimo e nos inquieta pelos próximos trabalhos de seu jovem cineasta, de apenas 30 anos.

" A VIDA APÓS A VIDA " - Zhi Fan Ye Mao - Dir por Zhang Hanyi - China - 2016 - Distribuidora no Brasil: Zeta Filmes




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Crítica: Animal Político


"Essa vaca entra numa crise lascada, dessas que, de certa forma, nos faria até bem viver em algum momento. Ora fazendo sentido, ora não, esse filme tem um grande talento."



Seria uma oportunidade única e histórica se Aristóteles assistisse "Animal Político" e conferisse o resultado do trabalho do cineasta Tião, que reflete uma contração aos conceitos do filósofo para a ideia. Porém, isso só seria possível numa mesa branca e olhe lá! No entanto, o filme de Tião constrói um feito tão curioso, quanto se testemunhássemos Aristóteles baixando numa mesa branca e, da mesma forma que isso faz muito sentido para uns e 0 de sentido para outros, pode ser que assim também seja o filme de Tião. Funciona assim: uma vaca (que encarna eu e você, mas que, em alguns momentos, encarna toda a humanidade) se cansa de sua "boa vida". A vaca faz academia, faz ioga, fuma no vestiário com as amigas, assiste Tv com a família, mas passa por uma crise existencial lascada. Resolve adquirir todo o conhecimento possível, vai para o deserto, encontra com gorilas, encontra com um robô, que responde mecanicamente todas as perguntas da existência e se encontra parte integrante de um sistema que nos retorna sempre a um mesmo lugar. Lá pelas tantas aparece a caucasiana, sozinha e com a companhia das normas da ABNT. É uma crítica? É. É engraçado em muitos momentos? É, afinal Cerveja, o nome real da vaca, está em lugares e situações que você nunca imagina ser vivenciado por um animal. Ainda mais um animal que representa eu e você. Do ponto de vista da narrativa cinematográfica, que sempre volta a ideia, por vezes "Animal Político" parece pairar sobre uma mesa branca, uma vez que ao espectador reserva-se a esfera da vaca e a percepção da linguagem narrativa que lhe comunique o quanto de nós é vaca, quanto um objeto estranho nos sacode, o quanto de nós é Aristóteles, o quanto de nós já não basta, o quanto de nós é sistema, enfim, não deixa de ser uma ideia curiosa, inventiva, não tão original e engraçada. Porém, se ela realiza seu maior fim, se realiza para uns e não para outros, é de se deixar a compreensão de cada um. Nas palavras do próprio Tião: "Pensar no que é a vaca passa por uma questão social clara e básica. Como a gente é uma coisa só, uma só espécie e, ao mesmo tempo, pode ser tão separado? Queria falar de uma entidade humana, torná-la a mais ambígua que eu conseguisse", explicou o diretor, durante participação no Festival de Tiradentes em 2016.

" ANIMAL POLÍTICO " - Dir. por Tião - Brasil - 2016 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes através de Sessão Vitrine Petrobrás




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domingo, 11 de junho de 2017

Primeiras Impressões: Megan Leavey

" MEGAN LEAVEY " é elogiadíssimo e recebe notas altas




Olha que curioso gente: esse filme é a estreia na direção de longa de ficção da cineasta Gabriela Cowperthwaite, que arrebentou no documentário "BLACKFISH - FÚRIA ANIMAL" e que agora realiza essa trama real sobre uma agente da marinha americana, que treina cães para detectar bombas e que, levada ao Iraque, constrói amizade com um cão chamado Rex. A questão é que, em determinado momento, ela que adotaria o cão, descobre que ele sofrerá eutanásia e lutará por ele. É, no mínimo curioso, que a cineasta do assombroso "Blackfish", ela que tem propriedade sobre o assunto, traga mais uma história em torno de um animal, e sua treinadora, ambos experienciando um impasse. E, pelo que vem sendo dito, não é mais um filme de amizade entre alguém e um cachorro, é muito mais que isso. Definitivamente, Gabriela sabe o que está fazendo.

Recepções: o filme estreou nos EUA e vem sendo elogiadíssimo, tanto da direção de Gabriela, quanto na atuação de Kate Mara. No site "Rotten Tomatoes" o filme já passou dos 80% de aprovação e os críticos dos principais veículos que comentam cinema vem dando quase 5 estrelas para o filme. Separei, na imagem, 2 comentários que destacam os talentos deste filme e o que ele está trazendo de original. (Ainda sem previsão para o Brasil)




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sábado, 10 de junho de 2017

Crítica: A Jovem Rainha


"Cineasta finlandês desenha icônica rainha Cristina da Suécia sob traços que considera mais marcantes. , mas não escapa de um aspecto mecânico. Ainda assim, se sobressai no resultado final."

Greta Garbo foi Cristina em 1933, Liv Ullmann foi Cristina em 1974 e agora a sueca Malin Buska é Cristina da Suécia. E, sem dúvida, é ela o ponto alto deste filme do finlandês Mika Kaurismaki, irmão do aclamado cineasta Aki Kaurismaki. Filha única de Gustavo II, Cristina é levada ao trono ainda criança, após a morte do pai, durante a guerra dos 30 anos. Criada como homem, quando realmente se encontra como rainha, assume suas posições: prega a paz entre protestantes e católicos, é moderna e intelectual, é obcecada por René Descartes e se apaixona pela Ebba Sparre. Resumindo: toda essa autenticidade, com essa personalidade, de uma criatura a frente do seu tempo, mais cedo ou mais tarde, seria podada em plenos 1600. Pressionada pela moral, pela tradição e por toda a orda de homens ao seu redor, Cristina resolveu que a melhor saída para si seria abdicar e se converter ao catolicismo. E assim o fez, abrindo caminho para o primo Carlos Gustavo.

Visualmente, de fato, o filme de Mika é lindo e, em suas cores e figurinos, tem um tratamento aveludado muito intrigante. A atuação de Malin enche a tela, ela tem rostos, olhos e uma força para crescer em cena, bastante atraente. Há uma forma como a rainha conhece a si mesma e orienta sua libido e sexualidade, pela aproximação com Ebba, onde transparece uma certa natureza crua e latente. São os maiores talentos deste filme. No entanto, a percepção da narrativa que parece saltar de um conflito para o outro, as vezes passa uma impressão mecânica de como a história é contada. Não creio que ela comprometa o resultado final, que é até bem eloquente em fixar os caminhos que desenham a figura desta rainha. 


Em "A Jovem Rainha" vê-se um retrato de uma mulher que tentou ser ela mesma o tempo todo e que, na maior parte do tempo, conseguiu. Quando não conseguiu, não se submeteu e, tomando suas rédeas, partiu em mudança drástica. E fez história. Bom ressaltar a presença, no elenco, de Sarah Gadon (Ebba), que recentemente foi vista no belíssimo "Indignação"; também de Michael Nyqvist (Chancellor Axel Oxenstierna), da espantosa e indispensável trilogia sueca "Millenium"; e da extraordinária Martina Gedeck (Maria Eleonora), uma das maiores atrizes dos nossos tempos.

Serviço  
Disponível em:
NOW (R$11,90) / VIVO PLAY (R$ 9,90) / Google Play (Compra R$ 29,90 Aluguel R$9,90) / iTunes (Compra US$6.99  Aluguel US$2.99) 

" A JOVEM RAINHA " - The Girl King - Dir. por Mika Kaurismki - Suécia\Finlândia - 2015 - Distribuidora no Brasil: Mares Filmes




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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Crítica: A Múmia


"Acredite, o cineasta Alex Kurtzman tinha um norte, até bastante promissor, mas a impressão é que, mesmo com um norte, ao destino que se chegou, não foi o bastante."

Então, funciona assim: a Universal quer uma franquia (a onda do momento é franquia, então ela não pode ficar de fora), quer reviver seus monstros clássicos, quer criar o "Dark Universe", quer costurar um universo compartilhado desses filmes e chamou esse cineasta, Alex Kurtzman, para fazer parte. A Universal quer, quer, quer..., mas, o que temos em "A Múmia", é mais um representante da máxima "desligue o cérebro". Não que isso seja um defeito, não é, mas vamos lá, que uma única coisa eu não gostei aqui e a outra achei interessante. Antes, saiba: é ágil e você não vê a hora passar. Ufa, isso já é ótimo! Depois, tem Tom Cruise, que continua superando seus músculos e seu fôlego, recusa dublês, sobe as altitudes mais assustadores e encara, como em "A Múmia", filmar cenas em gravidade 0, ou seja, legal (ponto). Revive a múmia, interpretada pela beleza de Sofia Boutella, que tem suas contas a acertar e seu plano a engendrar; já o Dr. Henry Jekyll, feito com um certo "quero te convencer" por Russel Crowe, mantém sua empresa a espreita da caça de monstros; pra terminar, a arqueóloga de Annabelle Wallis, ajuda nas explicações mitológicas e surge como a coadjuvante da reviravolta, mas que pouca revira. É isso e, se estiver bom pra você, o filme vai fazer sentido. E o que eu não gostei? Da sensação de que se assiste algo encomendado e que, quem mais se diverte, é o diretor e o povo dos bastidores. Alex Kurtzman disse, em entrevistas, que o objetivo era fazer um filme com suspense, horror, aventura e que, em última instância, desse uns sustos. Pois é, percebi mesmo um balaio, que ele e os envolvidos, devem ter amado. O que achei interessante (e que também é triste)? Que o invencionismo dessa trama tenha levado a ação para Londres, num momento em que realmente as tensões por lá estão inflamadas, por conta dos últimos atentados. O cinema, vez ou outra, tem essas singularidades de "caber" ao momento.

Honestamente, este filme não é de se jogar fora. Mesmo tendo a sorte de se interessar por todos os gêneros do cinema (e mesmo preferindo intimamente o cinema autoral), parto do princípio que, muitas vezes o contexto nos deveria dobrar no nosso íntimo e nos atrair as realizações. Em "A Múmia", por exemplo, temos um cineasta, Alex Kurtzman, que já havia dirigido "Bem Vindo À Vida" (que ainda não assisti, mas vou) e que ajudou a escrever filmes como "O Espetacular Home-Aranha 2" e "Além Da Escuridão: Star Trek"; temos, ainda, a contribuição de nomes como (o vencedor do Oscar de melhor roteiro original por "Os Suspeitos", em 1996) Christopher McQuarrie, que tem trabalhado com Tom Cruise em projetos como "No Limite do Amanhã" e nos últimos filmes de "Missão Impossível"; e, por fim, temos, a contribuição de David Koepp, veterano colaborador de Steven Spielberg, de realizações como o "Parque dos Dinossauros", de 1993, "Guerra dos Mundos", e o "Indiana Jones", de 2008. Tem mais gente, mas só esses nomes já estão de bom tamanho. Além disso, Kurtzman tem noção do que está fazendo, quando, por exemplo, oferece ao espectador um roteiro paralelo e que ousa surpreender, quando a trama de abertura e a pós-trama desenvolvida, se encontram. Já que o assunto também é a nova empreitada da Universal, vale dizer que, em entrevistas, ele citou a "Múmia" de Boris Karloff e mencionou que "Em  A Noiva De Frankenstein" ela, a noiva, aparece pouquíssimo e, no entanto, é impossível se esquecer de seu cabelo e de sua roupa, e que há nesses filmes antológicos um ingrediente único, que os faz durar por tanto tempo. Essa consciência faz tão parte da escola do cineasta, que quis se manter próximo desse "ingrediente". Em "A Múmia", o personagem de Russel Crowe atende por Dr. Henry Jekyll, uma referência com ares de mambembe para "O Médico e o Monstro", clássico de horror escrito por Robert Louis Stevenson. Pois bem, ditos esses elementos, nos perguntamos se isso tudo está em "A Múmia" e, claro, estão em pequenas doses, mas não são o bastante para projetá-lo as alturas. É aquela velha história, não adianta, a Universal dá uma tarefa a esses cineastas, quando encomendam essas reinvenções desses personagens e histórias clássicas. Os cineastas são acometidos de várias ideias e depois precisam apará-las e enxugá-las, como é o que acontece aqui, e o resultado é regular, nem tão bom, nem tão ruim. É desligar o cérebro e tentar se divertir. Ou imaginar que se está se divertindo tanto quanto o próprio cineasta deve estar.

" A MÚMIA " - The Mummy - Dir. por Alex Kurtzman - Estados Unidos - 2017 - Filme visto na rede Multiplex cinemas, unidade Itatiba, em parceria com o Mais Cinema




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sábado, 3 de junho de 2017

Crítica: Muito Romântico


"Pois bem, que viva a liberdade artística e que viva quem se deixar seduzir por ela!"

A história é a seguinte: um casal de artistas brasileiros que cruza o oceano atlântico para tentar a vida em Berlim. Há um segredo revelado, há uma mudança nos rumos e há o encontro com um portal para o cosmos. Quanto a sinopse, é isso, mas, neste filme dirigido, roteirizado, produzido e atuado pela cineasta Melissa Dullius e pelo cineasta Gustavo Jahn (o protagonista da 1ª obra-prima de Kleber Mendonça Filho, "O Som Ao Redor"), não é a sinopse que conta e sim a construção e toda a montagem de "MUITO ROMÂNTICO". Não é nada convencional e, como bem apresentado pela divulgação à imprensa, o filme conta "com referências ao cinema vanguardista de Jean-Luc Godard e Julio Bressane, usa recursos simples e originais para revelar memórias, experiências, desejos e fantasias, combinando música, pintura, literatura, fotografia e experimentos cinematográficos em 16mm para construir uma visualidade altamente impactante. É com a utilização desses aparatos que a produção propõe ao espectador muito mais do que uma história contada nas telonas, é uma experiência estética de um representante do cinema de invenção". Então, é isso. É um cinema de invenção, é um cinema de experimentalidade, ao mesmo tempo de provocação, mas o que mais admiro em obras de tal âmbito artístico, é o clamor de que o espectador escape da sua estagnação e se envolva com o que se assiste, assumindo uma postura de interferência. Particularmente, gosto da postura intelectual investida, mas nesse caso não percebo que o fascínio da liberdade criativa aqui se estabeleça imponente, infelizmente, o que, frequentemente, é o deleite dessas realizações. Coloco abaixo as ideias e pontos por parte dos cineastas, enviados a imprensa e que ajudam a conceber mais o conceito da obra:


"Muito bem recebido pela crítica no Festival de Berlim em 2016, onde teve sua estreia mundial, o filme também aguça o interesse do público no exterior, que se identifica com tema da imigração e na forma como ela é tratada no longa: de maneira pessoal, emocional e subjetiva. O filme foi rodado ao longo de nove anos, começando com a viagem de navio até a capital alemã. “Levamos quase 1⁄4 das nossas vidas para completar o filme. Uma jornada do Brasil até Alemanha que nunca vai acabar e que continua a afetar nossas vidas e nosso trabalho. Finalmente, encontramos resposta para a pergunta infinitamente repetida: ‘Por que vieram para Berlim?’. ‘Para fazer um filme’”, declaram Melissa e Gustavo.

A história é dividida em três atos: a travessia é o momento de contemplacão, em Berlim vemos a cidade através de imagens que a própria dupla produz, pontuadas por comentários deles e de seus amigos. Mas é principalmente na intimidade do quarto do casal que vida e cinema tornam-se uma mesma coisa. “Uma dupla de imigrantes num país estrangeiro, começando de novo, tendo apenas um ao outro. Dividindo descobertas e medos, a alegria e as incertezas que fazem parte do processo de crescer juntos - como artistas. Microcosmos expandindo-se no grande cosmos”, explicam os diretores.

Depois da travessia de barco, a trama do longa se desenvolve a partir da chegada a Berlim e à nova casa, lugar transformado no centro do próprio universo do casal. “De certa maneira, é o trabalho nos nossos filmes que dirige as nossas vidas, é o que nós colocamos à frente de todo o resto, ainda que recentemente tenhamos chegado ao ponto no qual, pelo menos às vezes, é importante inverter a ordem, colocando a vida antes do cinema. No fim, é como um diálogo: o cinema fala A e a vida responde B e assim em diante até que não se sabe mais de onde veio o impulso. Esse é o tipo de vida e processo de trabalho que nós imaginamos juntos e é também simplesmente o nosso jeito de fazer as coisas”, completam Melissa e Gustavo.

“​MUITO ROMÂNTICO” é uma corrente que conduz coracões e mentes. Uma reorganização lúdica de experiencias, memórias e fantasias numa viagem que transcende o tempo e o espaço."

" MUITO ROMÂNTICO " - Muito Romântico - Dir. por Melissa Dullius e Gustavo Jahn - Brasil - 2017 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes e Sessão Vitrine Petrobrás



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sexta-feira, 2 de junho de 2017

Crítica: Z - A Cidade Perdida


"Esse filme pertence ao fascínio da era em que alguns exploradores acreditavam na riqueza dos nossos ancestrais e assim abriram caminho para a história. O interesse não era fajuto, era genuíno."

O cineasta James Gray conta, neste filme, com que encanto o explorador Percy Fawcett foi tomado, quando percebeu que na Amazônia existiam outros intactos povos em 1900, fato que a maioria na época não acreditava, duvidava ou olhava com aquela velha preguiça mental (como a mesma da "terra plana" e não redonda). Ao reconstituir e intuir a jornada de Fawcett, James Gray realiza um efeito notável, ele toma vários espíritos para o filme, ora com um sabor aventureiro, ora com um tratamento um tanto lírico e por vezes místico, porém nunca abandonando a força dramática do próprio personagem. Não é um filme econômico, pontuando os elementos da concepção da jornada de Fawcett, mostrando sua relação com a mulher (Sienna Miller, um talento e uma beleza irreparável), a atuação durante a guerra, a complexidade da ausência entre os filhos, quando das expedições, e ainda, numa das cenas mais notáveis (onde pude enxergar ecos de "O Lobo de Wall Street", das memoráveis cenas do inflamado Leonardo DiCaprio falando com bravura), a exposição de Fawcett à Sociedade Geográfica Real, falando sobre os povos perdidos da Amazônia. A Fotografia deste filme é belíssima e alimenta nossa digestão em se tratando da atmosfera produzida por James Gray. É uma beleza guarnecida e, principalmente nas sequências dentro da floresta, há uma incrível sensação de que se está num santuário (aliás, essa sensação, em outra notável sequência de um ritual, se tornará palpável). 

O galã do momento é Charlie Hunnam, aqui Percy Fawcett, mas, graças as deusas e deuses do cinema, ele não é só um rostinho bonito, ele é talentoso e, em "Z - A CIDADE PERDIDA", encorpa seu personagem para além de músculos. Curiosamente, Tom Holland, o novo Homem-Aranha, interpreta Jack Fawcett, o filho de Percy e quando surge contracenando com Charlie, a troca entre os dois é algo que desperta uma admiração. Não bastasse o fato do encontro entre os dois novos focos dos holofotes, ambos ainda dão um banho de interpretação, na memorável e complexa sequência onde pai e filho estão no meio de índios. Porém, James Gray resolveu que, se era para arrasar, iria fazer como manda o figurino. Além de contar com a (dispensa palavras) Sienna Miller, trouxe Robert Pattinson, cabendo com desenvoltura dentro da caracterização de Henry Costin, o auxiliar de Fawcett nas expedições e, olha, que alegria testemunhar com que propriedade o ator interpreta (aliás, prestar atenção na composição do seu personagem, traz a sensação de que exercício curioso vemos em tela, um ator antes tão subestimado e que se põe a se impor; é bárbaro). O resultado deste filme, como outras realizações do cineasta, é notável, mas esta ainda mais, acredite, por conta do zelo e da ambição com que foi gestado. Durante o ano tento compor duas listas de filmes, uma com os dez melhores filmes do ano e outra com os dez filmes mais notáveis. Este filme já está entre os notáveis.

" Z - A CIDADE PERDIDA " - The Lost City Of Z - Dir. por James Gray - Estados Unidos - 2016 - Distribuidora no Brasil: Imagem Filmes - Filme visto com o patrocínio da CVC, unidade de Itatiba\SP




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Mulher-Maravilha


"Que revolução! Um filme extraordinário, que transcende as discussões de gênero, que orienta as mesmas discussões e que funciona, em tudo, do começo ao fim!"

Não tem exagero, o filme não tem "problemas", tudo está no ponto certo e no lugar. Disse e repito: é tão bom, que teria todo o talento para alcançar a temporada de premiações\2018. As cenas de ação são virtuosas, visualmente belíssimas e feitas sob uma medida exemplar. Gal Gadot é extraordinária e, quando está em cena, promove uma satisfação, promove um deleite, que ocasiona um impacto magnânimo; tem talento, tem carisma, tem elã e tem uma apreensão e sua personagem é um encontro, como há tempos não se vê no cinema, entre um fascínio pela criatura, uma curiosidade pela mesma e um descontrole, o mais instintivo possível, da defesa pela vida. E Gal Gadot concretiza essa personagem da forma mais cristalina. Quando sua personagem encontra Chris Pine, o que se desenvolve entre os dois não é nada piegas, fora ou dentro de algum prumo ou clichê. Acima de qualquer outra coisa, o interesse crescente de um pelo outro se dá pelo que enxergam nas atitudes, pelo que eles tem dentro de si e não dá nem tempo de surgirem concepções de homem e mulher. Quando discordam, se atraem, mais que se afastam (esqueça a velha "guerra dos sexos"). Quanto a ela, um único interesse: acabar com a guerra que está matando tantas pessoas. E é esse o grande trunfo do filme visionário imaginado pela cineasta Patty Jenkins.

Mencionando a crítica de cinema Isabela Boscov, da revista Veja, esse é o filme do "pós-pós-feminismo" e não é o filme do conflito entre os gêneros ou coisas dessa estirpe. No filme de Patty Jenkins o lugar e o espaço é adquirido com propriedade, com substância, pela evolução, com concretude, sem olhar pra trás, com talento e tanto a cineasta, quanto a personagem, estão alinhavadas nesse interesse. É um marco a direção de Patty Jenkins, um trabalho que só se moveu a fazê-lo, quando estivesse de acordo consigo mesma (e não foi fácil); através desse momento, quando Patty Jenkins realiza esse trabalho, a discussão de gênero em Hollywood, mergulha em outra tonalidade, a tonalidade que afirma que, se ainda não haviam sido, a partir de agora, as barreiras desintegram-se, no melhor dos sentidos em serem superadas, pois o papo passa a ser de pessoa para pessoa, o papo vai ser tratado de pessoa para pessoa e Patty consegue imprimir essa consumação. No filme, tanto Steve Trevor, quanto Diana, se sintonizam o tempo todo (bem como as pessoas ao seu redor a eles), acima de qualquer outra coisa, até que salvem vidas. É como que se, por acaso, houvessem outras questões, as mesmas se superassem, dilatando seus interesses além deles mesmos e os projetando no mundo no seu redor. Não tem submissão, não tem briga, não tem estereótipo, não tempo pra isso, o único tempo gasto é em salvar vidas. Porém, tem entendimento, tem respeito, tem compreensão e tem uma lição a ser dada. E que lição! Diana acha que se acabar com o deus da guerra, acaba com a guerra, mas não é assim, afinal, como explica a própria cineasta "tornar-se um herói não é como a gente pensa, porque não existe um vilão, está em nós e nós temos uma responsabilidade coletiva em se tornar pessoas melhores e somente isso vai salvar o mundo". Portanto, incorporam-se aqui o virtuosismo técnico com a capacidade de transmitir algo que seja urgente, necessário e que nos ajude na orientação ao que almejamos, mas, talvez, não da forma que nos deixe ainda na difusão criada pelas nossas discussões, porém como uma luz apontando para o entendimento. É arrebatadora a sensação de que essa luz e esse entendimento são elementos ofertados a construção de uma sociedade pelas mãos e pela inteligência de mulheres, as quais somam-se Patty Jenkins e Gal Gadot, de quem as mãos já tem renovado Hollywood.

" MULHER-MARAVILHA " - Wonder Woman - Dir. por Patty Jenkins - EUA - 2017 - Distribuidora no Brasil: Warner - Visto na pré-estreia por convite especial da rede de cinemas Multiplex, unidade Itatiba\SP #52FilmsByWomen 


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Não sei o que lamento mais


"A série era ruim", "não tinha roteiro", "o texto era irregular", "viveu a base de putaria", "vivia numa superfície", "era ruim pra c****", enfim, não sei o que lamento mais, se o cancelamento da série ou se a ausência de uma ampla compreensão da "pegada" proposta pelas cineastas transgêneras, Lana e Lily Wachowski e o que representa o que propuseram e a forma como propuseram.

Desde que foi dada a notícia do cancelamento da série, os fãs e o público que acompanhava, se manifestaram lamentando, porém, o que me surpreendeu e o que eu não imaginava, é que eu também presenciaria, a partir disso, manifestações que claramente demonstram o quanto, talvez, muita gente não percebeu a importância e a necessidade dos elementos ofertados a sociedade, através dessa série; demonstram também o quanto não "sacaram" a maneira como a trama se desenvolvia e porque assumia os tons de "dramalhão" e até "desambição" no texto de algumas de suas subtramas; demonstram também, ainda, infelizmente, uma interpretação fechada e próxima do âmbito "primitivo; e, por fim, demonstram a inércia sob o fato de que a série era dirigida por irmãs transgêneras, "só" as mesmas cabeças que emolduraram "MATRIX" na história do cinema. Só por esse último fato eu já me perguntaria: "será mesmo que elas seriam tão vazias?", "será mesmo que elas fariam algo que fosse tão superficial", "será mesmo que tudo tem que ser comparado todavia?"; será mesmo esse caminho para interpretar uma realização que, com simplicidade ímpar, como que "desenhava" transgeneridade, transgenerismo, homossexualidade, preconceito, liberdade sexual, aceitação, liberdade de crenças, diversidade, pluralidade e empatia?!

Lógico, em primeiro lugar a gente respeita, seja opinião, ou o fato também de que, é normal que algo faça sentido para uns e não faça sentido para outros. Nossas impressões e interpretações são orientadas pela nossa bagagem, experiência, visão de mundo e pela sabedoria que vamos acumulando. Sabe por que, pra mim, o texto de Sense8 é ok? Sabe aquela história do "não entendeu? Vou ter que desenhar?"?! Então, toda vez que a série se aproximava de um tom de "dramalhão", era justamente isso que ela fazia, tentava "desenhar" para cabeças que talvez ainda tenham dificuldade de compreender, em pleno século 21, a necessidade de se pôr no lugar do outro e, enfim, visualizar o que é direito/respeito/vida, seja LGBT, de mulheres, de qualquer pluralidade e diversidade e que isso é o que convém à uma sociedade. Então, a partir do grande elemento narrativo da série, quando os sensates tomavam o corpo um do outro, era essa a inflexão básica, era como que se discursassem que "se a gente se colocar no lugar do outro, já é revolucionário, pois antes de julgar, saberemos o que o outro sente e talvez até possamos viver o que ele está vivendo", e não haveria melhor exemplo para trabalhar os elementos que se seguiriam a partir disso.  Então, eu realmente gostaria que todas as cabeças digerissem textos mais "regulares", com maiores pretensões, ambições, ousadias, porém, em bilhões de pessoas no mundo, no nível de rejeição praticado contra a tudo o que é diferente, com gente ainda se suicidando ou sendo morta\espancada, seja o texto ou o tom de Sense8, percebo ter feito todo o sentido do mundo. Aliás, toda a concepção de Sense8 fez sentido e foi bom enquanto durou.

E é uma pena que, século 21 e, infelizmente, a palavra "putaria" está sendo colocada num contexto contrário. E mesmo se fosse "só" uma putaria barata que a série apresentasse, talvez não tivesse nenhum problema, afinal, quantas putarias baratas aceitamos até aqui e tava tudo certo. Particularmente, percebi mesmo uma certa economia na trama da segunda temporada, no entanto, os aspectos ligados a visibilidade, representatividade, respeito e posicionamento LGBT, das mulheres, liberdade de pluralidade e diversidade, questões ligadas a posição frente ao preconceito, continuaram presentes, da mesma forma como brilhantemente foram um espetáculo na primeira temporada e sendo expostos de forma livre de tabus. Não tinha putaria, como vi uma amiga comentar, a segunda temporada teve até bem menos cenas de sexo, do que a primeira, mas tinha liberdade, a mesma que as realizações heterossexuais tiveram por décadas, enfim, humildemente, lamento. Mas, quem sou eu, não é mesmo?! E citando um comentário de outro amigo, que eu gostei, "É só uma pena (quanto ao cancelamento), independente dos fãs, porque é raro um produto de arte comercialmente vendável e bem-sucedido pregar o amor livre e não binário. Pena".