sexta-feira, 31 de março de 2017

Crítica: O Ornitólogo

Sessão Vitrine Petrobras: diversas compreensões, políticas, sexuais e religiosas, dão o tom no filme com resultado altamente equilibrado, de importante cineasta português.



De "O Fantasma", uma densa e estranha obra-prima irreparável, para "O Ornitólogo", novo filme memorável do cineasta português João Pedro Rodrigues, 16 anos se passaram. Na época, quando realizou o filme, tinha 34 anos, mas hoje está passando dos 50. Esta travessia do tempo foi muito perceptível e sensível ao cineasta. De forma que, segundo ele em entrevistas, hoje lhe interessa não fazer filmes iguais, mas questionar-se a si mesmo e entender como está evoluindo enquanto pessoa. Nesse processo, seu desejo tem sido, então, realizar um cinema que seja pessoal, honesto consigo mesmo e que possa se comunicar com emoção. Ou seja, aquilo que ele está revelando, tem a ver com aprimoramento, com visão de vida ou de mundo. E por que seria interessante salientar e mencionar tais posicionamentos desse artista tão singular? Por dois motivos: primeiro, porque quem acompanhou  a filmografia do cineasta até aqui, vai perceber que pontos particulares da maneira como filma estão presentes, mas com elementos a mais: uma austeridade, depuração e uma incrível sensação de um exercício em fazer seus elementos se tornarem adultos; segundo porque, quem estiver tendo um primeiro contato com o cineasta, através deste filme, corre o risco de, ou odiar (achar tudo estranho e muitos derivados disso), ou sair da sala do cinema maravilhado (com aquela sensação de ter acabado de descobrir o planeta). Eu, particularmente, desejo a esse "novo" espectador a segunda opção. Desejo também atenção para o que vem a seguir.


O interessante, e o grande trunfo desta realização, é como se comunica e como flui, através de uma série de símbolos, representações, alusões e pensamentos, alcançando um verdadeiro resultado metalinguístico. Porém, isso é feito com uma originalidade e inventividade geniais, é feita sob a égide da liberdade criativa. João Pedro Rodrigues parte da história de Fernando, um ornitólogo que está num remoto norte de Portugal, a observar cegonhas negras e outras aves, mas que também divide seu tempo com o celular, por onde recebe mensagens de seu  amor, cobrando que Fernando não esqueça de tomar os remédios. Numa dessas observações, pelo rio, o caiaque do personagem é arrastado por uma correnteza e vira. A partir daí entram em cena os filtros do cineasta para essa história. Esta trama, segundo ele, seria uma versão livre da história de Santo António de Pádua ou uma hagiografia. Ops! Na verdade, de Santo António que nasceu em Lisboa e morreu em Pádua. Em todas as entrevistas que deu, João Pedro frisou essa diferença, frisou também que o santo é o patrono de Lisboa, onde o cineasta nasceu. Aliás, há certas incursões que representam outras entidades sacras, como uma alusão a São Sebastião, por exemplo. Mas frisar isso, tem uma importância maior e não é só por ressignificado.


Este é um cineasta também transgressor, marginal, underground e de resistência. Mais que isso, a história do ornitólogo Fernando é defumada pela história de Santo António, ele vive eventos como os eventos que o Santo viveu, mas as circunstâncias desses eventos, em João Pedro Rodrigues, são sensuais, debochadas (há quem diga que são blasfêmias) e carregadas de impulsos carnais. É a liberdade criativa do cineasta que assume o papel de reinterpretar e contestar a história que chegou até nós, afinal, rejeita que a vida de Santo Antônio seja do jeito que foi narrada, uma vez que pertenceu a uma era primitiva. Dessa forma, em "O Ornitólogo", há uma busca em se aproximar mais da natureza original. Essa rejeição é também uma forma de resistir politicamente ao papel da Igreja que, como conta o cineasta, foi um dos alicerces da ditadura vivida em Portugal. Nesse sentido, a figura de um casal de chinesas que teriam se perdido do caminho de Santiago de Compostela, tendo desviado e indo parar na mesma floresta em que Fernando, aponta tanto para essa Igreja que se perdeu, como para Macau, o capítulo insano da "Portugal colonizadora", que aqui ganha contornos violentos, com o sadismo com que as chinesas tratam Fernando.



No entanto, em se tratando de desviar caminhos, a realização faz muito mais sentido. Em todos os aspectos ela é menos óbvia e mais surpreendente. Talvez o próprio João Pedro (assume ele) teria se tornado um ornitólogo se não tivesse ido pelo caminho do cinema. Ele foi estudante de biologia e teve seu caminho desviado.
Da mesma forma, Fernando também tem seu caminho alterado no filme e, mesmo o que há de Santo António, não é via de regra e nem chega a respostas. Outro ponto forte desta realização é a integração desses pensamentos, o sagrado e o profano ou o pagão, de forma a questionar se, na natureza humana, não provém tudo de um mesmo espírito. A aparição dos Caretos e do "ritual dos jovens" é enigmática sob esse ponto de vista. Em Portugal, esse ritual que consta no filme, significa um rito de passagem, em que só podem participar os jovens solteiros, ritual esse aliás, que também fora proibido pela ditadura.
No filme, esse folclore assume o papel de resgate da história e da cultura de seu país, mas também traz uma espécie de batismo para Fernando e de uma maneira bem incomum (sem spoiler), o que também aponta para um link com o aspecto "animalesco\marginal", sempre presente nos filmes de João Pedro. Presente bem como a compreensão de corpo e sexualidade habituais a visão do cineasta, que expõe a nudez, a sensualidade e o erotismo (ou mesmo a atração homossexual) como integrante da paisagem humana e como prazer indissolúvel, seja inconsciente ou desejado. Essa forma narrativa, cheia de elementos, cresce no filme e flui com facilidade, intrigando o espectador. É uma narrativa contínua e fluída. Também a maneira como João Pedro capta as aves e sugere que, do mesmo jeito em que elas estão sendo assistidas por Fernando, também o estão assistindo, trocando os pontos de vista, imprime modernidade a narrativa e sugere igualdade entre as espécies. A natureza é captada de forma naturalista, mas o filme não reside nessa esfera, pois este cineasta tenta seguir um padrão de cinema ficcional, ele se esforça por dirigir ao máximo seus atores, para definir seus movimentos ou mesmo como devem falar, e isso, em seus enquadramentos, ganham um tratamento muito mais bem acabado. E é interessante que ele mesmo, o cineasta, troque de lugar com seu protagonista em determinados momentos, num desses planos, quando é observado por uma pomba branca, o símbolo do Espírito Santo. Parece que sugere, ou o ápice de familiaridade que encontra com Santo António em sua hagiografia, ou sugere como essa história tem níveis de si mesmo, porém o resultado é memorável.


Mais memorável ainda é quando surgem amazonas seminuas, a segunda presença de mulheres, falando em latim, anunciando uma espécie de "nova vida" para Fernando e querendo conduzí-lo. Contudo, um enquadramento depois disso, em que Fernando se encontra com o irmão gêmeo do jovem Jesus, com quem transou e que teve um fim trágico, é um deleite. Nele, a mesma pomba branca de antes, está numa frondosa árvore (da vida?), entre os dois que estão numa distância mínima entre si, realizando assim o efeito predito por uma frase de um sermão de Santo António que abre o filme. E, desse jeito todo depurado, a jornada de reconhecimento e de "nascer de novo" desse, que antes era um simples ornitólogo, se torna um dos melhores filmes do ano, de um dos cineastas mais autênticos da atualidade.

" O ORNITÓLOGO " - O Ornitólogo - Dir. por João Pedro Rodrigues - Portugal - 2016 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes através da Sessão Vitrine Petrobras

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quarta-feira, 29 de março de 2017

Alexander Payne rumo ao Oscar 2018 com " DOWNSIZING " ou, antes, em Cannes

Depois da obra-prima "Nebraska", o cineasta retorna com filme, tido como bizarro e que já está recebendo aplausos.

Downsizing Alexander Payne Matt Damon Kristen Wiig
Matt Damon está casado, e encolhido, com Kristen Wiig, em Downsizing

Nesta terça (28), durante a CinemaCon, em Las Vegas, foram apresentados 10 minutos da nova realização do cineasta Alexander Payne, que causou admiração e boa receptividade. As reações da imprensa foram positivas e chamaram o filme desde "bizarro" até "de cair o queixo". Também foi dito que o tom visual e dramático é o mais próximo de Kubrick possível. Agora, preste bem atenção na curiosa premissa do enredo, que Brent Lang, da Vanity Fair, chamou  de um "'Querida, Encolhi as Crianças' com uma profunda mensagem social":

Um casal de 30 anos, Matt Damon e Kristen Wiig, assiste uma demonstração de como viver mais, e melhor economicamente, se as pessoas encolherem. Sim, encolherem, no método criado pelo personagem de Christoph Waltz. Um vendedor, Neil Patrick Harris, já encolhido, demonstra como é viver assim, ao lado de sua esposa, também encolhida, Laura Dern, toda satisfeita rodeada de champagne e diamantes. Dessa forma, Matt Damon quer fazer a esposa feliz e concordam em se submeter ao método. São levados para uma instalação, de um branco estéril, numa complexidade de efeitos visuais de Payne, descobrindo o processo de 5 horas e são separados, para se encontrar depois na recuperação. Alexander Payne também mostra o processo acontecendo com outras pessoas, de um jeito que a imprensa chamou de indescritível. Os 10 minutos da projeção terminaram com o personagem de Damon acordando, já encolhido e morrendo de fome, sob os cuidados de uma enfermeira, também encolhida. Porém, ela joga fora, através da porta, um pacote gigante de biscoito, ao que ele arregala os olhos e ela, sorrindo, diz "Pacientes sempre recebem um ponta-pé. Deixe-me pegar uma comida de verdade pra você".

O resultado foi um caloroso aplauso do público. A Paramount anuncia o filme para Dezembro de 2017, porém especula-se de que o filme possa integrar a seleção oficial de Cannes em Maio de 2017. Não restam dúvidas de que esse será um dos integrantes da temporada de premiações do cinema em 2018. Quando tem Alexander Payne, tem Oscar!

(Fontes: Vanity Fair, The Playlist.Net e Hollywood Reporter)

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terça-feira, 28 de março de 2017

Crítica: Jonas e o Circo sem Lona

Vem da Bahia o documentário memorável da sessão Vitrine Petrobras, que mostra dissolução do mundo de garoto, frente a iminência da transição.



Jonas é uma criatura ímpar. Habilidoso, criativo, carismático, engraçado e um líder nato. Poucos minutos de projeção e você está encantado com a funcionalidade da personalidade de Jonas, que culmina com seu sorriso. Aos 13 anos de idade não resiste ao sangue que pulsa em suas veias, que traz a hereditariedade da família de artistas circenses, que Jonas pretende perpetuar. E consegue. Improvisa uns panos, reúne alguns amigos, ensaia com eles acrobacias, coreografias, palhaçadas, depois sai pelas ruas anunciando o espetáculo e quando chega a hora, está todo mundo lá, dividindo o picadeiro com o quintal de Jonas, mais algumas galinhas e um cachorro. Ele não se interessa muito pela escola, mas pelo circo chora. É admirável como ele transforma a paisagem do ambiente e a torna crível, ao lado da mãe, com quem vive em amáveis confrontos, e ao lado da avó, o símbolo da honra circense que lhe serve de inspiração. Porém, as coisas escapam ao domínio de Jonas, um ou outro amigo se afasta do circo, a escola se posiciona mais veementemente sobre o garoto e ele percebe que o circo da vida também não tem lona e é mais frágil do que ele possa suportar.

É isso que a cineasta Paula Gomes não imaginava, que o que era pra ser um filme sobre circo, iria se transformar numa realização que fala através do circo e que vai além. O que ela consegue aqui é captar a ruína do mundo da imaginação, aquele que tivemos de deixar de lado para entrar no processo de encarar a vida como ela é. O surpreendente é como a gente se enxerga, no sentido de que, enquanto o público se reconhece em Jonas, não há um freio que interrompa o processo. O resultado é ainda mais profundo, porque há uma linha muito tênue entre a impressão de ficção e realidade alcançadas aqui, e esse é o grande trunfo desta realização. Aquilo que Jonas demonstrava frente a câmera de efeito familiar de Paula Gomes, quem acompanhou durante dois anos essa trama, de repente, ao ruir, se transforma num constrangimento para o menino. Quanto mais o documentário caminha para o fim, mais agridoce ele fica, por conta da prostração de Jonas, que chega até a induzir que deva satisfação a cineasta. É um efeito memorável.

A cineasta que procurava por circos itinerantes no interior da Bahia, foi feliz na inspiração acerca da realidade de Jonas. É interessante como da proximidade com todo esse processo de dissolução, ela captou dilemas assinados pela contemporaneidade. De um deles, o ensino faz parte, pois a escola não estimula o "Jonas artístico", pelo contrário, rechaça a presença de documentaristas e acusa a mudança no comportamento do garoto. Uma ideia incompreensiva de que as duas coisas não podem caminhar juntas e que ganha contornos vibrantes num país que vive uma divisão inconcebível no próprio ensino curricular, além de sofrer ataques a cultura. É respeitável a postura da mãe que se intenta em estimular a compreensão do filho sobre a necessidade dos estudos. Dessa forma, esta maravilhosa realização e premiada, constrói um olhar, desses que daqui há décadas, ainda vai ecoar, em nós mesmos e na sociedade como um todo. E já o faz.

" JONAS E O CIRCO SEM LONA " - Jonas e o Circo sem Lona - Dir. por Paula Gomes #52FilmsByWomen - Brasil - 2016 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes

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Crítica: Estopô Balaio

Documentário extrai arte, com honestidade, em meio a um pesadelo e atua como um bálsamo sobre um estigma. O resultado é extraordinário.


Se a enchente interfere violentamente nas ruas, causando prejuízos e desgostos na vida de muitas pessoas, tanto mais a arte pode interferir também e agir nestas mesmas vidas, mas, ao contrário da enchente, sem nenhum dano e com muita misericórdia. Neste documentário do cineasta genial, Cristiano Burlan, três desdobramentos da mesma prática geram resultados impressionantes. A essa prática compreenda-se a "interferência", um dos grandes pontos de partida do cinema documental. Enquanto as chuvas interferiram impiedosamente na vida dos moradores do Bairro do Romano, extremo leste da grande São Paulo, a experiência de um coletivo artístico de migrantes de diversas linguagens residentes, opera em reelaborar a tragédia na vida dos moradores. Enquanto isso, desde 2014, Cristiano Burlan registra a atividade e se insere também, junto com o coletivo, dentro das casas das pessoas, mas não só isso, acaba interferindo na vida dos próprios artistas. O efeito de reconhecimento entre uns e outros, entre histórias e situações, deram a câmera de Burlan, que assumiu a postura de uma espécie de exímia e paciente testemunha, uma oportunidade rara, que é aquele alinhamento natural de como a vida se comporta. E só dessa forma para alcançar um resultado tão honesto.

No entanto, a medida em que vai se assimilando as gravidades, mais se compreende como os teatros, raps e saraus, encenados pelas ruas do Romano, ganham sentido. É um dos melhores exemplos de como a arte pode identificar a pessoa e fazê-la se identificar com a arte. O Bairro do Romano chegou a ficar 3 meses em baixo d'àgua em 2010, uma calamidade pública e uma tragédia que deixou marcas. "Estopô Balaio" é o nome do coletivo artístico que desenvolve residência no mesmo bairro, cuja essência é nordestina. Eles investigam a memória migrante da cidade de São Paulo e atuam com a ideia de teatro documentário e biodrama. São pessoas que, em sua maioria, saíram de realidades de vida torturantes e que encontraram no teatro um espaço que, ao mesmo tempo que cura, oferta uma noção de voz. Pois bem, o que esse grupo fez foi transformar a tragédia em matéria-prima, enxergar nestas formas de pesadelo um processo criativo, com que pudessem se aproximar das vidas e sugerir que elas ressignificassem suas experiências. Fizeram ainda mais, mapearam o Bairro do Romano como se ele mesmo fosse um teatro e transformaram as entradas das casas em palcos e, por vezes, transformaram os próprios moradores em artistas, de modo que o que se canta, recita ou encena, foi escrito com seus próprios sentimentos.



A câmera de Cristiano Burlan registra dois comportamentos, registra o envolvimento do Estopô Balaio com o bairro, e um dos grandes momentos da realização é quando o integrante do coletivo está dentro da casa de duas moradoras, que sofreram com as enchentes e foram capa do Estado de SP; e registra também como o Estopô Balaio afeta os próprios artistas, em como a exposição artística é um bálsamo para cada um deles. Nesse sentido, o talento deste documentário é emblemático, pois demonstra como tudo é uma questão de interferência e salienta a beleza do envolvimento. Tudo é uma questão de exposição, mas o que molda o registro é o interesse. O coletivo exerce um interesse pela situação que a cidade de São Paulo não exerce, enquanto causa social; ao mesmo tempo, há liberdade por parte do Bairro do Romano, que se sente a vontade com as intervenções e em delas participar. E, neste encontro, Burlan surge como o olhar que contempla os esforços. O resultado é sublime e marca sua necessidade também pela grande menção da realização, dita pelo integrante do Estopô Balaio: como opera a arte e a poesia em situações de trauma social? Este belíssimo documentário persegue essa faceta e brilhantemente.

" ESTOPÔ BALAIO " - Estopô Balaio - Dir. por Cristiano Burlan - Brasil - 2016 - Distribuidora no Brasil: Bela Filmes

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sábado, 25 de março de 2017

Os Belos Dias de Aranjuez - Dir. por Wim Wenders - Exibição para a imprensa

O "Daniel Serafim Mais Cinema" foi um dos convidados especiais para a exibição do filme para a imprensa na última sexta-feira.


 Primeiras Impressões  "Os Belos dias de Aranjuez" 

Quando terminou a sessão desse novo filme de Wim Wenders, eu estava transbordando. Assistir a filmes desse cineasta com mais de 70 anos, um deus do cinema, tem se transformado na experiência mais pegajosa que você poderia viver dentro e fora da telona. Afinal, com essa idade, ele ainda inova, medita e dilata a narrativa cinematográfica.

Com o 3D, Wim Wenders (que tem "deitado e rolado" na técnica) transforma todos os elementos do seu cinema num estado a ser descoberto e digerido. Por exemplo, se em "Asas do Desejo" já nos transportávamos para outra dimensão, aqui o intuito continua sendo o mesmo e o 3D surge como uma possibilidade, na visão acima da nossa compreensão de Wim Wenders, em criar ainda outra dimensão. A qualidade do texto é admirável, a habilidade da direção continua memorável e, quem realmente estiver afim de embarcar, viverá uma experiência imersiva, etérea, diegética, as vezes claustrofóbica e que se revela através de 3 atuações esplendorosas. O "Mais Cinema" indica e ainda vai falar muito!

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Crítica: O Filho de Joseph

Produzido pelos irmãos Dardenne, novo filme do cineasta norte-americano radicado na França, se utiliza da mitologia cristã para expressar suas verdades. 

Daniel Serafim Mais Cinema

Para o cineasta Eugène Green basta um piscar de olhos e miticamente surge uma inspiração para seus filmes. É uma maneira intuitiva de quem se sente provocado com a vida e de quem interpreta mitos, arquétipos, dilemas, de quem "saca" a sociedade e de quem transforma tudo isso numa expressão de cinema. Nos últimos anos, aliás, sua expressão tem sido muito peculiar e única. No entanto, da nossa parte, é preciso menos de um piscar de olhos e mais de atenção, para se deleitar com o tesouro contido em cada cena, em cada ausência de movimento dos personagens, em cada olhar fixo e em todas as sugestões que orbitam a linguagem do cinema de Green. 

O Filho de Joseph; Le Fils de Joseph
Neste filme, uma divisão de cinco partes referidas a passagens bíblicas, constroem a história de Vincent, um personagem adolescente de 15 anos, que se sente incomodado por uma "necessidade" de conhecer o pai (e conhecer a si mesmo). A esta curiosidade Vincent sempre fora censurado pela mãe, Marie, que criou o filho sozinha. Enquanto o jovem parte, por conta própria, pela descoberta de quem seja seu pai, surge do abstrato a chance de construir sua própria família. É desse jeito que o cineasta Eugène Green faz uma coisa linda de se ver, sem culpa e com total liberdade. Em seu filme privilegia os sentimentos de seus personagens, seus confrontos, não os julga e contempla o processo da vida. Faz mais, expande a percepção de família, valoriza figuras de mães solteiras e expõe o quanto filhos podem sentir ódio ou raiva por seus progenitores.

Imagem de Divulgação
Para isso, o cineasta associa os mistérios íntimos de seus personagens à mitologia bíblica e confessa o quanto esse elemento é importante para ele, como tudo que constitui sua cultura e sua experiência de vida. Promove essa associação inspirado pela mítica que o remete a uma visão de como os gregos do período clássico encontram nos mitos a expressão de uma ou mais verdades, traçadas pela continuidade da narrativa simples. É o grande entendimento contido no inconsciente coletivo e ensinado por Carl Gustav Jung em "O Homem e Seus Símbolos". Não só isso, o cinema de Eugène Green é uma grande associação livre. Basta pensar aqui na presença da pintura de Caravaggio, "Sacrifício de Isaac" e compreender em como flerta com "O Sacrifício de Abraão", o título da primeira parte do filme, em que há um confronto do filho com a mãe. O elemento sacro fermenta a realização, ele nos orienta ao sentido de que há de se trazer humanidade à aura com que se detém estruturas também arquetípicas da humanidade. Por isso há ódio, há decepção e há estranheza na travessia do personagem adolescente. É mais psicanalítico do que se possa imaginar. 

Natacha Régnier; Imagem de Divulgação
Em meio ao exercício deste filme em reencenar a natividade sob o espectro sagrado, manifestam-se a projeção do aspecto carnal, soerguem-se as atitudes passíveis ao sentido marginal, os comportamentos pertencentes só a dimensão humana e o entendimento do desejo sexual. Por exemplo, o personagem recua uma vez ao roubo, mas não recua a segundo movido pelo desejo de "matar" o pai.  Também, neste filme, pela primeira vez em sua filmografia, o cineasta mostra o sexo (ou "o coito" como ele chama), todo sugerido, não explícito e até de forma cômica; são mostradas as molas de um divã em movimento, enquanto o casal faz amor sobre o móvel. É uma aversão do cineasta que diz sentir-se incomodado em como, a partir dos anos 70, todo o sexo é exposto, de modo em que as vezes se sente numa aula de zoologia (demonstrando choque), ao assistir cenas do ato sexual.

Daniel Serafim Mais Cinema
Falando em comicidade, esse é outro elemento utilizado aqui, Eugène Green inflexiona seu cinema com a comédia e a sátira, advinda ao cineasta do gênero literário, através de seu lado escritor. A comédia teatral dramática e de costumes surge entre os personagens e nos momentos em que mostra a excêntrica burguesia, como na personagem da maravilhosa Maria de Medeiros ou, de um acaso, quando Vincent esta as pressas e encontra o tio, Joseph, no saguão do hotel que, comicamente, percebe que o jovem está em apuros e o ajuda a fugir. É esse mesmo tio que perpassa por outro elemento narrativo peculiar ao cineasta: a arte. 

Daniel Serafim Mais Cinema
Ele e o jovem se revelam um ao outro durante um dia no Louvre. Vincent também tem uma revelação ao ouvir, dentro de uma Igreja, uma peça de Domenico Mazzocchi, "Lamentation de La Mère d'Euryale", sobre a dor de uma mãe na morte do filho, o que o cineasta chama de "experiência estética". Mesmo sem entender os versos, Vincent recebe a emoção e se sente impelido a apresentar Joseph a mãe. Assim, dois relacionamentos são formados e reformados, como também explica o cineasta, o de Marie com Joseph e o de Joseph com Vincent. Esse é o resultado de um entranhamento que necessitaria acontecer entre a arte e o ser-humano, que deveria ser vital e até se sobrepor a vida, na visão do cineasta. De fato, não há de se ter dúvidas do talento que nele se demonstra, há toda uma concepção em imagem, texto e cinema. Percebe-se como há coisas de Bresson, de Wes Anderson, de Sorrentino ou Aki Kaurismäki, porém, acima de tudo, percebe-se que Eugène Green é um dos melhores cineastas da atualidade. (Foi utilizado como conteúdo para este texto a entrevista dada por Eugène Green ao ator, e também diretor, Hugues Perrot. Entrevista cedida a imprensa pela Supo Mungam Films)

" O FILHO DE JOSEPH " - Le Fils de Joseph - Dir. por Eugène Green - França\Bélgica - 2016 - Distribuidora no Brasil: Supo Mungam Films 

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Daniel Serafim Mais Cinema

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quinta-feira, 23 de março de 2017

Crítica: Era o Hotel Cambridge

Filme incensa vidas e problemas pelos quais a sociedade continua a desdenhar e produz um resultado precioso de cinema.


É palpável o espírito com que "Era o Hotel Cambridge" foi feito, do engajamento ao extremo cuidado ambilateral, transformando a coletividade e o expoente humano\social numa matéria-prima indissolúvel. Da mesma forma, é igualmente palpável a veia da premiada cineasta Eliane Caffé, que se debruça sobre vidas desterradas e que, para narrá-las, entra num belíssimo exercício de lapidação, até que o que se obtenha seja o mais vivo encontro de ficção e realidade. Aqui, ela não só consegue o êxito desse efeito, como transcende em muitos aspectos. Este filme não é sobre a ocupação de edifícios "abandonados", não é sobre a situação dos imigrantes e tampouco oferece uma solução a esses problemas, mas, e este é aqui seu maior trunfo, este filme é sobre a percepção das vidas que se encontram nessas situações, em meio a esses cosmos de cidades como São Paulo. A estrutura do Hotel Cambridge, antigo edifício na Avenida Nove de Julho, abriga todos os microcosmos tratados por Eliane Caffé e dentro dele se desenvolvem todas as razões que tornam esta realização genuína.  

Ao mesmo tempo, a cineasta nos confronta. O plano de abertura de seu filme, por exemplo, plano que se repetirá inúmeras vezes, enquadra edifícios sob o céu e vistos, em suas proporções, de debaixo para cima. Remete como se fosse, ou a um clamor aos céus, ou a uma exclamação de que se veja o que está acontecendo sob o mesmo céu que o nosso. E faz todo o sentido. Foi dito que muita gente iria torcer o nariz para o filme, afinal, de uns tempos para cá, impera a voz das ruas e a voz de quem antes era marginalizado e vítima do preconceito. Então, se tornou incômodo para boa parte da sociedade aceitar que existe resistência, que existe discrepância social, que existe luta e que tudo isso vem, há décadas, caminhando lado a lado e que, em pleno 2016, uma sensação de "não dá mais", toma conta das ruas. Como disse a própria cineasta sobre São Paulo "É uma cidade marcada pela dicotomia entre um mínimo de gente que vive num padrão extremamente confortável e uma maioria que se debate dia a dia para conseguir sobreviver". 

Pois bem, na trama, acompanhamos o Hotel Cambridge, um imóvel da cerca de 400 imóveis abandonados em São Paulo, ocupado por sem tetos e refugiados dos mais variados países. Dentro dele há várias realidades de vida que se desvendam para o espectador, algumas mais poéticas, outras com um toque de humor, mas sobre todas paira a dureza. Lá pelas tantas vem a notícia: em 15 dias haverá a desapropriação do imóvel. E daí surge outro arrebatamento do filme e o outro talento de Eliane Caffé como cineasta e autora. Entre atores e não-atores, ela nos mostra o desenvolvimento das frentes envolvidas nesses casos e nos mostra o papel de liderança de pessoas como Carmen Silva, da FLM. É de mulheres como Carmen que inflama o grito de quem resiste, o grito de quem enfrenta o que preciso for, demonstrando que há vida em curso. Aliás, em Eliane Caffé, as mulheres são quem agregam, vão para a linha de frente, articulam, movimentam e pastoreiam. A figura de Carmen Silva é extraordinária. Além disso, cresce o caráter de incorporação desta realização que, ao longo de dois anos, foi gerido pela equipe de produção do filme, pelas lideranças da FLM (Frente de Luta pela Moradia), por um grupo dos refugiados e pelo núcleo de estudantes de arquitetura da Escola da Cidade, trazidos pela diretora de arte Carla Caffé, irmã da cineasta.

Poucos cineastas atuam como Eliane ao rodar filmes com esse tratamento, em que se perde entre a ficção e a realidade, para tornar a narrativa unicamente crível. Dá pra perceber como ela protegeu o filme, para que ele se apresentasse pequeno e atingisse seu resultado com a força de um terremoto. É pequeno, mas poderoso. É nítida a sensação de um trabalho feito com paixão, com muito cuidado, esmiuçado, sem agredir a 'mise-en-scène' e privilegiando o ser-humano. Fala de diversidade, de coletividade, de pluralidade, confronta o neoliberalismo e questiona se, quem assiste, tem consciência do que está acontecendo. É também um exercício de cinema reflexivo e inovador, pois ele demonstra com que integridade capta a contemporaneidade da sociedade, junto com suas mazelas. Nesse sentido é uma realização sociológica. A cineasta afirma que começou a gestar o filme antes do tema "imigração" tomar proporção entre as grandes nações, porém seu filme figura como um íntegro movimento do cinema brasileiro em pensar a questão e nos trazê-la. Esse é um dos fascínios do cinema, expressar por imagens e com visão, movimentos de resistência, dar voz a vidas aniquiladas e, acima de tudo, efetuando resultado como cinema. E aqui seu nome atende por Eliane Caffé.

" ERA O HOTEL CAMBRIDGE " - Era o Hotel Cambridge - Dir. por Eliane Caffé - Brasil - 2016 - Distribuidora no Brasil: Vitrine Filmes #52FilmsByWomen




quarta-feira, 22 de março de 2017

Olivier Assayas conta como Kristen Stewart é uma inspiração em "Personal Shopper"

Numa entrevista esclarecedora ao site "Page Six", o cineasta francês conta como a atriz inspirou o premiado "Personal Shopper", explica de que forma Kristen elevou o filme e fala das diferenças com seu trabalho anterior, "Acima das Nuvens"



"Ela o inspirou. Eu estava escrevendo para uma jovem americana. Minha experiência de estar em torno de uma jovem americana é basicamente com Kristen, mas eu não tinha certeza de que ela faria isso ou se ela estaria interessada. Eu precisava deixar essa coisa de celebridade de lado e livrá-la desse fardo, para que o seu lado de celeridade não cegasse as pessoas, pois o lado 'celebridade' está em outra inserção no filme. 

Normalmente, quando você faz um filme, você luta para fazer as pessoas esquecerem a sua atriz em função do personagem, você deseja que as pessoas se esqueçam da estrela de cinema. Em "Acima das Nuvens" eu fiz o oposto, havia essa noção de que você estava assistindo um ator - um personagem fictício - e, ao mesmo tempo, você sempre tinha em mente que havia uma estrela de cinema por trás. Em "Personal Shopper" eu acho que vou mais na direção de esquecer a estrela que Kristen é para me ater mais na personagem. Ela é metade um personagem e metade ela mesma. O elemento da estrela está fora da equação. 

Eu costumava dizer que historicamente, um ator levava duas vidas, uma vida como um personagem fictício e uma vida real. Agora, existe uma terceira dimensão. Quando você é um ator famoso, você tem que lidar com a cultura da celebridade. Há uma espécie de terceira caricatura de si flutuando pelas mídias sociais e você precisa controlar isso, mas certamente as atrizes mais jovens são mais habilidosas em usar com essa dimensão.

Acho que porque Kristen é tão real, é tão fundamentada, é tão íntegra na sua própria maneira, que ela faz qualquer coisa parecer real. Então eu sabia que escrever para ela, traria alguma coisa da forma como nós nos comunicamos com o invisível, de como nós tentamos dar tudo de nós - de como nós tentamos entrar em contato com o nosso eu interior. Sei que pode soar estranho, mas ela poderia trazer isto para a realidade. Ela gera empatia e ela se conecta com o público.

É uma boa parceria e as vezes com atores, mesmo que tenham uma ótima relação, você sabe que em algum momento o esgotou ou você sabe que não quer fazer aquele filme de forma exagerada (ou pesada), mas com Kristen, eu sei que há muito mais para ela."

(Fonte: http://pagesix.com/2017/03/10/olivier-assayas-wrote-personal-shopper-for-kristen-stewart/ )

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segunda-feira, 20 de março de 2017

M. Night Shyamalan fala sobre "Até o Último Homem" e Mel Gibson, com quem trabalhou em "Sinais"

Grandes cineastas e importantes nomes se levantaram sobre importantes filmes de 2017. É uma oportunidade única saber suas opiniões e observações.

"Os artistas que admiro são fiéis a eles mesmos. Eles são felizes por ter uma grande audiência se, e somente se, o que for feito, seja feito baseado nos seus verdadeiros valores.
"Hacksaw Ridge", de Mel Gibson, é genuinamente ele, sem concessões. Numa escala baseada na paixão o filme é 11. Tem quatro ou cinco grandes cenas de batalhas gráficas que são chocantes e icônicas, onde você sente a cada momento que alguém pode ouvir um tiro e perder a mão ou o rosto.
A ferocidade de Gibson em suas cenas de batalha é uma marca registrada em seus filmes, mas outra característica da sua autoria é sua ternura. "Hacksaw Ridge", como outros de seus filmes, tem momentos pessoais intensos, onde Mel nos faz sentir a humanidade no seu melhor, quase que idealmente. A arte requer equilíbrio e nisso Mel se distingue. Ele enche o nosso coração com uma canção, para explodi-lo minutos depois com um tiro.
Tendo já dirigido Mel Gibson, posso afirmar que ele é um vulcão de emoções. Quando eu vejo as performances de seus atores eu posso quase visualizar o diretor apaixonado dizendo-lhes porque o personagem deve suportar e desafiar naquele momento, porque ele deve amar tão profundamente, porque se vale a pena morrer por algo.
Mel Gibson acredita, e por isso ele é um grande diretor." (M. Night Shyamalan, Variety)
(Fonte: essas e outras colocações de outros cineastas foram pulicadas no site da Variety, que você pode acessar, na íntegra, através do link http://variety.com/gallery/directors-on-directors-arrival-moonlight-hacksaw-ridge/#!1/directors-on-directors-7/ ) 
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William Friedkin, cineasta de "O Exorcista", fala sobre "La La Land"



Grandes cineastas e importantes nomes se levantaram sobre importantes filmes de 2017. É uma oportunidade única saber suas opiniões e observações.

"Vejo o futuro do Cinema Americano e ele atende por Damien Chazelle. Aos 31 anos e baseado em seus dois últimos trabalhos, ele é um exímio contador de histórias em total domínio de seu ofício e com uma incomum habilidade de surpreender a audiência, com cada gesto, cada momento e com cada enquadramento. 


Numa indústria dominada pelo CGI, seus filmes têm uma qualidade artesanal e não são somente únicos, enquanto conquistas técnicas, com visuais estonteantes, mas são também uma experiência emocional. Essa é uma combinação rara hoje em dia.

Sua direção de atores é tão talentosa e invisível, que seus atores parecem estar inseparáveis de seus papéis. "Whiplash" é um drama com música e "La La Land", enquanto nos remete aos musicais clássicos do passado, é um trabalho totalmente original e relevante para os nossos tempos. A propósito, e mais importante, esses filmes são cheios de diversão e alegria. Ele tem sido comparado a Jacques Demy e Vincente Minnelli, dois cineastas brilhantes pra se ser comparado, mas para mim seus filmes são incomparáveis.

Ela não é somente um brilhante cineasta, ele parece ser uma pessoa modesta e engajada, dono de uma humildade genuína. Menciono isso, porque essas são características raras entre os gênios. Seja qual for o futuro do cinema americano, seja que forma tiver, Damien Chazelle será a maior força em forjá-lo." (William Friedkin, Variety)


(Fonte: essas e outras colocações de outros cineastas foram pulicadas no site da Variety, que você pode acessar, na íntegra, através do link http://variety.com/gallery/directors-on-directors-arrival-moonlight-hacksaw-ridge/#!1/directors-on-directors-7/ ) 


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Primeiras Impressões: Mulheres do Século 20


Como o cinema é impressionante e memorável.

A cena do vídeo é de "Mulheres do Século 20" e ela é embalada pela canção "As Time Goes By", na performance de Rudy Vallée, de 1931, uma das primeiras gravações da canção, que ficou sagrada pelo clássico do cinema de 1942.

"Mulheres do Século 20" realiza um efeito impressionante, ao demonstrar como, 85 anos depois da composição da canção e 74 anos depois de "Casablanca", tanto a música, quanto o clássico, ainda continuam fazendo sentido e permitindo inspirações criativas que imprimem sentido a outras realizações. A presença do filme "Casablanca" e o uso de uma versão mais próxima ao original da canção, oferecem um sentido inesquecível, em meio ao clima de depressão e melancolia daquela geração, a que se atravessa por "Mulheres do Século 20" e ao mesmo tempo criam uma expressão original dos sentimentos deste filme, bem a forma como se consolidou o filme de 42. É um resultado memorável.

domingo, 19 de março de 2017

Mais Cinema é notícia: Leos Carax retorna, após "Holy Motors", com drama musical


Essa semana foi anunciado o início da produção da nova realização do francês Leos Carax, depois do sucesso de "Holy Motors" e que será sua primeira produção em inglês. A Amazon também anunciou a aquisição dos direitos de distribuição nos Estados Unidos e Canadá.
Curiosidade: a imagem acima, primeiro teaser do filme, foi registrada por Alex Ross Perry, na 'European Film Market', em Fevereiro, durante o 'Festival de Berlim' e publicada por ele no instagram. Automaticamente se transformou num viral pelo twitter e ganhou as redes sociais.
Em "Annette", drama musical estrelado por Adam Driver e Rihanna, um comediante stand-up se depara com a realidade em ter de cuidar de sua filha com 2 anos de idade, depois que sua esposa, cantora de ópera, morre. Mas ele logo percebe que a menina tem um dom especial. 
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sexta-feira, 17 de março de 2017

Mais Aniversário: 64 anos de Isabelle Huppert

Eu, Daniel Serafim, juntinho com o Barry Jenkins, ficamos pra lá de abobalhados com a deusa Huppert! Gratidão e parabéns a rainha!

domingo, 12 de março de 2017

Crítica: Silêncio


Quase 30 anos trabalhando um projeto na cabeça (e no coração) para, enfim, operar qual resultado? Envergar-se num épico visual, de proporções abismais e exibindo extrema lucidez para transformar o cinema no mais perfeito canal a dilatar suas dimensões, promovendo uma reflexão em torno de como se reage através de sua fé e através de suas convicções pessoais. Tudo isso regado pela dúvida, pela tortura psicológica e por questionamentos íntimos. E qual é a única pessoa com capacidade plena para realizar todo esse conjunto em um belíssimo efeito de quase 3 horas, transformadas num puro exercício do que de melhor o cinema pode oferecer, que é arrebatar? Martin Scorsese. Testemunhar esse resultado e receber esse impacto, é uma tarefa que deveria pertencer somente ao espetáculo da tela do cinema, mas o resultado é tão eficaz, que poderá ser digerido também numa projeção com a calmaria do conforto da casa da gente. 

Em 1630, o Padre Sebastião e o Padre Garpe, dois Padres Jesuítas, encontram-se completamente
incomodados com a notícia de que o Padre Ferreira, até então um ícone absoluto de fé, convicção e postura, teria abandonado a Igreja no Japão e, tomados pelo inconformismo, entram clandestinamente no país, afim de encontrá-lo. Porém, o terreno para eles é perigoso, os senhores feudais japoneses, decididos a banir a religião dali, torturam os cristãos e os matam. Aliás, diga-se de passagem, as cenas e sequências de tortura, são as que, inacreditavelmente, poderiam se chamar de as mais belíssimas, ao mesmo tempo que chocantes. A abertura do filme, inclusive, é arrebatadora. A jornada dessas duas figuras é completa na visão de Scorsese, não se perde uma chance de utilizar a matéria-prima, seja a matéria-prima que o cinema é, por si só, seja a do romance adaptado aqui de Shusaku Endo ou seja a da natureza, captada com fina habilidade de torná-la um aspecto vivo da "mise en scène". Todos esses talentos movem o resultado de toda filmografia de Scorsese, é uma de suas marcas, aliada ao fascínio da narrativa. Fascínio esse, também em Scorsese, um patrimônio do cinema, pois raros cineastas exibem essa existência autoral tão expressiva e um exemplo disso é seu filme anterior. É impressionante como consegue fazer um filme barulhento, debochado, épico, sem deixar de ser espetacular, como foi "O Lobo de Wall Street" e, ao mesmo tempo, é impressionante como consegue fazer um filme calmo, silencioso, contemplativo, como é "Silêncio".

E não para por aí, quando enfim o Padre Sebastião é capturado pelos japoneses e fica ainda mais próximo da descoberta do "suposto" paradeiro do Padre Ferreira, surge outra predileção de Scorsese, a tortura psicológica ou uma batalha pela persuasão e o resultado é sempre impressionante. O Padre Sebastião é bombardeado pelas ferramentas utilizadas pelo temido Inoue, o grande "manda-chuva" do local, que as usa com propriedade para persuadí-lo a negar sua fé. Ele assiste a  horrível tortura dos cristãos, mas também é levado a travar diálogos maravilhosos com o próprio Inoue e os outros senhores dali, cujos argumentos são desnorteantes. Revela-se, assim, ainda outro brilhantismo do filme em contar com a linda atuação de Andrew Garfield, em compor o Padre Sebastião, mas também a riqueza do elenco japonês, cujo ápice é o monumental Issey Ogata, que interpreta Inoue e que, toda vez que está em cena, é um colosso. Além deles, Adam Driver, o Padre Garpe, oferece uma pequena jóia com sua interpretação e não precisa muito pra perceber que ele é um artista formidável. É preciso dizer também de como o filme dilata e deixa suas sequências memoráveis; numa delas o ponto de vista está dentro da gaiola em que Sebastião está preso e assiste a decapitação de um cristão, mas são célebres as cenas em que os cristãos precisam pisar numa gravura sacra e é ainda mais célebre, e poética, a cena em que o próprio Sebastião é levado a essa prática. O resultado é pura imersão cinematográfica.

Essa história já foi adaptada para o cinema em 1971, pelas mãos do mestre Masahiro Shinoda, mas com outra objetividade e economia. Contudo, todo o gosto de Scorsese em construí-la com tamanho impacto, representa muito mais do que poderia-se intuir. Ela foi avaliada por ele com um filtro pessoal, levando em conta que quase morreu em 1978 e que, depois disso, teria tido uma relação mais próxima com sua fé, segundo ele mesmo em entrevistas. Porém, há 30 anos queria contar a história do romance de Shusako Endo, mas, sempre avaliando e reavaliando seu roteiro, terminando outros trabalhos "menores", não havia chegado a hora. Agora, não só o momento lhe concedeu a oportunidade, como lhe ofereceu a lucidez para, através do filme, expressar também como se dão momentos em que parecemos atravessar por "tempestades" ou "desertos" íntimos e como flertamos com os desejos e vontades de abandonar tudo. O resultado é mais uma de suas aulaa de cinema, mais uma realização fascinante e a certeza que o cinema continua a ser equacionado e reinventado por mãos de quem sabe o que faz, pelas mãos de Martin Scorsese.

" SILÊNCIO " - Silence - Dir. por Martin Scorsese - Estados Unidos - 2016 - Distribuidora no Brasil: Imagem Filmes



Crítica: Paraíso


Em 2016, no cinema, fomos Daniel Blake, fomos Michèle Leblanc ("Elle"), fomos Clara ("Aquarius"), mas também poderíamos ter sido Olga Kamenskaya.
Se fizéssemos um jogo de palavras e se perguntássemos a qualquer pessoa quais palavras viriam a sua mente sobre nazismo, certamente jamais ouviríamos a palavra "paraíso". Por isso, se soubéssemos tão somente que este filme é sobre nazismo, já se instalaria uma curiosidade, afinal, o que existiria de celestial naquele inferno?!
O título ambíguo deste filme assume duas personalidades, uma poética e outra que emerge da mentalidade nazista, que acreditava na instauração de um "paraíso", através de si.
No entanto, a beleza do título se revela nos 3 personagens que geram a alma de sua estrutura narrativa . São 3 confissões, 3 testemunhos, 3 relatos, 3 exposições, que por vezes se revelam também como uma busca desses mesmos personagens ao tentar entender suas atuações em meio ao horror. Compartilham seus tormentos e observações uma aristocrata russa, Olga, presa por esconder 2 crianças judias em Paris, um colaborador nazista, Jules, um símbolo perdido de tal serviço e um emblemático oficial da SS, Helmut, cujo cargo, deflagrar a corrupção entre os líderes nazistas, se confunde entre sua honestidade, gasta ao crer na "ideologia" do movimento, e o confronto com quem pratica a corrupção.
Os 3 personagens, ali desolados e sozinhos diante da câmera, trazem suas perplexidades ao espectador. São registrados com câmera estática, sendo documentados numa tela quadrada, num uso do formato 4:3, aliado ao preto e branco da fotografia de Alexander Simonov; aliás, um uso complexo da cor, pois se o filme fosse colorido, jamais sentiríamos as mesmas emoções e faria muito menos sentido. Neste sentido, a intuição de Andrei Konchalovsky aqui, foi memorável. Todo este tratamento e todo dispositvo da narrativa, que se estende por todo o filme, causa a sensação de que as histórias que vemos, os espectros desses relatos, são mesmo de outro tempo; certos momentos parecem retratos, como nos induz a forma como capta a câmera e como enquadra os personagens, porém, o maior trunfo da direção de Andrei Konchalovsky é, trazendo também ao filme um resultado metafísico, evitar a apreensão na tortura dos campos de concentração, mas invocar uma "violência espiritual", o que, acredite, é igualmente doloroso e torturante, senão mais.
Mas, em Olga, para onde convergem os outros personagens, reina a "mise en scène" e a contribuição da roteirista Elena Kiseleva. Nela também se consolida a presença das mulheres, consideradas as heroínas da resistência ao nazismo e não há como não se render a atuação da extraordinária Julia Vysotskaya. Uma contribuição que soma a este filme a definição de extraordinário.

" PARAÍSO " - Рай - Dir. por Andrei Konchalovsky - Rússia - 2016 - Distribuidora no Brasil: Mares Filmes 
(No facebook: Daniel Serafim [unindo cinéfilos] e no Instagram\Youtue: Daniel Serafim Mais Cinema)



quinta-feira, 9 de março de 2017

Crítica: Personal Shopper



De fato, há aqui um exercício instigante, curioso e provocador, do grande cineasta francês Olivier Assayas. Não foi à toa que ganhou o prêmio de direção em Cannes\2016, pois é palpável o resultado do seu inventivo desejo criativo, com a qualidade de desvendar um ambiente desconhecido e evocar, brilhantemente (como um primo distante), o resultado da obra-prima "Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", grande vencedor da Palma de Ouro em Cannes\2010. O cineasta disse, em entrevistas, que não é dever do cinema buscar respostas, mas sim de criar a ilusão, ao mesmo modo que a fé também não deixa de ser uma ilusão. Dessa forma, ao fazer um filme sobre mediunidade, obtém elementos criativos e faz surgir uma tônica para trabalhar o aspecto ilusório, também proposto pelo cinema em si. É dessas coisas inexplicáveis que o cinema se faz, em permitir a um cineasta flertar com um outro espectro do cinema, exercitando sua narrativa e produzindo, para si e para o público, o resultado dessa atração.

A personagem de Kristen Stewart, Maureen, tenta uma comunicação com o irmão que faleceu dentro da casa em que ele viveu para, assim, a pedido da cunhada, liberar o imóvel para venda. A atriz se alterna entre essa atuação e a atuação como personal shopper para uma celebridade, chamada Kyra, para quem ela é que escolhe como se vestirá e que jóias usará em eventos. É uma riqueza observar as posturas diferentes da personagem nas duas situações, pois, enquanto como médium, é completamente afetada pelo esforço incerto da comunicação com o mundo dos mortos, como personal shopper, consegue permanecer intacta, mesmo estando sujeita a frieza da relação com sua contratante, alguém que pertence a outro mundo. As tentativas de Maureen em se aproximar de Kyra são um náufrago, tamanha a distância que há entre as duas. E as tentativas de Maureen em se aproximar do irmão morto, também teriam tudo para ser um náufrago e, no entanto, trazem um surpreendente entendimento.

É interessante observar como Kristen Stewart constrói, maravilhosamente, sua personagem, oferecendo-lhe uma postura impenetrável e é um dos pontos fortes desta bela atuação. Nós não sabemos quando ela se demonstrará frágil. A personagem não busca a relação sobrenatural de modo banal, mas com um propósito e disso não se afasta. As cenas em que está próxima do desconhecido são memoráveis e a atriz se exibe em nível cavalar de concentração, o que nos interliga surpreendentemente a ela. Ela consegue trazer uma sinergia. Mas não só à essas cenas, também as cenas em que decide ceder a distância com a patroa e veste, enfim, suas roupas e usa suas jóias, o que também invade por um aspecto de autoconhecimento da personagem e sua identidade, são de uma beleza singular. Este filme tem um tempo próprio e é isto também que me faz apaixonado pelos filmes únicos de Olivier Assayas. Escutar com calma os sons assustadores que aqui são produzidos do silêncio, ser pego de surpresa no suspense dramático (e tenso) que lá pelas tantas se instaura e consumir a visão de um cineasta desta envergadura, imaginando eventos paranormais, se utilizando de elementos de gênero, sem se apropriar dos gêneros que se utiliza, tudo isso demonstra o talento e o nível de visionário que há neste cineasta. Na tela do cinema o espetáculo é surpreendente. Que, em casa, no silêncio do cômodo e na qualidade das aparelhagens, que este espetáculo se repita.

" PERSONAL SHOPPER " - Personal Shopper - Dir. por Olivier Assayas - França - 2016 - Distribuidora no Brasil: Imovision