quinta-feira, 25 de maio de 2017

Crítica: Más Notícias Para o Sr. Mars


"Insana e divertida comédia de Mars, um homem que é puxado para um planeta bem diferente do seu. Esta comédia é original!"

Essa é a comédia dos absurdos, é a comédia das improbabilidades, é a comédia das situações improváveis, mas ela não é a típica comédia de tais elementos e por que? Porque é dirigida por Dominik Moll e este cineasta sempre tem um tratamento, digamos, "refrescante", dos gêneros e subgêneros que habita, e o resultado, comumentemente, é sempre acima da média. Essa é uma comédia que respira personalidade entre a destreza cômica dos irmãos Coen e o nível do surrealismo empático de Jean-Pierre Jeunet. O mundo de Philippe Mars funciona muito bem, sem as histerias da vida ou as afetações externas. A rotina cabe a vida de Mars, o profissionalismo lhe acompanha e o equilíbrio entre sua vida, os filhos e a mãe de seus filhos, parece não ter muitas novidades e surpresas.  Seria ele um conformista. É o mundo ao redor de Mars que parece inconformado demasiadamente, as pessoas ao seu redor parecem ser subitamente tomadas pelos seus ideias e, no mínimo olhar mais atraente que Mars lança para o universo, encontra todo mundo meio "crazy". Esta é a única comédia  em que você vai ouvir falar no "coeficiente de Bézout", em que você vai encontrar uma orelha cortada por uma faca voadora, um adolescente vegetariano que vira ativista e troca mensagens eróticas com uma colega, rãs em seu banheiro ou seu casal de pais, velhos e mortos, que aparecem pra você. E Mars será atraído, quase que por atração gravitacional, para todo este planeta, que parece estar bem fora do seu. Parte de todo o talento deste filme se deve a atuação do ator François Damiens, que mantém o personagem em sua plataforma de blindagem até onde pode e que, quando sucumbe, o faz da maneira mais leve possível; aliás, já o vimos em bons filmes como "Entre Os Muros da Prisão" (de Christian Faure), "A Família Bélier" (de Eric Lartigau) e "Os Cowboys" (de Thomas Bidegain). Há também um bom personagem coadjuvante, interpretado pelo excelente ator Vincent Macaigne, um talento que vimos em "Eden" (de Mia Hansen-Love), "Dois Amigos" (de Louis Garrel) e "Agnus Deis" (de Anne Fontaine). O resultado deste filme é divertidíssimo, enxuto e com o mesmo espírito de insanidade do começo ao fim.

" MÁS NOTÍCIAS PARA O SR. MARS " - Des Nouvelles De La Planète Mars - Dir. por Dominik Moll - França - 2016 - Distribuidora no Brasil: Imovision




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Dégradé

FOTOGRAFIA FEITA NA LOJA DO RESERVA CULTURAL
CARTAZ CEDIDO PARA DIVULGAÇÃO


"As mulheres da faixa de Gaza, todas se refletindo e refletindo o mundo lá fora"


O ponto de encontro: um salão de beleza em algum lugar na faixa de gaza. O ponto em comum: 13 mulheres dentro deste salão. O ponto destoante: uma mais diferente (e um tanto mais estereotipada) que a outra. O ponto de união: todas estão sob as tensões de suas vidas e sob as tensões de se viver numa zona de conflito. Estes são os motes deste belo drama palestino, a estreia na direção dos irmãos gêmeos Tarzan e Arab Nasser. O lugar assume cara de oásis, ele como que protege essas mulheres, enquanto elas estiverem ali dentro e, ao mesmo tempo, assume uma cara de lugar onde tudo é permitido ou, algo que gosto bastante, cara de lugar de "baixa tensão" e onde se pode "extravasar". É uma "anestesia" as suas metáforas; enquanto lugar em zona de conflito, se torna, em algum momento, um local de "baixa tensão". A construção deste filme, por si só, já é um grande clichê; essa ideia de reunir todos os personagens dentro de um local e transformá-los em núcleos de reflexão. É certo que neste filme essa construção não é tão surpreendente, mas o exercício, ao meu ver, é sempre um deleite. Não deixa de ser um filme de metáforas, do cerceamento e do controle forçado de Israel sobre os palestinos; também do número de mulheres que me evoca a figura de "novas discípulas"; ao próprio título que atira para 3 lados: a técnica capilar, a degradação da guerra e (pra mim o significado mais bonito) esses vários tons de mulheres presentes dentro deste lugar. Tem noiva, tem grávida, tem religiosa, tem viciada, tem a "mulher da meia idade", mas, na medida em que escapam das suas alusões e caem nos estereótipos, o filme me agrada menos. Me agrada mais quando, por exemplo, essas mulheres pensam no valor de suas vidas e como elas tem vivido sob uma cultura que as cerceia. Num das cenas mais interessantes, uma dessas mulheres pensa em como o país seria se elas estivessem no poder e se põe a dizer que cargos cada uma delas ocupariam no governo. Baseado em fatos reais, com um leão que fora roubado e que se torna uma das tensões ao final, o resultado é um filme que propõe a empatia com a realidade das mulheres expostas, mas pode parecer um pouco superficial. Há muito o que se ouvir, no belíssimo trabalho de som, principalmente na guerra que irrompe a certo ponto e há também a extraordinária Hiam Abbas, que é sempre um motivo de se encher os olhos. E há todas as mulheres, interpretadas com comprometimento, por cada uma de suas atrizes.

" DÉGRADÉ " - Dégradé - Dir. por Tarzan e Arab Nasser - Palestina - 2015 - Distribuidora no Brasil: Imovision



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Crítica: Elon Não Acredita Na Morte


"Com um saboroso sentido de profundidade e intuição, o enigmático "Elon" é eficaz e demonstra o fascínio pelo poder e habilidade da narrativa"

Você sabe quando um filme é bom ou quando ele é, no mínimo competente no que se propõe (e isso já é motivo para vê-lo com bons olhos), quando ele é como "Elon Não Acredita Na Morte": quando é cheio de mistérios, mas seus mistérios não são caricatos (clichês) e na medida em que se acumulam, tomam a carapuça de enigmas e com a autenticidade da ausência de quaisquer promessas que serão solucionados; quando a história que está sendo narrada flui como um rio corrente, quase com um aspecto cristalino e permitindo a percepção da originalidade e da liberdade criativa com que está investida; quando você passa todo o tempo da projeção (seja ela longa ou razoavelmente curta, como é o caso aqui) no ponto de vista do personagem (com uma câmera praticamente "grudada" na nuca do sujeito) e o ator "segura a marimba", sustentando a beleza e o entendimento com que construiu seu personagem, e por isso a atuação de Rômulo Braga é um talento singular, como ele mesmo é; e, por fim, você sabe que esse filme é bom, quando ele escapa de você e o que fica é aquela sensação de que o tempo passou e você nem percebeu. Ou seja, é tão eficaz e tão libertário, tão fora das expectativas, que dá gosto deixar-se fluir pelo fascínio. 

Elon é um Orfeu contemporâneo, perdido numa grande metrópole, atormentado, sem saber o que está de fato acontecendo - ou sem poder acreditar no que está acontecendo, aos poucos vai se desintegrando. De alguma maneira, o personagem do Elon  dialoga com o mito grego do Orfeu que desce ao inferno na busca pelo amor perdido e por consequência em busca de si mesmo.”
Ricardo Alves Jr., cineasta

Neste longa de estreia do cineasta Ricardo Alves, Elon está procurando a esposa, ao que parece desaparecida, mas ora com a tensão do desaparecimento, ora com a sensação do escapismo. Estamos em Belo Horizonte e as ruas servem para incrementar a solidão, a fragilidade de quem pode ser pequeno, diante da estrutura (estrutura pra quem?). O bonito da órbita de Elon é ver como os detalhes são escorrem, são incertos, é escutar a todo instante, durante sua busca, por tantos lugares em que ele passa, um "eu não sei de nada", "ela não está", "ela já saiu", "eu não sei pra onde ela foi" ou apenas "eu não sei". É ainda mais surpreendente enxergar essa inexistência, quando a própria esposa surge em cena. Em determinando momento, o espectador se põe a questionar-se a respeito do que pode ser irreal ali, mas não se sente comprometido com essa questão. O que acontece é que o fluxo tão enigmático dos passos de Elon, também se constrói por uma intuição do cineasta em não esquecer de deixar presente aspectos sensoriais, tão intrigantes, como a luz, o espaço e os movimentos, elementos lindamente enquadrados. Chama a atenção sua visão de profundidade e movimento, dando a coreografia do personagem ainda mais riqueza. Elon está sempre descendo escadas, literalmente perambulando pelas ruas, enquadrado entre as janelas, atravessando por portas ou a mercê de portas que se abrem através dele. Nesse sentido, numa cena memorável, Elon é despedido do emprego por justa causa e, pelo menos 3 portas, são abertas por seu chefe em sua direção. Parece um trocadilho com os enigmas que arrastam e atormentam Elon pela procura da esposa. E, como mencionado, o filme tem a personalidade de contrariar quaisquer expectativas e, por isso mesmo, é capaz de chegar a um resultado tão bonito e tão palpável; mais um brilhante contribuinte do cinema feito no país, com lucidez e sinceridade.

" ELON NÃO ACREDITA NA MORTE " - Dir. por Ricardo Alves Jr. - Brasil - 2016 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes, através da Sessão Vitrine Petrobrás 



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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Maio: "LA LA LAND" em Dvd e Bluray

Maio marca 9 meses da existência de "LA LA LAND" entre nós, desde que foi exibido pela 1ª vez em Agosto de 2016, no Festival de Veneza. Maio é também o mês em que "LA LA LAND" é lançado em Dvd|Bluray e pode se tornar propriedade física dos seus admiradores. E Maio é o mês em que seguro o cartaz de "LA LA LAND" (o que é uma honra) para exaltá-lo.
"LA LA LAND" é extraordinário em sua composição e precisaria ser compreendido em seus méritos. O maior deles? Ao meu ver está em realizar, com toda maestria, um desejo que já vem acontecendo há um tempo no cinema: desconstruir toda a previsibilidade, desconstruir os "contos de fada" pelos quais fomos entorpecidos, desconstruir aquele falso otimismo que há no mundo dos sonhos e, literalmente, pôr os pés no chão. Nos últimos anos, um dos filmes mais bem sucedidos, foi "500 DIAS COM ELA", o mais belo filme amargo que poderia ser feito sobre quando a gente percebe que as nossas expectativas apaixonadas acontecem, pura e simplesmente, dentro da gente e que, fora, a realidade talvez seja diferente. É preciso acordar.
"LA LA LAND" é um primo-irmão de "500 DIAS", mas vai além e torna-se um ápice desse desejo."LA LA LAND" é menos um musical do que pareça, contrariando a propaganda e realizando o feito da espécie de crônica com que flerta o cineasta Damien Chazelle, o que já havia me chamado muito a atenção em "Whiplash", quando submetia o personagem de Miles Teller numa grande "pegadinha" através da própria partitura que tentava executar com perfeição e que lhe ocasionava sorrateiros deslizes, o prato cheio para que o memorável personagem de J. K. Simmons "deitasse e rolasse" sobre ele. Na realidade, a própria partitura lhe pregava uma peça (como se fosse ela mesma a grande piada e como se dissesse "você está me levando a sério demais") e era o que dava todo sentido a forma como o professor general agia e atuasse com um sarcasmo irresistível. Muito astuto, Damien Chazelle subvertia a compreensão e, por várias vezes, invertia as diversões. Justamente, em "LA LA LAND", a medida em que vai deixando de ser musical, o filme fica ainda melhor. Na reverência que faz a clássicos do gênero, evocando os espectros de cenas, sequências e montagens memoráveis de todos os tempos, percebe-se o seu lugar (no melhor dos sentidos de saber o seu lugar), em ser destituído da ambição de ser como eles e inevitavelmente desconstruir-se, até que se torne, se fosse pra ser um musical, um musical de numa nota só, um musical de uma música só. É por isso que nos momentos mais significantes, tanto Mia, quanto Sebastian, entoam (ou murmuram) "City of stars", o som que permeia o resultado da realização. As primeiras sequências musicais de "LA LA LAND" são entorpecentes, elas fazem sentido aos sonhos que Mia traz dentro de si, são momentos de êxtase visual, são números barulhentos, até confusos, mas são belíssimos, como a própria entrada do filme e a sequência que culmina com a câmera girando freneticamente dentro da piscina. Já Sebastian é o cara do Jazz, que vive tocando piano sob meia-luz, ele está interessado nos sentimentos envolvidos nos sons, ele tenta transmitir para Mia a paixão que há no Jazz. Mas Sebastian também tem seus sonhos "inalcançáveis". Em determinado momento esses sonhadores se dispersam um do outro, porque também é assim que a vida faz com a gente. E justamente a sequência final é das mais duras e extraordinárias que se poderia colher no cinema e, também por isso, faz história.
Emma Stone e Ryan Gosling personificam seus papéis, foram as melhores escolhas, sem sombra de dúvidas. Ambos, vindo de encontro com o sentido maior da realização, foram competentes ao máximo possível, porque, de fato, Emma Stone não precisaria ter o vozeirão de Jennifer Hudson e nem Ryan Gosling precisaria ser um exímio bailarino como Gene Kelly ou Fred Astaire e, no entanto, dão uma conta invejável do recado, sem tirar, nem pôr. Foram perfeitos para o conceito e ainda bem que foram indicados ao Oscar. Há a estimada declaração de amor a Los Angeles, mas também há o espírito de melancolia (tristeza mesmo), um tributo a todos os sonhadores, que deixaram suas vidas e acreditaram receber um convite da própria L.A., mas naufragaram, tiveram prejuízos e, a maioria deles, causados pela ilusão. O filme não se esquiva as cicatrizes e as durezas em sua trama e, em determinado momento, levanta um certo abatimento. Essa ideia de respeito e celebração aqueles que sonham é consumada pela memorável canção "Audition" e pela igualmente memorável performance de Emma Stone. "LA LA LAND" é um belíssimo filme, tem alegria e tem cores vibrantes, esses elementos também estão em sua construção, no entanto, é também um filme inevitavelmente triste. Ou seja, é tão inspirador, é tão completo e, nos cinemas, foi uma experiência tão grandiosa, que foi difícil desgrudar os olhos. E, provavelmente, assistindo em casa, em Dvd ou bluray, guardadas as devidas proporções, há de viver as mesmas sensações. Nenhum filme deve ser comparado a outro, cada um deve ser compreendido em sua construção e em seus elementos; "LA LA LAND" é assim, com todas as suas propostas no lugar e, por isso, é extraordinário. Como mencionou o cineasta William Friedkin "vejo o futuro do cinema e ele atende por Damien Chazelle".
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Em Cannes: Reações a "Happy End" de Michael Haneke

Imprensa internacional é só elogios para o novo Michale Haneke

Peter Debruge, Variety


"É uma sequência de "Amor"; de fato, se não tivéssemos um título como "Loveless" nesta edição, o título de Heneke seria oportuno; "Happy End" equivale a um mistério complexo, minuciosamente detalhado, no qual cada membro da família Laurent contribui para o senso quase sufocante de mal-estar deste filme".

, The Guardian


(5 estrelas) "A novela satânica de Michael Haneke é uma opera de pura sociopatia; é um pesadelo satírico da prosperidade da alta burguesia europeia; tão austero, brilhante e implacável como uma luz halógena. Não é uma nova direção para esse cineasta, admiti-se, mas é sua mesma direção perseguida e deslumbrante de sempre. É também uma emocionante e satânica inspiração, uma dinastia de almas perdidas". 

Deborah Young, The Hollywwood Reporter


"Depois de ganhar a Palma de Ouro e o  Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira pelo seu amargo e angustiante estudo sobre a velhice, "Amour", Michael Haneke retorna à competição de Cannes cinco anos depois com um drama muito mais suave e que é suscetível a dividir o público. "Happy End" leva o espectador pela mão dentro da casa de uma família rica de monstros...; o estilo de filmagem seca de Haneke e o enquadramento geometricamente equilibrado são, como sempre, um grande prazer de se ver, criando não apenas uma atmosfera inquietante, mas revelando significados ocultos, juntamente com a iluminação nítida de Christian Berger".

, The Playlist


"O maestro austríaco Michael Haneke voltou a fazer o que ele faz de melhor: descascar as camadas decadentes e burguesas da alta classe europeia para descobrir seu núcleo cheio de sofrimento, de mentiras, enganos e miséria; Por mais perturbador que seja, também acontece de ser o filme mais engraçado de Haneke até à data e a relação do aspecto com o smartphone, que faz alguns retornos após as cenas de abertura impressionantes, coloca firmemente o filme no contexto contemporâneo do nosso mundo obcecado pela tecnologia. Como um drama familiar austero e cômico, e um comentário mordaz sobre o tipo de mundo em que nossos filhos estão vivendo, "Happy End" é um cinema deslumbrante".

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CANNES 2017



domingo, 21 de maio de 2017

De "Deus Branco" a "Jupiter's Moon": reações em Cannes a Kornél Mundruczó

O novo filme do querido cineasta húngaro impressiona como seus outros filmes, mas, na compreensão dos profissionais, talvez ele não tenha acertado a mão. 

_Jessica Kiang, da Variety: "O fabuloso "Deus Branco", de Mundruczó, vencedor de "Un Certain Regard", era um filme muito mais simples e satisfatório. Mas as similaridades são impressionantes, você pode simplesmente substituir o cão maltratado e rebelde de "Deus Branco" por um jovem Cristo migratório de Homs. A diferença aqui - o enigma teológico que Mundruczó fixa e nunca resolve - concernem a que o super-poderoso, gentil e injustamente perseguido Aryan está aqui para fazer. Talvez ele tenha vindo para salvar, talvez para nós condenar ou talvez simplesmente para viver o sonho supremo dos refugiados e, finalmente, escapar verdadeiramente, subindo para uma estratosfera, longe da selvageria da humanidade, da venalidade e da corrupção".

_Tim Grierson, da Screendaily: "Infelizmente, "Jupiter's Moon" perde altitude quando Mundruczó e o roteirista Kata Wéber começam a apresentar seus temas. O título do filme é uma metáfora para um sentimento alienado e da mesma forma os cineastas traçam paralelos torturantes entre o cenário e suas largas questões sobre fé, redenção, caridade e conflito cultural. Nesse último ponto, "Jupiter's Moon" pode ser terrivelmente condescendente, tratando Aryan como uma espécie de figura de Cristo dotada de nobres atributos que o resto de nós pagãos poderia aprender. Ele é menos um anjo do que um santo, mas pelo menos o empático e urgente desempenho de Jéger acrescenta um pouco de coragem ao personagem".

_Boyd van Hoeij, do The Hollywood Reporter: "Além da impressionante cinematografia, as principais contribuições técnicas incluem a paisagem sonora imersiva, bem como uma pontuação marcante por Jed Kurzel (Alien: Covenant) que aumenta a tensão mais que o necessário. O trabalho de efeitos também é de um tratamento confiante, com Mundruczó e Rev algumas vezes optando por efeitos bastante simples e minimalistas, como quando uma câmera vista de arranha-céus mostra Aryan como se fosse uma sombra preta flutuando de janela para janela até que, no final da cena, seus pés e sua silhueta encontram o chão. É uma vergonha, então, que esta história oportuna e impressionantemente concebida não é capaz de sempre ganhar a suspensão necessária da descrença para realmente voar"

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CANNES 2017


sábado, 20 de maio de 2017

De Cannes, algumas reações do Bong Joon-Ho, "OKJA"

Dos melhores autores do cinema, Bong Joon-Ho, a incomparável mente criadora da obra-prima (obrigatória) "Memórias De Um Assassino", empolga em Cannes e seu novo filme é comparado a filmes como "ET".
_Peter Debruge, da Variety: "...Se geneticamente modificado ou não, a maioria das pessoas não quer saber de onde sua comida vem, mas Bong Joon-Ho insiste, criando uma sequência que é ainda mais assustadora que qualquer coisa em "O Hospedeiro"..."
_Peter Bradshaw, do The Guardian: (5 estrelas) "Bong Joon-Ho, diretor de "Expresso do Amanhã, apresentou um filme maravilhoso comparável a " ET" ou Roald Dahl, nesta história de uma garota de 13 anos e seu animal de animação desproporcional".
_Stephen Dalton, do The Hollywood Reporter: "...escrito por Bong Joon-Ho e adaptado em inglês pelo autor e roteirista britânico Jon Ronson (de "Frank" e "Os Homens Que Encaravam Cabras"), "Okja" é salpicado com linhas que se perdem na tradução e mudanças desajeitadas no tom. Enquanto o diálogo e os temas são adultos, o humor caricato, maluco, destorcido e caloroso, parecem bons elementos infanto-juvenis. Como um animal pesado e híbrido em seu cerne, esta besta não tem beleza. Mas é tecnicamente impressionante e uma declaração corajosamente original de um crescente autor asiático e que, cada vez mais, tem mais ambições internacionais".
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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Cannes: Todd Haynes. 2015: CAROL. 2017: WONDERSTRUCK.


Depois de "CAROL", e aí?! Cinéfilas e cinéfilos: houveram os que gostaram e os que não gostaram. Eis algumas reações em Cannes sobre "WONDERSTRUCK", de Todd Haynes:

_Owen Gleiberman, da "Variety", diz que "Há uma possibilidade de que esse seja considerado o principal filme de Todd Haynes, não porque seja mais acessível que "Carol", mas por ser um filme sobre crianças e trazer uma aura de inocência incomum para um filme de Todd"; disse ainda que "Todd é um cineasta que transcende, que pode assombrar sua imaginação e ir além", mas que, em "Wonderstruck", "há mais arte em sua narrativa do que há na história intrincada e mecânica que ele está contando".

_Peter Bradshaw, do "The Guardian", fez uma ressalva dizendo que "as sequências dos anos 20 são filmadas em um preto e branco cintilante, uma insistência ligeiramente pedante na era do cinema mudo"; disse também que " "Wonderstruck" implicou uma ligação equivocada entre o cinema mudo e a surdez", o que acha que é "ignorar a experiência vital do acompanhamento musical".

_David Ehrlich, do "Indiewire", gostou muito do filme e disse que "há uma boa chance de que esta possa ter sido uma experiência mais balanceada e visceral, tendo Haynes permanecido nas pistas de Selznick (autor do livro e roteirista do filme), especialmente daquilo que é transmitido da deficiência auditiva das crianças", porém, segundo ele, "o filme não é sobre seus tópicos, mas como eles se entrelaçam e onde".
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quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Outra obra-prima": em Cannes, o novo Andrey Zvyagintsev, é bem recebido


"Em primeira mão: depois da obra-prima " LEVIATÃ ", cineasta russo arranca bons impactos da imprensa em Cannes\2017, com " LOVELESS " e surge a primeira grande atenção da 70ª edição de Cannes.

" LOVELESS ", filme do russo Andrey Zvyagintsev (" LEVIATÃ ") impacta e começa a ser chamado de "outra obra-prima". Separei 3 reações importantes que li:

_Peter Bradshaw, do "The Guardian" (foto), diz que o russo produziu "outra obra-prima", diz que é "uma história de uma Rússia moderna, cujo povo está a mercê de forças implacáveis, como num mundo sem amor (título) e sem meios para sustentar a vida humana". E ressalta uma cena em que a porta do banheiro é jogada de volta, depois de uma discussão e nos revela o rosto de Alyosha (mas a nós e não aos personagens que discutem, os pais do garoto), num silencioso grito de lágrimas, altamente devastador e aponta que a cena tem "das imagens mais genuinamente perturbadoras já concebidas".

_Steve Pond, do "The Wrap", diz que o filme é "um retrato impenetrável de um país emocionalmente, eticamente e fisicamente devastado". Ele ressalta que o filme anterior, "Leviatã", era mais "abertamente político", enquanto "Loveless" "contrasta" com esse elemento, embora ao final "esse mesmo elemento tome mais presença", segundo ele.

_Owen Gleiberman, da "Variety", elogiou o filme, com discrição e disse que o "filme tem um olhar ameaçador e reverberante, não propriamente para a política, mas para a crise de empatia no núcleo da cultura, chamando a atenção para o fato de que na Rússia de Putin, talvez o cineasta não possa se declarar, com todas as cores, sobre a total corrupção do país, mas pode fazer filmes como "Leviatã" e "Loveless" ".

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quarta-feira, 10 de maio de 2017

Filmes Assistidos: "GLÜCK (FELICIDADE) "

"Cineasta alemã retrata duros choques da realidade, dos traumas da guerra, às misérias da sociedade, e demonstra encanto por uma história real desconcertante e que reafirma o quanto impera o amor e a busca pela felicidade."


"HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR" é um feito extraordinário, uma busca cheia de amargura em digerir a vida, tendo como orientação a cultura japonesa. É tão impactante que falar em Doris Dörrie é falar em "Hanami". Porém, igualmente extraordinária, a cineasta alemã ainda tem muito a dizer e a refletir, através do cinema. Neste filme, uma imigrante chamada Irina (nome que me faz lembrar de outro filme duro: "Irina Palm"), sobrevive, a duras penas, a guerra dos balcãs e vai trabalhar como prostituta em Berlim. Lá, movida por uma humildade exemplar, faz amizade com um punk morador de rua e os dois se apaixonam. O que se sucede, no meio do caminho dessa paixão, é um evento chocante e a maneira como ele se desenvolve é quase um disparate, porém o resultado do teor desta trama prega que o amor é a única medida e de que, talvez, devemos ser mais resilientes e nos ater a busca pelo felicidade.

Dessa forma, a cineasta demonstra-se brilhantemente imprevisível, ainda mais socialmente atenta (e aqui vale um parênteses: transcende aqui, o efeito colateral direto na cineasta, a partir da realidade de países que vivem em guerra e a partir da realidade da imigração, através dos países europeus, que o que ofereceram a essas vidas foi nada de perspectiva, de modo que, a prostituição, por exemplo, ao mesmo tempo surgindo como opção de trabalho, surgia também como "esmola", como "migalha", como de quem dizia "fiquem com as nossas ruas") e exibe uma segurança\confiança hipnótica em narrar sua trama. Aqui ele adapta o conto do famoso escritor  Ferdinand von Schirach. Alguns elementos estão em comum com a marca de sua filmografia, celebrada em "Hanami", como o abatimento da tragédia, o encontro improvável e transformador, o personagem que sai de sua pátria e encontra em outro país "o bálsamo", e a construção desses "arquétipos" que, em Doris, são memoráveis. Neste filme há, ainda, o peso da narrativa de uma história real. Diz a cineasta: "Embora seja uma história incrível, é baseada em um evento que aconteceu em Berlim. Sempre me intrigava a pergunta colocada pela história. A que ponto os personagens eram felizes, para levá-los a cometer um ato tão grande, um feito tão incrível por seu amor".

O resultado é admirável. E como não falar, ainda, desse encontro entre a cineasta e a atriz italiana extraordinária Alba Rohrwacher?! Alba tem um carisma e um talento que deixam o espectador tomados pelas personagens que interpreta, é impossível não se sentir intrigado pela maneira como constrói suas personagens e é impossível desgrudar os olhos dela. Igualmente competente é o ator Vinzenz Kiefer, que interpreta Kalle, o punk morador de rua e que recentemente foi visto no último filme de Jason Bourne.

" GLÜCK " - Glück - Dir. por Doris Dörrie - Alemanha - 2012 #52FilmsByWomen
Filmes Dirigidos Por Mulheres

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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Trailer oficial de "Blade Runner 2049"

SAIU: Em primeira mão, eis o trailer oficial de "BLADE RUNNER 2049", que já está entre nós.
Um elenco maravilhoso, o universo e a atmosfera de um dos clássicos da ficção científica no cinema, tudo isso de volta através das mãos de um dos principais cineastas da atualidade: Denis Villeneuve.
Veja o trailer completo aqui e que nosso coração cinéfilo tenha paciência para aguardar por essa, que é uma das grandes estreias do ano. Siga o #MaisCinema pelo instagram em @daniel_serafim_mais_cinema ;)
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terça-feira, 2 de maio de 2017

Crítica: Paterson

"Não precisa fazer barulho: máxima da beleza das pequenas coisas e uma pacífica observação da rotina, transformam "Paterson" numa quieta exclamação de que 'todas as coisas são belas'."


De repente, em "Paterson", surge o "poeta japonês", interpretado pelo ator Masatoshi Nagase, quem provoca uma nova percepção no personagem do ator Adam Driver. Poderia ser de qualquer nacionalidade, mas é japonês. Jim Jarmusch, o cineasta, salientou que nos últimos 20 anos esteve estudando "tai chi" e "qigong", práticas da filosofia de vida chinesa, o que lhe sugeriu uma maneira de encarar o mundo. De fato, é essa uma boa impressão em "Paterson", a impressão de que, o que se está assistindo, é um curioso discípulo (ou primo distante) do cinema oriental, em especial do cinema japonês e, nesse sentido, a presença (e a escolha) de Masatoshi Nagase ganha ainda mais sentido. São uma alma no cinema japonês os elementos presentes no filme de Jarmusch, como a perenidade da vida, a tranquilidade dos movimentos, o olhar pacífico para os eventos da rotina, o respeito e o discreto interesse entre os cônjuges e, por vezes, a incapacidade dos conflitos gerarem barulhos mais afetados. Para o cinema americano, o resultado do cinema de Jim Jarmusch é um milagre. Encontrar esta qualidade de matéria-prima, extraída de uma fluída, rica, contínua e quieta observação da rotina, e ainda articular a substância da recitação de poemas, em tempos de blockbusters, é um feito memorável. Este filme é um dos melhores produzidos em 2016.

Lindo, belo, simples, profundo, esses são adjetivos impossíveis de não se aferir a "Paterson". Um motorista de ônibus, chamado Paterson e que vive na cidade de Paterson, Nova Jersey, que escreve poesias e que tem um caderno secreto de poemas, como os grandes poetas. Ele vive com a esposa Laura (a extraordinária iraniana Golshifteh Farahani, do obrigatório "Procurando Elly") e com o cachorro Marvin. Há neste filme um atributo bem sucedido que raros filmes propõem, um conceito de orientação a paz e tranquilidade, bem ao estilo "zen", que é um deleite. As formas, as roupas de Laura, que se refletem nos desenhos da casa, nas cortinas, nos cupcakes, as paletas de cores amenas, tudo aqui é imaginado a fazer parte e criar uma paisagem indissolúvel, oferecendo uma percepção de que, nessa engrenagem do dia a dia, somos uma inserção dando e fazendo sentido. É linda a noção de que as coisas se refletem, Paterson está nos nomes, nas fachadas e nas conversas; Laura sonha que tiveram dois filhos velhos e gêmeos, e gêmeos estão presentes por toda parte e de todos os jeitos no dia de Paterson. É um simbolismo (as vezes um tanto místico) e uma sugestão de que, talvez, haja uma conexão entre as coisas e que, por conta disso, poderíamos estimular uma atenção especial para com a vida e para com a rotina. E isso, na construção exemplar do personagem de Adam Driver, faz um sentido maravilhoso.

Este filme de Jim Jarmusch tem duas grandes inflexões. A primeira delas diz respeito do interesse do personagem de Driver pela poesia, pela linguagem poética que lhe oferece uma tradução do mundo e uma forma muito única de compreensão, o que a poesia é por si só. Há, na linguagem poética, um exercício de fascínio, escrita, expressão e interpretação. É o vínculo que o personagem tem com o mundo externo e que ajuda na transmissão do sentido em meio a rotina de sua vida. Diga-se de passagem, o último filme extraordinário a utilizar o elemento poético foi o sul-coreano "Poesia", de Lee Chang-Dong. Ao mesmo tempo, Paterson é um artista e, com sutileza, o cineasta mostra como o personagem se identifica com outros poetas, desde uma menina ao japonês, que cruzam o seu caminho. A segunda inflexão deste filme está na órbita da rotina filmada, no mesmo caminho feito todos os dias, no mesmo tratamento diário dado por Paterson a esposa e ao cachorro. Se a gente para e pensa em como boa parte da nossa vida é repetição, o que Freud elucidou em outros campos, a gente se aproxima do encanto e da aflição perpétua: o sentido da vida. Filmar a rotina, exclamar os pequenos gestos (quando Paterson come a torta, bebe copos d'água e disfarça que está uma delícia, evitando frustrar a esposa, é memorável) e surpreender mostrando que, por vezes, também é necessário ter alerta uma percepção de emergência, que vem com a maturidade (outro momento memorável, quando Paterson surpreendentemente quebra sua calmaria e mobiliza um sujeito "armado" no bar), tudo isso demonstra que Jarmusch chama a atenção para a brevidade da vida. 

Jim Jarmusch também se reflete em seu filme, fala de como precisa estar sozinho e de como construiu a relação do seu casal de personagens com espaço, com respeito mútuo de um pelo espaço do outro. Fala em como evita enfatizar relações sexuais,  observando aí um clichê e acreditando que sexo pode ser algo muito maior do que mostrar pessoas transando. Por fim, sua relação com a poesia é antiga, presente em sua filmografia e em sua vida, tendo ele mesmo estudado poesia na Universidade de Columbia. Conta, em entrevistas, que a inspiração para o filme surgiu quando visitou a casa do poeta William Carlos Williams, de Paterson, durante os anos 90, quando foi conhecer a vida do poeta. Um dos seus poemas mais lindos está em "Paterson", "This Is Just To Say". O resultado de tudo isso é um filme onde todas as coisas são belas, desde o mecanismo diário da vida, a um motorista de ônibus que se torna poeta. Isso já é um poema.

" PATERSON " - Paterson - Dir. por Jim Jarmusch - Estados Unidos - 2016 - Distribuidora no Brasil: Fênix Filmes



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segunda-feira, 1 de maio de 2017

De "O Filho de Saul" para "Sunset", de László Nemes: Primeiras Imagens

Depois da obra-prima vencedora do Oscar, o devastador "O Filho de Saul", o cineasta húngaro László Nemes está de volta com um drama pré primeira guerra mundial em Budapeste. 



Foram divulgadas duas cenas dos testes de figurino, com a atriz Juli Jakab, que vem de "O Filho de Saul". Além dela, o romeno Vlad Ivanov, de "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", também está no elenco.



Na sinopse divulgada, a atriz interpretará Írisz Leiter, uma jovem mulher em 1913, que viaja para Budapeste, onde perseguirá sua carreira como costureira. Porém, quando chega a antiga loja dos pais, tem uma surpresa e descobre sobre um irmão que não sabia da existência. A missão de encontrá-lo a levará a descobrir segredos, enquanto o país se prepara para o caos da guerra.
Ao que parece, o filme desponta para Cannes\2018.